Um pó negro ergueu-se do interior da caixa, tomando a direcção dos mascarados. Ao mesmo tempo, pequenos pontos pretos saltaram lá de dentro, perdendo-se de vista entre as saias dos vestidos e os sapatos dos senhores.

– Vamos, idiota! – urgiu a mulher, num silvo.

Arrastou-o à força para a porta lateral e fechou-a com um pontapé, mal ambos a atravessaram. Orfeo mirou-a, sabendo que lhe estava a escapar algo importante.

– Temos de sair daqui e ordenar uma quarentena imediata – disse, passando-lhe a flauta para as mãos. A voz era mais grossa do que imaginara à primeira vista. – E não te atrevas a voltar a tocar isso. Não quero mais zombies na minha proximidade.

Orfeo piscou os olhos, apertando o instrumento contra o peito e abanou a cabeça, confuso. O que é que se estava a passar?

– Anda, não temos tempo.

Puxou-o pelo braço em direcção às escadas. Pelo caminho usou os dentes para arregaçar a manga do vestido e tocou com os lábios numa pulseira electrónica. Acendeu-se de imediato, surgindo um rosto feminino num pequeno ecrã rectangular. Os lábios da imagem moveram-se, mas não emitiram som algum. Contudo a sua captora respondeu-lhe.

– Não, não consegui. Apareceu do nada quando tentei parar o flautista. O disfarce era demasiado óbvio para levantar suspeitas sérias. A maldita libertou uma caixa cheia de pulgas, provavelmente infectadas, e algo mais, por via aérea, com o bacilo. Eles ainda estavam aturdidos, provavelmente alguns ainda não tinham sequer emergido do inconsciente. A bactéria vai devastar as defesas deles… Sim, faz isso, já.

A comunicação desligou-se.

Ao atingirem o piso térreo, Orfeo puxou o braço, libertando-se e encarando a mulher, de lábios firmemente cerrados. Queria uma explicação e ela deve tê-lo percebido, porque, por entre a sua urgência óbvia, revirou os olhos e suspirou.

– Foste usado por uma entidade que viajou desde a Idade Média até aos dias de hoje para voltar a libertar uma bactéria que já matou um terço da população europeia, numa altura apelidada por época da peste negra. Não, não estou a gozar com a tua cara – disse, interpretando o franzir de sobrancelhas de Orfeo como puro cepticismo. – Isto é mais complicado do que parece, mas, a partir de agora, estás sob a minha jurisdição.

Abanou a cabeça numa negação e ergueu as mãos, gesticulando. Só depois se lembrou que ela não deveria perceber linguagem gestual.

– Não vais para casa, muito menos buscar o teu estojo. – Para sua surpresa, a mulher entendera. – Só te vou explicar isto mais uma vez. O sítio onde deixaste o teu estojo pode já estar contaminado. Nós próprios podemos já estar, porém não acredito que o sopro dela tivesse dado asas a uma propagação tão rápida. Em todo o caso, aquilo é uma estirpe mutada multirresistente. Não temos antibiótico para ela. Toda aquela gente – apontou para cima – tem os dias contados se não for fabricado um antibiótico ou o próprio corpo não conseguir dizimar o bicho. E tu vens comigo se não quiseres ser considerado cúmplice daquela mulher.

Orfeo não conseguia acreditar naquilo em que se fora meter. Tirou a máscara e passou a mão livre pelos olhos.

– Em todo o caso, chamo-me Ciro. Agora, vamos. – Voltou-lhe as costas, deixando Orfeo com uma questão premente em mãos, e dirigiu-se para a porta. Parou diante dos guardas, o olhar alternando entre um e outro. – Código CK390, reconhecimento de voz, agente Ciro Amato.

Os sensores de ambos os andróides procederam à análise, percorrendo-lhe o corpo com a luz azul.

– Reconhecimento efectuado – disseram, em uníssono. – Resultado positivo.

Orfeo perguntou-se qual a margem de erro daquelas máquinas.

– Início de quarentena do Palazzo Bembo. Proibição da abertura de portas, até ordem superior – disse, em tom claro, cada palavra separada por uma pausa tácita, para que as ordens não deixassem dúvidas. – Ninguém sai, ninguém entra. Activado protocolo de emergência, actuação imediata.

