Quando levara a flauta aos lábios e olhara o público, vira-a de imediato. Tal como há poucas horas, ela sorriu. Agora já tinha um nome a quem a associar, e uma história. Antes de partirem, e para que a pudesse reconhecer sem disfarce, Alessia mostrara-lhe uma fotografia em que ambas sorriam para a câmara, de cabeças encostadas. Não fizera perguntas, a tenente já lhe dera toda a informação necessária para deduzir inúmeras coisas. Samanta revelava um sorriso fácil e um olhar bondoso. Fora-lhe também mostrado um vídeo gravado durante a expedição e vê-lo fez com que lamentasse por ela. O que tinha perante o palco era um corpo parasitado por uma bactéria, uma experiência que correra definitivamente mal. Se o seu dom fosse assim tão bom, poderia ajudá-la. Acreditar nesse improvável deu-lhe força.

Soprou o bocal da flauta. O som ecoou por todo o espaço, transmitido pelas colunas dispostas ao longo do comprimento da praça. Era a primeira vez que tocava para um público tão gigantesco, contudo, ao mesmo tempo, era como se tocasse somente para a mulher diante de si. Ela segurava a caixa com ambas as mãos. Orfeo era incapaz de desviar os olhos daqueles que o observavam através da máscara dourada. Samanta oscilava ao ritmo do seu toque, porém não via nela a latência que começava a atingir o público. A peste também modificara o seu sistema nervoso de forma a deturpar o som, ou a não absorver o impacto.

Os andróides tinham recebido informações precisas sobre o alvo perigoso, um pouco antes das forças policiais terem, subtilmente, rodeado a praça. Ciro e Alessia separaram-se à chegada. Ambos os investigadores usavam pequenos GPSs para detectar os drones que se tinham literalmente agarrado à roupa de Samanta. Eram demasiado pequenos para ela perceber o peso, e gastavam muito menos energia se mantivessem somente o sinal de localização.

Ciro deixara o vestido e trajava agora um fato elegante, de rosto escondido por uma bauta branca e dourada, quando o levara até junto do palco e mostrara o distintivo aos responsáveis pelo concerto. A ordem fora dada e, quando o grupo presente terminara a música actual, fora trocado por Orfeo. Nesse momento perdera Ciro de vista. Quisera pedir-lhe para que não a matasse, mas não fora a tempo.

À medida que tudo serenava, como se um anjo do sono tivesse abençoado o local, era impossível não detectar o movimento de duas pessoas, cada uma vinda de seu lado, ladeando Samanta. Ela percebeu-o não muito depois, ao seguir o olhar de Orfeo para um e depois para o outro. A tenente, como o isco deixara de ser ela, trocara o vestido e a trifaccia por um fato composto por calças e casaca e uma volto onde o que mais saltava à vista eram as cartas de tarot que ocupavam a metade superior da máscara. Seriam elas a ditar o destino que pairava na noite?

Não parou de tocar, quando a viu recuar e embater num homem que mal se apercebeu. As mãos moveram-se ao longo das margens da caixa, procurando os fechos. Ao abrir o primeiro, um só tiro perfurou-lhe o peito, o estouro sobrepondo-se à música. Samanta estremeceu, recuando um passo. A caixa escorregou-lhe das mãos e caiu a seus pés, sem se abrir. Ficou parada, de olhos baixos e lábios entreabertos, lembrando uma estátua.

Por cautela, Alessia continuava com a arma apontada, enquanto se aproximava. Empunhava a pistola com ambas as mãos, mas ainda assim estas vacilavam face ao alvo contra o qual tinham disparado.

A boca de Samanta mexeu-se, formando palavras mudas. Orfeo não as compreendeu. Obrigara-se a continuar a tocar, porém o fôlego fugia-lhe, roubado por um aperto no peito demasiado doloroso. As lágrimas fugiram-lhe, rosto abaixo. Não desejara nada daquilo, a sua música não salvara ninguém.

