Orfeo bateu no peito quando a bebida quente o engasgou em resposta à surpresa da revelação. Pelo contrário, Ciro sorriu-lhe, o olhar tornando-se felino.

– Adorava ficar na conversa, mas os drones que vigiavam o palazzo detectaram uma figura encapuzada com uma máscara dourada a sair por uma janela. Não vão perdê-la de vista agora que a encontraram. – Deu uma nova dentada à sandes. – O que vamos fazer com este bonito músico engasgado?

Ele tentou controlar a tosse e o rubor que lhe manchava as bochechas. Respirou fundo, chamando a si a calma. A tenente observou-o, ponderando no assunto.

– Detectaram alguma rota? – quis saber, deixando a questão pendente. Tocou num botão da secretária e um holograma projectou-se de um orifício da madeira, do seu lado esquerdo, voltado só para ela.

– Se não fizer qualquer desvio menos óbvio, dirige-se para a Praça de S. Marcos – disse, de boca atafulhada. – Aquilo está a transbordar. Mobilizo os guardas? Não há forma de manter uma quarentena ali, vai gerar-se o pânico.

– Devíamos detê-la. Envia-os, porém que sejam discretos. Cerquem a praça. Tu, troca o disfarce. Tens autorização para matar, se não a conseguires capturar. Os sedativos não têm efeito nela – disse, séria. – Quanto a mim, vou tentar servir de isco, usando o teu último disfarce. Orfeo – olhou o rapaz –, é mais seguro ficares aqui. Descansa, acima de tudo.

Ele olhou-os, apreensivo, mas não discordou. Era só um músico, não sabia usar armas nem lutar.

– Não. Quero que ele toque, é o isco perfeito – interrompeu Ciro, decidido.

– Não vou arriscar a vida de um civil – retorquiu ela. – E sabes bem o efeito que as ondas sonoras da música têm em quem as ouve.

– Sei. Fazem com que o sistema nervoso reaja de forma a controlar o sistema imunitário. Inicialmente as defesas desregulam-se, para no fim se reorganizarem de uma forma tão eficiente que são capazes de combater as doenças mais mortais. Fiz o trabalho de casa, li os relatórios e os estudos médicos. – Lançou-lhe um sorriso irónico. – Estamos perante uma doença mortal, e os nossos queridos engenheiros moleculares ainda não conseguiram um antibiótico que eliminasse esta bactéria. A meu ver, é mais do que próprio tentar usar o recurso alternativo.

– Mas a música…

– E sabes que mais, eu sou surdo. A música dele não me hipnotiza – declarou Ciro, fitando-a. – A minha leitura de lábios é tão boa que, por vezes, há quem se esqueça disso. Foi por isso que me foi dada esta missão. Quanto a ti, usa uns tampões nos ouvidos. A única coisa que quero saber é se o rapaz quer vir comigo, ou não. E, sabendo das minhas pesquisas que o Orfeo é reservado, mas bastante virtuoso a outros níveis, também consigo adivinhar a resposta a essa pergunta.

Alessia passou uma mão pelo rosto. Depois do aceno que o músico dera, não iria contra os argumentos do colega.

O rapaz voltou a gesticular, expressando uma última dúvida que ficara por esclarecer.

“Porque é que ela anda atrás de mim?”

A tenente observou-o, antes de desviar a atenção para o ecrã, não dando voz a um número invulgar de sentimentos que lhe atravessaram o rosto.

– A Samanta sempre teve um fascínio imenso pela sua arte, desde o primeiro dia em que o ouviu a tocar, há alguns anos. Lembro-me bem das palavras dela: “ele é feito de sonhos e harmonia, dá esperança. Podemos ter um igual, mas pequenino?” – Um sorriso triste manchou-lhe o rosto e os olhos brilharam, antes de desligar o holograma e se erguer, num movimento decidido.

*

A música enchia a Praça de S. Marcos. Não havia frio que arrefecesse a animação, nem sequer a ameaça de chuva assustava os foliões. As luzes reflectiam-se nas máscaras, fazendo com que humanos se confundissem com andróides, tornando-os um só povo.

Um homem curvou-se à sua passagem, numa vénia que era misto de respeito e brincadeira. Outros dois afastaram-se, fingindo-se chocados, numa representação que combinava com as expressões das suas máscaras. Samanta ignorou-os, caminhando com passos leves. Nas mãos segurava uma caixa grande, que havia escondido sob o palco montado de frente para a basílica. No interior daquela prisão de madeira a vida era vibrante, esperando a liberdade. Passou a mão sobre a tampa, com um carinho sincero.

– Disse-te que, se pudesse, te traria comigo. E trouxe, e alimentar-te-ei – sussurrou.

Passou por entre os mascarados, insensível aos encontrões, e saiu de sob as arcadas do Palazzo Ducale. Queria estar no centro, queria que todos fossem o sustento dela. Era tão pequena, precisava de crescer com um sorriso nos lábios, sem tosse, sem febre, sem prisões para o corpo, forte…

Tudo o resto, para além daquela ideia, era tão vago quanto a brisa. Grande parte da sua consciência imergira num pântano denso. Nada mais importava.

Parou onde sentiu o calor mais compacto, as respirações mais ofegantes, o entusiasmo mais vivo. Sorriu, olhando em volta. Um chapéu, que parecia ter depenado a cauda de um pavão, bateu-lhe no bico da máscara, deslocando-a. Não houve pedido de desculpas, no entanto ela não se importou. Quando acabou de se ajeitar, uma mudança na atmosfera festiva chamou-lhe a atenção. A multidão sossegara de forma quase abrupta e a música cessara.

Ergueu o olhar para o palco. O vocalista estava a ser substituído por um rapaz franzino vestido de arlequim, que nas mãos de dedos finos segurava uma flauta transversal. O microfone foi ajustado ao seu tamanho por um braço mecânico acoplado ao palco. A única apresentação que o público teve foi o primeiro toque de uma nota longa.

Samanta sorriu e algo no pântano da sua consciência remexeu-se.

Parte IV

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