Os guardas puseram-se logo em movimento, um deles entrando no edifício e fechando a porta principal. O segundo afastou-se, contornando o palazzo e desaparecendo do ângulo de visão.

Ciro saltou para uma lancha atracada a pouco mais de dois metros dali, segurando as saias e aterrando de joelhos flectidos. O barco oscilou, mas isso não a impediu de se endireitar e estender-lhe a mão. Orfeo sentiu-se a donzela da ocasião, no entanto engoliu o orgulho e aceitou o apoio. Com o balanço da corrente só não se estatelou porque embateu no corpo de Ciro, que o segurou contra si, até a embarcação estabilizar o suficiente. Sentou-se sob a ordem dela, agarrando-se onde podia e encolhendo-se quando o frio o lembrou de quão bom seria ter ali o abrigo da sua capa.

Ciro pilotou a lancha através de canais mais estreitos e menos iluminados, deixando algumas pessoas a olhá-los por detrás das máscaras. Ao fim de um quarto de hora, passaram através de uma entrada em arco. De ambos os lados da parede em pedra, luzes brancas iluminavam as águas, revelando, ao fim de alguns metros, um cais abrigado do exterior. Por cima das suas cabeças, uma larga clarabóia iluminaria o local durante o dia.

O barco foi atracado ao lado de mais quatro similares em porte, todavia os últimos tinham as siglas da guarda veneziana gravadas sob o brasão de uma gôndola com o respectivo gondoleiro segurando numa mão a vara e noutra um sabre.

Uma escolta de dois homens esperavam na plataforma. Mediram Orfeo de cima a baixo, ainda antes de desembarcar, com cada uma das mãos pousada nas armas presas ao cinto.

– Tudo bem, rapazes, não é perigoso. Só um peão bom com a música – disse Ciro, enquanto o voltava a ajudar, para que desembarcasse.

Os guardas trocaram um olhar cúmplice entre eles.

– Bom com a flauta. Gostas desses – notou o mais encorpado, com um sorriso torto. E, pela piada, recebeu uma cotovelada do colega.

– Senhor Orfeo Vitali, o flautista? – O rapaz acenou, segurando o instrumento musical de encontro ao peito. Iriam confiscá-lo? – Siga-nos, por favor. A nossa chefe gostaria de falar consigo.

Orfeo lançou um olhar a Ciro, antes de ser levado por um corredor de paredes nuas, sem janelas ou qualquer outro tipo de contacto com uma possível passagem. A corrente de ar empurrava-o em frente, até umas escadas que ligavam ao andar superior. Quando o guarda fechou a porta atrás de ambos, deixando o segundo colega para trás, o calor envolveu-os. Orfeo sentia as mãos dormentes e, sob as unhas, a pele azulara.

Uma câmara de vigilância seguiu-lhes os passos, quando passaram para outra sala, e daí em direcção a uma porta entreaberta. O guarda bateu três vezes, antes de espreitar.

– Chefinha, temos aqui o músico para lhe dar um autógrafo.

Ele recolheu a cabeça de súbito, antes de qualquer coisa, não muito pesada, embater na madeira. O guarda riu-se, sob o olhar apreensivo de Orfeo. De súbito, a porta abriu-se por completo, revelando uma mulher alta, de cabelo curto e óculos apoiados num nariz aquilino – a mesma da bracelete de Ciro. Os olhos coriscavam por detrás das lentes, quando mirou o colega. Só depois dedicou a sua atenção ao rapaz, num escrutínio rápido.

– Chocolate quente?

Orfeo acenou, sem pensar. Ela não tinha ar de quem fosse seguro contrariar.

– Um chocolate quente para o rapaz e um café para mim. Já.

Só depois de o guarda dar meia-volta é que a mulher o levou para dentro do gabinete, fechando a porta. Baixou-se para apanhar uma caneta digital com sinais visíveis de maus tratos. Quantas vezes teria sido arremessada?

