Três ratazanas enfezadas fugiram do monte de lixo que esgravatavam, assustadas por sentirem uma mudança súbita no Tempo. A poucos metros, um vulto deitado no chão, coberto até à cabeça, era o único sinal humano do beco imundo. Se vivo ou morto, era impossível saber.

A bolha temporal desmaterializou-se, sob a ordem de três toques nos botões de comando, revelando uma mulher de vestido e avental, de rosto encardido, e dois homens, um deles com uma capa sobre os ombros, de roupas simples, sapatos desgastados e chapéus velhos. Os trajes tinham sido feitos manualmente por costureiros que se ocupavam dos guarda-roupas de grandes produções cinematográficas, com o auxílio de historiadores. Pediram algo adequado ao povo veneziano do séc. XIV, maquilhagem incluída, e o resultado fora perfeito. Talvez demasiado. O homem da capa escondeu nela a máquina do tempo que era pouco maior que a palma da sua mão.

– Que fedor…

A podridão contaminava o ar de Veneza, elevando-se dos dejectos, dos canais infectos, das próprias pessoas, que mal sabiam o que era um banho, e dos corpos em decomposição.

– Foste avisada, Sam – disse um deles, levando uma mão ao rosto e tapando o nariz. – Não toquem em nada e falem o menos possível. Acima de tudo, tentem ser discretos com as fotografias… Estamos imunes à peste, mas não a arder numa fogueira da Inquisição.

Tomou a dianteira, baixando ligeiramente o chapéu para a frente, e os outros seguiram-no, não conseguindo disfarçar a apreensão. A cidade enchia-se de barulho, à medida que a manhã avançava, numa mescla de gemidos de enfermos que tossiam sangue, com os gritos de marinheiros estrangeiros que tinham ido ali pelo comércio e trazido consigo uma epidemia mortal.

Presa na touca que lhe cobria o cabelo, Samanta escondia uma câmara de alta-definição, com a qual filmava todo e qualquer detalhe. Precisavam de todas as provas que documentassem o sucesso daquela expedição ao Passado. Só não compreendia o porquê da escolha daquela época, um testemunho do sofrimento e da miséria humana.

Há uma hora que vagueavam pelas ruas estreitas, registando os carros de mão que passavam, contendo mais cadáveres do que víveres, e o perfume envinagrado que muitas roupas e casas emanavam.

Não foram abordados – quiçá os transeuntes temessem que pudessem conter a doença –, até Sam sentir um puxão leve na saia. Voltou-se para trás e arqueou as sobrancelhas. Ali, bem diante de si, estava uma coisa pequena e esfarrapada. A pele repuxava-se sobre os ossos, repleta de manchas negras que se confundiam com as olheiras. Do pescoço brotavam bubões dos gânglios inflamados. Nem sequer conseguia perceber se era um menino ou uma menina.

A criança esticou a outra mão, sem lhe largar o vestido. Os dedos, de pontas enegrecidas, tremiam.

– Pão… – sussurrou dos lábios gretados. – Por favor, senhora.

Não soube como agir diante daquela criatura à beira da morte. Os dias que lhe restavam poderiam ser contados pelos dedos de uma só mão. Queria poder dar-lhe o pão que ela pedia, mas não o tinha, nem sequer dinheiro. Viu no brilho do olhar desesperado da criança que a sua consciência adivinhava a resposta que ela não lhe queria dar.

Contra todas as regras, e depois de uma batalha interior que pareceu durar uma eternidade, Samanta acocorou-se e abraçou-a contra si, com o mesmo cuidado que usaria com uma boneca de porcelana partida. A pequena ficou muito quieta, ouvindo-se somente a respiração roufenha e pesada dos pulmões afectados.

– Perdoa-me – murmurou, ignorando o mau cheiro do corpo sujo. – Se pudesse, não só te dava pão, como te levava comigo para casa.

– Sam! Larga-a!

A voz ríspida de um dos colegas chamou-a a si. Baixou os braços, devagar, e encarou os olhos encovados dela, onde um lago começava a acumular-se. A criança continha as lágrimas melhor do que muitos adultos. Samanta ergueu-se e recuou um passo. Não lhe mentira. Se pudesse, levá-la-ia consigo, com ou sem peste.

Afastou-se pela margem do canal, de coração apertado. Antes de subir uma ponte de madeira para passar para o outro lado do leito, relanceou o que deixava para trás, e os olhares cruzaram-se. A criança continuava no mesmo sítio. Pareceu-lhe ver um sorriso no seu rosto. Ou seria um esgar de choro? Não tinha a certeza.

Parte I

Anúncios