Finais do séc. XXI

A oscilação da gôndola não se comparava àquela de que o seu estômago era alvo. Inspirou fundo e contou até dez, enquanto esta avançava pelo Grande Canal. As águas reflectiam as luzes que se projectavam de cada uma das margens, intensas, vivas, tais como as gargalhadas, os gritos de folia e até o samba que simultaneamente lhe parecia tão deslocado de Veneza, embora dentro do espírito carnavalesco que varria a cidade de lés-a-lés.

Levou a mão à boca, de súbito, quando o estômago se revirou e uma sensação ácida lhe trepou pela garganta acima, numa ameaça pouco subtil. A outra mão segurava contra si um estojo pouco menor que o seu antebraço, de madeira cor de ébano. A superfície era lavrada, porém o movimento instável da embarcação, em conluio com a iluminação, deixava somente ver as sombras bailarinas das figuras.

Ainda a alguns metros de distância, reconheceu a figura imponente da Ponte de Rialto, a mais antiga do canal, com as suas arcadas habitadas por lojas ainda abertas, sustidas num arco baixo. Fez sinal ao gondoleiro para que acostasse mesmo ali. Ele obedeceu prontamente ao gesto de mão, programado para interpretar e cumprir qualquer movimento dos clientes.

– Cuidado, senhor – disse o andróide, estendendo de imediato uma mão enluvada para agarrar a sua, quando se ergueu e as pernas vacilaram.

Pôde sentir a firmeza do metal sob o tecido, quando a apertou como a uma âncora. Mirou o ser, cujo rosto estava tapado por uma volto branca e azul, com entalhes prateados. Os orifícios dos olhos, os únicos da máscara, não revelavam nada para além de um fundo escuro. Fez-lhe um aceno de agradecimento sincero, antes de assentar os pés na plataforma de madeira. Inspirou fundo e ficou muito quieto, por aquilo que lhe pareceu mais do que um minuto. Quando abriu as pálpebras, o barqueiro já partira, silencioso.

Graças ao turismo, Veneza pouco mudara. Tirando alguns robots e tecnologias usadas no aumento da segurança da cidade, mantivera as características gerais de há muitos anos. As fachadas dos palazzos, os passeios de gôndola… Todavia o cheiro, pelo que a mãe lhe dizia, melhorara a olhos vistos, devido a um tratamento mais eficaz dos resíduos largados nos canais. No Inverno era quase indetectável.

Compôs a capa em seu redor e avançou pela rua, num passo mais seguro. Continuava a segurar contra si o estojo, encoberto para que não fosse roubado. Era o seu tesouro.

Os mascarados passavam por si exibindo tecidos brilhantes, máscaras delicadas ou assustadoras representando terríveis demónios. Pouca atenção dedicavam à sua figura despercebida, de rosto meio encoberto por uma columbina alusiva aos losangos coloridos do fato do Arlequim. Poucos minutos tinham passado quando parou de fronte para o seu destino.

A fachada do Palazzo Bembo lembrava o antigo estilo bizantino, e o tom avermelhado com que estava pintado aquecia a visão, quando tudo o mais era pálido. A sua antiguidade competia com a de muitos edifícios que ladeavam o Grande Canal, quase todos eles anciões do Renascimento. Através das janelas em arco, o movimento das pessoas cativava o olhar dos transeuntes, principalmente dos que não eram convidados para festas da alta-sociedade, arrancando-lhes comentários desdenhosos.

Inspirou fundo e avançou para a porta ladeada por dois andróides encorpados, pertencentes à rede de segurança veneziana, feitos para dissuadir qualquer maltrapilho ou rufião de se aproximar.

– Nome de convidado – requereu um deles. Ao contrário do gondoleiro, nenhum usava máscara. O rosto parecia moldado em prata, as órbitas contendo dois sensores de luz azulada e a boca somente um pequeno orifício horizontal donde a fria voz metálica ecoava.

Ele abriu a capa e mostrou a caixa sob as luzes das candeias eléctricas que pendiam um metro acima das cabeças dos seguranças. Na madeira, para além de pequenos querubins, estava talhado o seu nome, bem ao centro. A luz azul examinou a palavra e de seguida mediu-o de cima a baixo, confirmando a sua identidade com o suporte da base de dados digital à qual sabia terem acesso.

– Esperam-no, senhor Orfeo – disse um deles, fazendo um gesto mecânico para o interior do edifício donde espreitou uma moretta de veludo negro, sem boca e nariz pouco pronunciado. Aquele tipo de máscara feminina em particular desagradava-o por impedir quem a usava de falar, pois era necessário segurá-la com a boca para a manter no rosto. O vestido que a mascarada trajava não era demasiado vistoso para a época e a festa em si, por isso era fácil de presumir que era uma serviçal.

Deixou a capa com ela, mais satisfeito com o calor ali dentro do que com o frio lá fora, e avançou para umas escadas em caracol que o levaram até uma saleta, só com o seu chapéu de três bicos, o fato colorido, a máscara colocada e o estojo em mãos.

No interior, sentada numa cadeira de espaldar alto, junto a uma estante com várias caixas de madeira, aguardava-o uma mulher. O bico proeminente da máscara que lhe ocultava a metade superior do rosto não enganava ninguém, apesar de, tipicamente, aquele disfarce ocultar toda a cara. O dourado desta contrastava com os lábios pintados de vermelho e com o vestido cor de corvo, repleto de penas negras em redor da cintura, dos punhos e do decote pronunciado. Ao falar, a voz, contrariando o disfarce intimidante, era melíflua, como uma armadilha para moscas. O conjunto em si assustava-o.

