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Os dedos tamborilavam nervosos sobre a mesa, toc-toc-toc, um reflexo do estado de espírito de Director. Toc-toc-toc.

– Não sei, sinceramente, o que fazer por si – repetiu pela quinquagésima vez, para evidente desagrado do funcionário. – A situação saiu fora do controlo.

– A quantidade de trabalho que tenho tido nos últimos tempos não está prevista no contrato! – vociferou Kraken, não se deixando engonhar. Os oito braços moviam-se à sua volta, como que salientando as suas queixas. – E a maioria não passa de falsos alarmes!

– Bem vê, senhor Kraken, a sua frase de invocação tornou-se num lugar-comum, não havia maneira de prever…

– A situação não pode continuar!

– É uma moda, passará. Lembra-se quando todas as crianças se entretinham com o Godzilla?

Kraken estreitou os olhos negros, pretendendo com o gesto demonstrar a sua desconfiança e descaso ante o precedente referido. Contudo, e porque estes não eram mais que duas fendas, conseguiu apenas com que se fechassem, exaltando um ar de cansaço que pouco o auxiliava nos seus intentos.

– O contrato não está a ser cumprido – repetiu. – Não hesitarei em chamar o Advogado se assim necessário.

O Director não se deixou amedrontar. Estava já familiarizado com os meandros da Justiça, ou não tivesse ele frequentado três anos do curso de Direito – sabia como funcionavam os prossecutores da senhora de olhos enfaixados.

– E o Advogado saberá o que fazer?

O Advogado foi chamado, deu entrada e não sabia.

– “Soltem o Kraken”? – repetiu, disfarçando a perplexidade na seriedade das feições.

– Sim, é a minha frase de invocação – confirmou o polvo. – Tem sido utilizada com uma falta de honradez vergonhosa!

– E querem apresentar queixa de cada um dos indivíduos que o faz?

“Exactamente!” exclamou Kraken, ao mesmo tempo que Director soltava um angustiado “Com certeza que não!”

– Bom, em que ficamos?

Se Advogado sentia desagrado pela falta de concordância entre os clientes, não o demonstrou. Manteve o porte de esperteza fria e convicta, o nariz de águia arrogantemente empinado e o pescoço enervantemente avermelhado pelo aperto da gravata.

– Quem lhe paga sou eu – salientou Kraken.

– Nesse caso poderemos recorrer à alínea c) do artigo 35º do Código das Criaturas Marinhas que permite que o réu seja citado na pessoa abstracta do grupo popular…

– O salário dele sou eu quem paga – interrompeu Director, deixando bem claro que sem o seu contributo, Kraken não teria com que gratificar os serviços do Advogado.

–… embora seja extremamente difícil conseguir um veredito favorável, pela presença de inocentes em meio dos que poderiam ser culpados.

– Pois que se tente isso – vociferou Kraken. Que diabos, após décadas, séculos!, de um trabalho honesto como terror dos mares, construindo uma reputação como nenhum outro, não tinha agora o direito de a salvaguardar? Ele, ele, era o único que sabia tudo aquilo a que tinha abdicado: férias, feriados… Família! Poderia ser agora pai, talvez avô, mas não, permitira-se um divórcio – litigioso, ainda para mais – iniciado por uma esposa que se fartara das horas extraordinárias. Mas que culpa tinha ele se os navios persistiam em ser afundados? Kraken limitava-se a obedecer ordens, orgulhoso do seu cumprimento diligente. E agora, tão perto que já se encontrava da sua idade de reforma, é que uma nova geração sem educação lhe vinha destruir a carreira a que tanto se havia dedicado?

– Punição! – continuou. – É disso que precisam, consequências para os seus actos!

– O problema, senhor Kraken, é que a maioria não tem ainda sequer a idade legal para ser constituído arguido – explicou Director, uma nota de cansaço a despontar-lhe na voz. – Sabe como funcionam as leis humanas, protegem muito os seus.

– Mas encontramo-nos em território legal marítimo!

– Não exactamente, veja que em direito intermarítimo privado é preciso conseguir um equilí…

– A minha outra opção é acusar o senhor por incumprimento de contrato – largou Kraken, tão fora de si que manchou inadvertidamente toda a superfície da carpete com tinta negra. A pele gelatinosa ganhou de imediato uma vermelhidão compatível com a do pescoço de Advogado.

Educadamente, nem Director nem Advogado falharam na pretensão de que não tinham reparado em qualquer situação embaraçosa – embora as razões que levavam o primeiro a fazê-lo fossem provavelmente mais incentivadas pelo desejo de reverter a desagradável ameaça do polvo. Que falta de chá! Depois de tantos anos de trabalho em conjunto, virava-se assim contra ele! Eram aqueles novos tempos, sem dúvida, que colocavam as ideias radicalistas nas cabeças dos funcionários, uma chatice. Director bem sabia que deveria ter lutado com maior veemência contra aquela ideia ridícula de sindicatos. E se Kraken resolvesse chamá-los ao barulho? A burocracia, os aborrecimentos… Uma chatice!

Não, era necessário que aquilo ficasse resolvido ali, entre portas. Melhor teria sido se Advogado ainda não tivesse sido chamado a meter o bedelho, mas enfim, já lá estava. Talvez conseguisse que o dito lhes arranjasse uma solução legal minimamente aprazível.

– Poderá fazê-lo, caso o queira – acedeu Advogado, em resposta à ameaça de Kraken, intencionalmente ou não provocando uma mini paragem cardíaca ao Director, que imaginou de imediato a publicidade negativa que lhe afectaria a empresa. – Mas não o aconselho. Ainda que o veredicto lhe fosse favorável, não resolveria a situação inicial.

