[CENÁRIO: duas vizinhas quarentonas, Dona Marília e Dona Henriqueta, estão sentadas no apartamento de D. Marília, à hora do lanche, a tomar chá com biscoitos. Ao canto da sala, o filho mais novo da anfitriã, Rúben, joga empenhadamente na sua consola portátil, esforçando-se por ignorar as duas mulheres.]

MARÍLIA: Veja lá a vizinha que há uns dias descobri o que faz aquele vizinho misterioso!

HENRIQUETA: Ai sim? E então, diga lá, o que é que o homem faz?

MARÍLIA (com ar muito satisfeito e de quem faz uma enorme revelação): Nem vai acreditar! É um roqueiro!

HENRIQUETA: “Ró” quê?

MARÍLIA (em tom exasperado): Roqueiro, mulher! Artista, músico!

HENRIQUETA (pondo uma expressão intrigada): Realmente, lá cara disso ele tem. Quer dizer, estamos a falar do sujeito mesmo muito alto, de pele muito branca e barba e cabelo compridos, não é verdade?

MARÍLIA: Sim, o vizinho do 4-B, aqui em frente.

HENRIQUETA: Pois, nunca o achei normal, com esse aspecto. E parece que fica tudo frio quando ele passa. Ele até fica azulado. Cá para mim, deve ser alguma coisa que ele toma.

MARÍLIA: Olhe, se calhar… É que com artistas, nunca se sabe!

HENRIQUETA (acenando com ar entendido): Roqueiro, sim senhor… Quem diria? Ele até nem faz muito barulho, pois não, vizinha?

MARÍLIA: Olhe, em boa verdade, até é bem sossegado, deve ensaiar noutro sítio.

HENRIQUETA (com ar desiludido): Ah, pois.

MARÍLIA: E nunca se mete com ninguém, é só “bom dia” ou “boa noite”, com aquele sotaque esquisito.

HENRIQUETA (com ar mais interessado): Ele é estrangeiro?

MARÍLIA: Ora, isso é que não sei. Mas deve ser. Lembro-me do meu António dizer que ele não vai às reuniões de condomínio, não se mistura, mas viu nas contas do prédio que o nome dele é esquisito… Emi, ou Imi.

HENRIQUETA: Credo, como o imposto! Mas olhe lá, como é que descobriu o que ele faz?

MARÍLIA: Ora bem, outro dia, estava a ajeitar as plantas da entrada, e vi entrar outro sujeito, também com ar de artista, para o apartamento.

HENRIQUETA (debruçando-se ligeiramente e pegando num biscoito): Outro roqueiro?

MARÍLIA: Acho que sim, também tinha o cabelo comprido, mas não era tão alto. E tinha pele normal. Louro, muito bonito…

HENRIQUETA: Se calhar não se mete nas mesmas drogas…

MARÍLIA (com ar aborrecido pela interrupção): Mas adiante. A verdade é que passado um bocado estavam a discutir. Muito alto, mesmo. É que o vizinho do 4-B pode ser sossegado, mas quando fala, tem cá um vozeirão…

(Henriqueta acena, mas não diz nada)

MARÍLIA (pondo um ar inocente forçado): E eu ouvi um bocado da conversa deles. Não que eu ande por aí a ouvir às portas, veja bem!

HENRIQUETA (com ar cúmplice): Não, claro que não! Mas o que é que eles disseram?

MARÍLIA: Ora aí está! Estavam a falar estrangeiro. Percebi só o que eu acho que era o nome do outro, Baldas, ou coisa do género, e que estavam a falar de um festival de Rock.

HENRIQUETA: Baldas? Baldas, Imi… Têm cada nome estes sujeitos… E não são portugueses! Que faria se fossem! E estavam a falar de um festival?

MARÍLIA: Sim, acho que sim, foram-se embora a falar disso. Não se calavam com o assunto. E na verdade, o vizinho não voltou e já passaram uns dias. Se calhar, aquilo correu mal.

HENRIQUETA (esperançosa): Podíamos ir procurar notícias. Qual era o nome do festival?

MARÍLIA (com ar pensativo): Pois, um de que nunca ouvi falar. Talvez o meu filho conheça. Ó Rúben! Conheces o festival “Rague-Na-Rock”?

(Rúben continua a ignorar alegremente a mãe. Cai o pano. Ao erguer-se temos o cenário seguinte)

[CENÁRIO: Ymir e Baldur atravessam a ponte Bifröst, em direcção a Asgard, enquanto discutem calmamente.]

YMIR: Não sei como te deixei convenceres-me a vir.

BALDUR: Então, Pai dos Gigantes? O meu pai quer encerrar este ciclo, já começou o Ragnarok e isso tudo. Para voltar ao princípio, não pode fazê-lo contigo desaparecido. Já discutimos isso!

YMIR (cor ar queixoso): O Odin sabe muito bem que detesto estes ciclos. Acabo sempre morto!

BALDUR: Ele também. Nós todos, aliás, ao longo do ciclo. Nunca me safo daquela flecha. Mas depois renascemos de novo. Pensa nisso!

YMIR: Oh, sim, sim. Só para ser desmembrado mais uma vez e usado para iniciar a nova criação!

BALDUR: Vá, não sejas negativo! Pensa como és uma peça fundamental no esquema das coisas!

YMIR (após um instante de silêncio): Suponho que tens razão. Achas que podemos parar pelo caminho e tomar um corno de hidromel?

BALDUR: Não vejo problema nenhum. Aliás, conheço uma taverna espectacular, pertence a uma Valquíria aposentada…

O Vizinho do 4-B

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