Avançando por entre becos escuros, consegui infiltrar-me na cidade sem ser detectado. Graças ao computador pessoal, evitei o contacto com os nativos, afastando-me das suas marcas térmicas. Não fazia ideia do tipo de reacção que iria despoletar naquelas estranhas criaturas, mas pelo que já tinha observado, seria provavelmente violenta. Aqueles estranhos e primitivos seres pareciam não ter qualquer espécie de empatia pelos da própria espécie, quanto mais por um visitante de outro planeta! Numa situação em particular, vi algumas das criaturas amputarem barbaramente as pernas de um dos seus sem razão aparente. Também os doentes que vagueavam pelas ruas da cidade eram escorraçados pelos guardas, sendo pontapeados e chicoteados. Definitivamente, tinha de evitar o contacto a todo o custo.

Encontrei um esconderijo num beco e aí me mantive até anoitecer. Ao cair da noite, grande parte das criaturas que vagueava pelas ruas da cidade recolheu-se para o interior das habitações. Naquele espaço apertado entre duas casas, conseguia vislumbrar o interior de uma das residências através de uma fenda na parede. As criaturas eram esguias e bípedes, e o seu corpo estava coberto pelo que parecia ser um tecido mole, envergando vestes por cima da pele. Não deixava de ser curioso que conseguissem sobreviver sem exosqueleto. Qualquer dano mais severo iria com certeza perfurar os tecidos que lhes cobriam os órgãos vitais, resultando numa dolorosa morte.

Não tardou para que tivesse de desviar o olhar da fenda. Não conseguia observar aquelas criaturas moles de duas pernas durante muito tempo, dava-me imediatamente a volta às entranhas. Nem sequer queria imaginar como seria tocar numa. Só de pensar nisso sentia arrepios na couraça!

O som de dois jactos sónicos a sobrevoar a cidade quebrou a aparente calma da noite. Assustadas com o barulho, as criaturas correram para as ruas e ficaram a olhar para o céu nocturno, tal como eu.

Os dois drones batedores que inspeccionaram o local onde me despenhei sobrevoam agora a cidade, analisando a assinatura térmica das criaturas. Escondido no beco, fiz figas para que a presença dos nativos fosse suficiente para baralhar os scanners e ocultar a minha presença.

Senti o sangue a gelar quando um dos batedores perdeu altitude e começou a avançar na direcção do meu esconderijo. Teria sido descoberto?! Nisto, um dos nativos pegou numa pedra do chão e atirou-a na direcção do drone, acertando em cheio nos sensores frontais. A esfera de metal virou-se de imediato para o agressor, e sem dar qualquer tipo de aviso, abriu fogo sobre o ser, fazendo-o explodir numa mistela pegajosa e avermelhada.

Numa questão de segundos, espalhou-se o pânico entre os nativos, que berravam e fugiam pelas ruas da cidade. Os dois drones ignoraram por completo a confusão, voltando a ganhar altitude e a afastar-se.

Abro a pinças e deixo escapar um suspiro de alívio. Aparentemente não me encontraram.

Ao olhar para o céu, percebo que os dois batedores continuam a ganhar altitude e se preparam para abandonar a atmosfera do planeta. Foi assim tão fácil? É sabido que os batedores do Império não possuem os cérebros biónicos mais avançados, deixando por vezes algo a desejar a nível de inteligência, mas costumam ser extremamente persistentes… O que vi surgir a seguir por entre as nuvens encheu-me o duplo coração de medo. Se as minhas hipóteses de sobrevivência eram escassas, tornavam-se agora praticamente nulas…

O Fugitivo - 3

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