– Sardinhas e bacalhaus! – Embora desta vez não tivesse tido qualquer tipo de descuidos tinteiros, era notória a irritação de Kraken. – Dediquei toda a minha vida à sua empresa, Director, e nada mais faz do que negar todas as minhas sugestões sem dar qualquer tipo de solução em troca. Mais! Corrompe o meu Advogado! Pois fique sabendo que considero tal atitude como uma vergonha! Uma vergonha! Chafurdar nas deficiências dos outros não é só politicamente incorrecto, é uma verdadeira falta de humanismo!

O Director achou-se tremendamente injustiçado.

– Senhor Kraken, não me parece que tenha grande autoridade para…

– Não me desvie o assunto!

– Mas foi o senhor que…

– Lulas e alforrecas, já lhe disse que não me desviasse o assunto!

– EU NÃO DESVIEI PORRA NENHUMA!

– NÃO ME FALE ASSIM!

– EU FALO COMO QUI…

Mantendo a silhueta impassível, Advogado assistiu à fúria incontida de Kraken, que na libertação do ensejo que há muito lhe corria pela alma – caso possamos pressupor que a possui – enrolou Director no mais grosso braço que detinha, apertando-o até os ossos estalarem numa semelhança harmoniosa com conchas do mar a partirem-se de encontro às rochas.

Quando o corpo caiu sobre a carpete manchada, os olhos esbulhados feito um peixe, Advogado limitou-se a ajeitar a gravata, erguendo a atenção arguta na direcção do polvo gigante, que esperava numa calma ameaçadora por resultados minimamente correspondentes aos elevados honorários que lhe eram cobrados.

A ideia súbita, tão lógica que Advogado não podia crer não a ter tido antes, saiu-lhe com uma naturalidade e presunção capazes de pretender ter sido a sugestão trabalhada já com tempo e atenção.

– Presumo que tenha ouvido falar do aquecimento global?

Kraken voltou a estreitar os olhos, com os mesmos resultados que conseguira na primeira vez que o fizera. Existem erros que nunca se aprendem.

– Sim, já. O que pretende?

– Utilizá-lo a nosso favor – retorquiu Advogado, todo ele profissionalismo e competência. – Sou-lhe sincero: com meios legais não chegará a lado nenhum. O processo arrastar-se-á durante anos, acabando ou arquivado ou resolvido contra si. Não, não, ouça-me – prosseguiu, apercebendo–se das intenções de Kraken para o contrariar. – De momento, as criaturas terrestres são as que dominam, jamais permitirão que o seu direito de imagem e bom nome prevaleça sobre o de liberdade de expressão de meia dúzia de criançada. No entanto! – exclamou, o tom monocórdico mudando tão subitamente que o monstro se sobressaltou. – No entanto, a situação mudará caso os mares consigam o domínio.

– O domínio? – repetiu Kraken, mal acreditando no que ouvia. Seria mesmo aquilo que Advogado lhe estaria a insinuar? Levar as águas a cobrirem os continentes, prolongando a sua área de acção por todo o lado? Se pudesse, teria sorrido. Um regresso aos velhos tempos, onde não havia mariquices quando se tratava de impor o respeito! Que ideia tão maravilhosamente simpática! E todavia…

– Mas como sugere que provoquemos isso? Com certeza não poderemos controlar o aquecimento global…

– Não – concordou Advogado. – Mas poderemos acelerá-lo. Já se apercebeu da quantidade de petróleo e demais produtos que vêm parar ao mar? Os seres humanos são criaturas muito descuidadas. – E Advogado, como cabia a todos os demais da sua espécie, havia-se especializado no uso e aproveitamento de falhas e vazios onde estes existiam. – Imagine caso, por alguma infelicidade lamentável, todos aqueles produtos corrosivos se incendiassem, ardendo num eterno esgravatar à camada de ozono? Os icebergs rapidamente começariam a descongelar, o nível das águas subiria…

Ou talvez ficasse tudo pelo aumento do efeito de estufa e a camada de ozono se mantivesse exactamente como estava. Advogado não tinha a certeza, mas o importante era que Kraken também não.

– E aí eu poderia perseguir livremente todos os que me invocassem como piada, sem necessidade de transportes humanos, ou da papelada que tanto amam – completou Kraken. Pela primeira vez em anos, sentiu-se verdadeiramente satisfeito por ter contratado os serviços de Advogado. – Embora tal tenha uma parecença tremenda com uma conquista do mundo.

– Meu caro! – exclamou Advogado, escandalizado. – Jamais! Actuaremos perfeitamente de acordo com a lei, garanto-lhe! Mais lhe digo, merecemos um brinde – decidiu, tirando uma garrafa de conhaque debaixo da secretária do falecido Director (marido desprezado, pai ausente, eternamente chorado pelos saudosos familiares, paz à sua alma). Serviu dois copos, entregando o primeiro a Kraken e erguendo o seu no ar. – Tratar-se-á de legítima defesa. Nenhum tribunal o poderá condenar por tal.

Kraken não poderia sentir-se mais feliz do que naquele momento. Tudo resolver-se-ia e ainda salvaguardaria o seu bom nome!

– Brindemos – concordou, os copos chocando nos seus delicados tlim-tlins. – À não conquista do mundo!

– À não conquista do mundo!

E, assim, o mundo não foi conquistado.

polvo

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