– Por favor, sente-se. – Indicou-lhe um lugar confortável, de frente para a cadeira onde ela própria se sentou, separados por uma secretária de mogno. – Sou a tenente Alessia. Espero que os meus homens não o tenham assustado. Pode comunicar por linguagem gestual, entendê-lo-ei – acrescentou.

Ficou parado por um momento. Tinha a cabeça cheia de nós, perguntas sem respostas, demasiadas dúvidas. Pousou a flauta na secretária e gesticulou, decidindo-se pela questão que mais lhe tocava.

“O que faço aqui? Vou ser preso?”

Alessia abanou a cabeça e sorriu um pouco, trejeito que lhe aligeirou a expressão séria.

– Sabemos que não é culpado de forma alguma. Está aqui por duas razões: por protecção e porque sabemos que o seu dom tem capacidades que desconhece e que poderão ser-nos úteis.

Orfeo piscou os olhos, não compreendendo.

– O senhor e a sua música têm sido estudados em laboratório. Sabe-se que o som da sua flauta tem capacidades terapêuticas fora do comum. Já conseguiu arrancar a morte dos ossos de doentes terminais, isso é o suficiente para chamar a atenção dos médicos. Juntando-lhe a capacidade de um certo grau de hipnotismo, tudo conseguido naturalmente e sem qualquer segunda intenção… Os efeitos têm sido analisados e as informações estão nas bases de dados do Instituto Científico. Ela tinha acesso à base…

Orfeo interrompeu-a com gestos rápidos.

“Quem é aquela mulher?”

A tenente recostou-se, sondando-o enquanto decidia se lhe contava, e os perigos que a informação poderia conter. O café e o chocolate chegaram no entretanto, sendo pousados diante de cada um. O fumegar perfumou o ar com um prenúncio do gosto. Orfeo levou ambas as mãos à caneca, aquecendo-as após o primeiro golo que lhe aconchegou o estômago.

– Bem, é uma informação restrita, mas sou contra que os directamente envolvidos fiquem na ignorância. – Bebericou o café. – Aquela mulher é uma física portuguesa, chamada Samanta, a quem uma experiência temporal correu mal. Ela e os colegas alemães viajaram até à Idade Média para testar uma máquina do tempo. Quando regressaram, houve um qualquer desregulamento do engenho. Os outros dois cientistas morreram no processo, consumidos pela peste. A viagem no tempo anulou-lhes por completo a imunidade e acelerou o tempo de incubação da bactéria Yersinia pestis. A Samanta sobreviveu, sem sinais de doença. Quando foi analisada, descobriu-se que vivia nela uma bactéria mutada, em comensalismo. Mas antes de se compreender bem o como e o porquê, e quando as suspeitas de parasitismo começaram a vir à tona, baseadas em mudanças comportamentais, ela desapareceu, sem deixar rasto. A Sam exibia uma fixação pela peste bubónica e nenhum remorso pelos amigos mortos, entre outros discursos que foram considerados distúrbios mentais devido à presença do bacilo. Até Latim falava, e nenhum de nós fazia ideia de que ela tivesse aprendido a língua no passado. Pesquisou-se a fundo os seus últimos passos e emitiu-se um mandado de busca e captura. Enquanto isso, descobrimos que a Dra. Samanta fez uma pesquisa extensa sobre si. – Apontou para o músico. – Como até à altura não tínhamos descoberto o paradeiro dela… começámos a vigiá-lo. Até que recebeu esse convite para a festa onde o próprio Primeiro-Ministro estaria presente. Desconfiámos, contudo não imaginámos que ela fosse libertar um surto de peste.

Orfeo absorvia cada uma das palavras dela, quase esquecido da caneca que segurava nas mãos. A polícia tinha-o sob vigia? Há quanto tempo? Por quem?

A porta abriu-se nesse momento, sem qualquer batida, e o rapaz aproveitou a pausa para dar um golo no chocolate, antes de espreitar por cima do ombro e ver quem era. Um homem, ainda jovem, parara à entrada, contemplando-os. O cabelo comprido, muito negro, estava preso atrás da nuca, e a tez de um castanho-claro competia com a de alguns indianos. Na mão segurava uma sandes já meio-comida.

– Ah, já trocaste de roupa, Ciro.

Parte III

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