Um fio de sangue escorreu por entre os lábios vermelhos da cientista. Tocou-lhe com as pontas dos dedos. A boca estava repleta daquele sabor férreo a vida, a sua vida, que se esvaía. Embora soubesse também à carne putrefacta de um corpo que se deteriorava. E fedia. No entanto, as pernas recusavam-se a dobrar. A dor no peito aumentava, queimando-a por dentro. O que sentia a vibrar, cada vez com mais dificuldade, era o coração? Observou o tom vermelho vivo dos dedos. Não combinava com a música. Estava a manchá-la, estava a manchar o seu sonho…

Numa última quebra de forças, o corpo tombou para trás, batendo nas lajes frias.

Orfeo não aguentou e cessou a música. Saltou do palco e correu para ela. Contudo, quando a alcançou, já Alessia se debruçara sobre o corpo, removendo-lhe a máscara com um cuidado extremo. Olharam-se e Samanta sorriu, face ao rosto encoberto da tenente.

– Não chores. Tinha de ajudar… era uma ilusão, mas tinha – sussurrou, as palavras embargadas pelo sangue. – Musicasomnium… precisava deles, da morte, morbus… ela ia morrer, nós podíamos salvá-la, mas deixámo-la, era tão pequenina…

A confusão no que dizia falava por si só em relação à dor que fora abandonar aquela criança e como, inadvertidamente, a peste usara isso para a enlouquecer.

A mão de Samanta esticou-se e agarrou o músico pelo folho da manga, quando este se ajoelhou ao seu lado.

– Toca. Quero sonhar, quero… tê-la nos meus braços, embalá-la…

– Cuidado!

Orfeo sentiu-se a sufocar quando foi puxado para trás pela gola do fato. Com o impulso, a flauta escapou-se-lhe da mão.

Um brilho repentino formou-se em redor do corpo de Samanta, criando um invólucro esférico feito de fractais reflexivos. Ela olhou-os, e Orfeo juraria que, naquele olhar, reconhecera a mesma conformação perante a morte que vira nos olhos da criança do vídeo. No segundo a seguir, a mulher desapareceu.

Tossiu, esfregando o pescoço dorido.

– Quase que foram engolidos pela bolha temporal. E se fossem, já não voltavam – advertiu Ciro, atrás deles. – Aqui não é sítio para se lamentar os mortos. O Carnaval tem de ser retomado.

Sem uma palavra, Alessia levantou-se. Guardou a arma no coldre encoberto pela casaca e desapareceu, de rosto baixo, entre a multidão. Orfeo lançou um olhar de repreensão a Ciro, todavia conteve-o quando percebeu que também havia uma expressão de lamento por detrás da bauta.

– A dor da perda de um amor é grande. Acho que ela vai precisar da tua música para ajudar a sarar a ferida. Vamos?

Orfeo mirou o local donde Samanta desaparecera. A sua flauta fora com ela. De alguma forma, uma parte do músico acompanhá-la-ia.

*

O céu era uma só nuvem plúmbea, pesada, ameaçadora. Ia cair-lhe em cima, estava certa. O corpo, deitado sobre o chão inundado da Praça de S. Marcos, encontrava-se parcialmente dentro de água, a qual a arrefecia, como a morte. Vinha devorá-la.

Um chapinhar fê-la deixar de encarar o céu. Rodou um pouco a cabeça. Ali estava ela, de pés descalços. A roupa continuava andrajosa, no entanto tão limpa que ia jurar que brilhava. Tal como os cabelos despenteados. Já não havia manchas na sua pele muito clara, nem bubões. Apesar disso, continuava sem perceber se era menino ou menina. A criança ajoelhou-se e fez-lhe uma festa nos cabelos escuros.

– Estás curada – murmurou Samanta, contudo sabia demasiado bem qual a verdade. Nem as próprias ilusões da mente a enganariam a esse respeito.

A criança acenou.

– E a senhora Sam também estará – disse.

Samanta inspirou com dificuldade. A criança tornava-se menos nítida à medida que o frio aumentava.

– Toca – pediu, da mesma forma que um dia a pequena lhe pedira pão. – Por favor.

Estendeu-lhe a flauta que estivera imersa, bem segura pela sua mão. Ela tomou o instrumento musical, ainda a escorrer água do interior, e aproximou-o dos lábios. As pálpebras de Samanta descaíram, por fim.

O anjo tocou só para si.

Parte V

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