Levantou os olhos do jornal ao ouvir um gemido vindo da cama. A sua mulher tentava virar-se, sem sucesso. Aproximou-se de imediato da cama para a ajudar a voltar o pequeno corpo, sentindo os ossos que se destacavam na pele acinzentada.

– Respira fundo, vai tudo ficar bem! – Murmurou, ajeitando os cobertores. No entanto, no seu interior sabia que não era verdade.

Como resposta, recebeu apenas um suspiro profundo, seguido por um gemido de dor. Ficou junto de Anna até esta relaxar de novo. Ambos sabiam que não viveriam muitos mais dias juntos, com o estado de saúde dela tão deteriorado.

– Amor. – Ouviu a voz dela a chamar, num sussurro.

– Diz! – Agarrou-lhe a mão frágil, que quase parecia feita de papel.

– Fazes-me um jardim?

Hesitou. Desde o grande colapso ambiental há vinte anos que as plantas tinham desaparecido da face da Terra. O único meio de sobrevivência era manterem-se dentro das casas, com oxigénio produzido e purificado em laboratório, ou então transportar máscaras no exterior. A Terra estava agora coberta por um deserto cinzento e uma poeira minava permanente o ar, possivelmente letal. As pessoas morriam de doenças estranhas, e a mais recente vítima tinha sido a sua mulher, a minha sua Anna. Mas como podia recusar-lhe um último desejo, mesmo que fosse impossível de se concretizar?

– Faço, amor.

– Prometes?

– Prometo!

Esboçou um sorriso e fechou os olhos, demasiado fraca para continuar a falar. Agora que a promessa estava feita, tinha de a cumprir. Mas onde ia encontrar sementes e terra capaz de produzir vida?

Saiu do quarto dela no hospital, visivelmente desanimado. Um médico aproximou-se para saber como se encontrava, e ele contou-lhe da sua promessa.

– Sei que parece impossível, mas corre o rumor de que existe um homem que guarda sementes férteis e terra capaz de as gerar.

– Como? Onde?

O médico olhou à sua volta e passou-lhe um papel para as mãos.

– Isto foi-me dado por um paciente antes de morrer. É a morada desse tal homem.

Agradeceu, do fundo do seu coração, ao médico e abriu o papel. Não era longe, um filtro na sua máscara de oxigénio chegaria perfeitamente para a viagem. Como era possível haver alguém assim tão perto e ninguém saber?

Sabendo que Anna não teria muito mais tempo, apressou-se a colocar um filtro novo na sua máscara e a sair do hospital. Apesar da poeira e da terra árida, conseguiu chegar ao destino indicado sem grandes problemas – uma casa antiga e degradada, semelhante a todas as outras. Bateu à porta e aguardou.

Um homem idoso, segurando uma máscara contra a sua cara, abriu-lhe a porta.

– Que precisa?

– Ouvi dizer que tem sementes que permitem…

O homem suspirou e preparou-se para fechar de novo a porta.

– Por favor, você é a minha última esperança. A minha mulher está à beira da morte e o seu último desejo é que eu lhe faça um jardim!

O homem parou e fixou-o durante algum tempo. Sem dizer nada, fez sinal para que entrasse atrás dele. Entraram numa sala simples, sem praticamente qualquer mobília ou decoração.

– Não sei como obteve a informação, mas isso agora não interessa. Sim, tenho o que precisa, e como é um caso especial, não lhe cobrarei nada.

Arregalou os olhos, não acreditando na sua sorte. O homem levantou-se e tirou um saco castanho, com ar sujo e antigo, e deu-lhe para as mãos.

– Aí encontrará terra e sementes de flores variadas. Não sei ao certo quais são. Mas sei que nada do que está aí é normal, foi tudo geneticamente modificado há muitos anos, quando os primeiros sinais de um colapso ambiental começaram a aparecer. Inspirados nos Jardins Suspensos da Babilónia, e sabendo que Terra a curto prazo deixaria de ser adequada para gerar vegetação, criaram um novo tipo de solo.

– Eu preciso que sejam plantas que cresçam rápido, a minha mulher não tem muito mais tempo.

– Em menos de um dia elas estarão crescidas. Mas precisam de ser alimentadas, e não sei com o quê.

– Água?

– Quando estas plantas foram alteradas, deixaram de aceitar água. Crescem por si, mas precisam de se alimentar, e ninguém chegou a descobrir com o quê.

– Não faz mal, apenas preciso das plantas para que a minha mulher as veja antes de morrer.

Não queria acreditar na sua sorte. Parecia-lhe tudo muito disparatado, e no entanto não perdia nada em tentar. Agradeceu ao homem, colocou a máscara de oxigénio e dirigiu-se de novo ao hospital.

Anna ainda dormia, gemendo em curtos intervalos. Tinha de ser rápido. Abriu o saco e tirou um pouco da terra, já misturada com as sementes. Qual não foi a sua surpresa quando esta começou a flutuar em seu redor. Começou aos saltos, tentando não fazer muito barulho para não a acordar, demasiado entusiasmado com o que via. Espalhou a terra pelo quarto até se sentir satisfeito. Agora só tinha de esperar. Cansado da viagem e das preocupações dos últimos tempos, deitou-se junto de Anna e, segurando-lhe o corpo frágil, deixou-se adormecer.

Acordou com uma mão que lhe batia no ombro. Abriu os olhos e voltou-se para ver Anna que esboçava um sorriso.

– Obrigada, amor. – Sussurrou.

Olhou para cima, abismado. À sua volta, toda a terra tinha florescido em flores de diferentes cores, tamanhos e feitios. Era uma visão que não tinham há muitos anos, quase que se tinham esquecido de como era colorido, como cheiravam bem.

Anna sorriu e apertou-lhe a mão, a qual ele apertou de volta. Assim ficaram, a olhar aquele jardim maravilhoso, suspenso no ar, até ela exalar o último suspiro e morrer em paz.

Ele deixou-se ficar junto dela, sentindo-se sozinho, isolado. Queria chorar, mas no fundo sabia que seria egoísta da sua parte, pois Anna tinha partido feliz e já não sofreria mais com a doença.

Aguardou que algum médico viesse, enquanto via as flores a crescerem cada vez mais, tomando formas diferente. Nenhum médico apareceu nas horas seguintes, talvez porque estivessem ocupados com a enorme quantidade de enfermos naquele hospital.

Olhou de novo para as plantas com mais atenção. Que estranho, pareciam quase monstruosas, de tão grandes que estavam a ficar. Continuavam a flutuar por cima dele, mas pareciam estar a aproximar-se cada vez mais. Ou seria uma ilusão? Sentia-se quase embriagado com o cheiro forte que as plantas pareciam deitar, cada vez mais intenso à medida que cresciam e preenchiam o quarto.

Ainda com a mão de Anna na sua, a sua última memória foi quando uma das plantas abriu o que parecia ser uma enorme boca e o agarrou. Não lhe doeu – sentia-se quase anestesiado. As plantas tinham de se alimentar, não era verdade? Ao menos que fosse com o seu corpo. Assim poderia reunir-se com Anna. Com um sorriso, abraçou-a e deixou que os seus corpos desaparecessem juntos da face da Terra.

fotojardins

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