A nave mãe era gigantesca. Conforme desceu na vertical vinda das nuvens, cobriu por inteiro a pequena península. Mal a vi soube que tinha de sair da cidade e depressa.

Sem me importar já com os nativos, saltei para fora do meu esconderijo e corri pelas ruas. A minha única hipótese era encontrar refúgio no subsolo.

Ao verem-me saltar para a estrada, as criaturas afastaram-se, ainda mais assustadas, mas não lhes prestei atenção.

Conforme avançava pelas ruas olhei para cima. Os feixes de energia do canhão central da nave mãe começaram a brilhar em tons de vermelho. A nave estava a recolher energia e preparava-se para disparar. A partir daquele momento estava em contra-relógio.

O ar começou a ficar cada vez mais pesado e carregado de electricidade estática. A arma mais temida do Império estava prestes a entrar em acção. Uma vez que os batedores não conseguiram distinguir a minha assinatura térmica, a solução era simples: reduzir a zona a cinzas. Tinha sido ingénuo ao pensar que o Império me ia deixar fugir tão facilmente.

Enquanto avançava, deparei-me com umas escadas na lateral de uma casa. Pareciam conduzir a um nível inferior. Sem pensar duas vezes, introduzi-me pela apertada passagem. No interior deparei-me com uma família de nativos. Ao ver-me o homem veio a correr na minha direcção armado com um bastão. Travei a arma com a mão e empurrei-o para junto da a fêmea e das duas crias.

Amedrontado, o homem começou a berrar ao mesmo tempo que avançava para mim.

Avaliando o panorama, calculei que a fêmea fosse a sua companheira e as duas crias, adolescentes do sexo feminino, suas filhas.

Naquele momento deparei-me com duas opções. A urgência da situação dizia-me para ignorar os nativos e seguir o meu caminho, se perdesse demasiado tempo ali ia acabar morto. Por outro lado, não conhecia o local e aquele homem podia ser a forma mais rápida de me afastar da cidade.

Sem me poder dar ao luxo de ficar indefinidamente a pensar no assunto, cliquei no meu computador pessoal e activei o sistema de tradução. Algo me dizia que ainda me viria a arrepender, mas agora estava feito…

Numa questão de segundos, o computador analisou a linguagem do nativo e começou a traduzir.

– Por favor, sê misericordioso com um simples servo do Senhor – suplicou.

Aparentemente, o homem achava-me algum ser sobrenatural, algum mensageiro de Deus. Aproveitei a deixa e falei para o computador, que traduziu de imediato.

– O Senhor vai devastar este lugar. As acusações feitas contra este povo são tantas que ele vai destruir a cidade.

O homem olhou para mim com ar cada vez mais aterrado.

– Vamos, levante-se! Leve daqui a sua mulher e as suas duas filhas, ou vocês também serão mortos quando a cidade for castigada – insisti.

– Está bem – respondeu-me o homem ainda em choque.

– Mostre-me o caminho mais rápido para sair da cidade.

O Fugitivo - 4

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