– O fazedor de sonhos – disse ela.

Orfeo fez um aceno em modo de cumprimento.

– És tal e qual como imaginei. Delgado, baixo para a média, grácil e adoravelmente mudo. – Um sorriso cor de sangue ergueu-lhe os cantos dos lábios.

Levantou-se e os saltos vibraram no chão de madeira quando se aproximou dele. Pousou-lhe uma mão fria sob o queixo, elevando-lhe um pouco o rosto. Só àquela proximidade é que Orfeo percebeu que a mulher era, pelo menos, um palmo mais alta do que ele. A sua presença deixava-o tenso, mas havia algo mais. Inspirou quase imperceptivelmente. Ela cheirava a podre.

– Olhos cor de avelã. Imaginei-os azuis – confessou, largando-o. – Mas torna tudo um pouco menos enigmático e mais doce para o público. O azul é frio. Se quiseres comer e beber antes, serve-te.

Indicou uma pequena mesa atulhada com salgados em miniatura e duas garrafas de bebida. Orfeo abanou a cabeça numa negativa, o que lhe valeu um muito leve esgar de desagrado vindo da Doutora da Peste. À falta de apresentação, esse seria o nome que surgiria na sua cabeça sempre que a visse ou pensasse nela.

Ele afastou-se, pousando o estojo sobre o estofo de veludo de uma cadeira. Rodou os fechos e abriu a tampa. O brilho prateado das várias partes desmontadas da sua flauta transversal serenou-o um pouco. Tocou no metal frio por um segundo, antes de a montar, levando o seu tempo, num ritual de preparação.

Atrás de si, a mulher mal se mexera. Sentia o olhar dela cravado nas costas. Tentou ignorá-la, contudo, enquanto apreciava o equilíbrio do instrumento, um sussurro chegou-lhe aos ouvidos.

Somnium morbum et mortem est.

Olhou para trás. Ela segurava nas mãos uma caixa pouco maior que a palma da mão, que até há pouco estivera pousada por ali, entre as outras, e havia um enigma no sorriso que lhe dirigia. Não percebera o que ela dissera, porém, se não o repetia, ou não era para os seus ouvidos, ou estava a fazer pouco de si.

Levou a flauta aos lábios e soprou, permitindo que um som suave enchesse a saleta. Estava preparado.

Não foi a estranha Doutora da Peste quem o levou até ao salão contíguo onde iria actuar, mas sim a serviçal que o recebera, ou uma disfarçada da mesma forma. A primeira desaparecera, inexplicavelmente, enquanto tocava algumas notas para se distrair.

Ao entrar, parte das conversas cessaram, outras reduziram-se a sussurros, enquanto muitos pares de olhos caíam sobre si. Ali estavam presentes, escondidos atrás das máscaras, empresários importantes, políticos e até o Primeiro-Ministro.

Fez uma vénia educada, embora simples e, quando se endireitou, levou a flauta aos lábios, tocando a primeira nota, longa, suave, delicada, como apresentação. As seguintes foram mais rápidas, os dedos dedilhando as chaves com leveza. O corpo oscilou, acompanhando a partita de J. S. Bach, e os olhos fecharam-se por detrás da máscara.

O som apoderou-se de si e de todo o salão. A melodia tomou a consciência de cada um, mergulhando-os num estado semi-latente. O sopro que saía de entre os lábios do músico falava uma língua própria, que compensava a sua mudez – a língua dos sonhos. Infiltrava-se no inconsciente dos ouvintes, deixando-os num êxtase de ilusões, até à derradeira nota. Era esse um dos poderes da música que tocava, e que o tornava tão conhecido.

Um restolhar, demasiado perto de si, fê-lo entreabrir as pálpebras. Quando tocava, era anormal alguém mover-se sequer. Uma mulher aproximava-se a passos largos, de rosto oculto por uma trifaccia. Era, de todas, a máscara mais desconfortável: uma espécie de trindade pagã, de três rostos com diferentes expressões, mas só dois olhos verdadeiros, aqueles que o encaravam. O vestido branco e dourado caía-lhe até aos pés, e fora o seu arrastar no chão que o alertara.

Recuou um passo, sem parar de tocar, porém falhou as notas seguintes, não terminando o último movimento. Um momento depois, a mulher arrancou-lhe a flauta das mãos. Os olhos de Orfeo arredondaram-se e o rapaz saltou na direcção dela, tentando tomar o instrumento de volta. No entanto ela, mais ágil do que aparentava, esquivou-se da frente dele e, antes que pudesse voltar a retaliar, os olhos prenderam-se na figura negra postada diante de si, na outra ponta do salão, junto à porta principal. A Doutora da Peste contemplava-o, completamente lúcida, ao contrário dos restantes convivas que pareciam acordar de uma sessão de hipnotismo. À altura dos lábios, segurava a caixa com a qual anteriormente a vira. Num movimento que lhe pareceu demasiado lento, ela abriu-a e chegou o rosto para a frente. Lá dentro havia algo negro que se mexia. No instante em que sentiu um puxão na mão, a mulher soprou o conteúdo vivo.

Parte II

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