– Tão apressada, Âmbar – notou, pousando-lhe as mãos nos braços. Ela encolheu-os. – Temos um assunto para pôr em dia. Sete anos é muito tempo de espera.

Aquela voz… lembrava-se dela. Era a mesma que lhe sussurrava nos pesadelos, desde aquele dia. Escapou-se dele num movimento brusco e correu para a saída.

Porém, sem perceber como, os pés enrolaram-se um no outro, descoordenados. Caiu, desamparada, gemendo de dor. Tentava levantar-se, quando se deparou com um tentáculo de fumo negro enrolado à volta dos tornozelos. Seguiu o corpo de fumo que se originava sob os sapatos dele.

– O que queres de mim? – A voz saiu num sussurro sufocado e trémulo.

– Ah, de ti quero só resposta a uma curiosidade – disse.

O eco de cada passo enchia a estação, enquanto ele se aproximava, e gritava-lhe para que fugisse. Ele debruçou-se sobre si. Os filamentos de fumo treparam-lhe pelo corpo acima, avançando em direcção ao rosto, trazendo-lhe recordações demasiado nítidas. As luzes tremeram e apagaram-se. Não, na verdade fora uma tontura que a assolara e lhe escurecera a visão. Ao longe escutou o rosnar do comboio.

– Onde estavas escondida, naquele dia, pequenina?

*

As vidraças do salão estilhaçaram-se, cuspindo vidros em todas as direcções. Encolheu-se por detrás da correnteza de mesas onde estava a comida e cobriu a cabeça com os braços.

– Mantenham-se todos nos vossos lugares – ordenou uma voz forte, masculina, acima de si. – O banquete ainda agora começou.

Rastejou para debaixo da toalha e escondeu-se. O coração batia tão depressa que parecia um tambor aos seus ouvidos. Tentou controlar a respiração, temendo que a denunciasse. Devagar, os passos do homem ecoavam no tampo da mesa, como que num passeio. Pararam por um instante, para logo a seguir um copo de cristal ser esmagado. Tapou a boca com a mão, abafando um guincho de medo.

Pouco depois, atreveu-se a levantar a toalha, muito ligeiramente, e espreitou.

As mesas redondas espalhavam-se pelo salão. Vestidos a rigor, os convivas reuniam-se ali para festejar o fim de um ano e o início de outro. Mas a alegria extinguira-se, dando lugar ao medo que toldava a atmosfera.

As pessoas tinham o olhar fixo acima do seu refúgio, demasiado preocupadas para repararem em dois olhos muito abertos.

– É a hora – disse o homem.

Por cima da sua cabeça, a madeira estremeceu sob o impacto de um sapateado rítmico que durou apenas três segundos.

Sem aviso, o ar em redor tornou-se mais pesado. Uma superfície translúcida surgiu, a menos de dez centímetros do seu nariz, enevoando-lhe a visão do restante salão, antes de desaparecer como se nunca lá tivesse estado. Quase gritou, com medo de ter sido descoberta.

Escutou um novo sapateado, mais rápido. Este ecoou alto, apesar de a sala estar cheia. A toalha agitou-se, quando uma sombra desceu através da superfície exterior e se deteve junto ao seu nariz, como se pressentisse uma presença. Ela paralisou. À primeira vista pareceu-lhe uma cobra sem cabeça. Contudo acabou por perceber que não era um animal, faltava-lhe consistência para isso. Era um tentáculo de fumo negro.

A criatura deslizou rente ao chão, avançando na direcção das mesas. O corpo parecia não ter fim. Ao aproximar-se da primeira, trifurcou-se e atacou sem aviso os três convivas, precipitando-se sobre o rosto deles. O fumo entrou-lhes pelas narinas e pela boca pronta a gritar, mas da qual saíram apenas gorgolejos. Os corpos entraram em convulsão, a pele escureceu e mirrou como que sorvida por uma sanguessuga.

O pânico instalou-se. Os gritos encheram o recinto fazendo estremecer as paredes. Enquanto isso, novos filamentos de fumo serpenteavam pelo ar, atacando tudo o que mexia.

Deixou a toalha cair e tapou as orelhas, encolhida no seu refúgio, esperando que ninguém desse por si. Rezando que aquelas coisas não a vissem.

Não soube quanto tempo passou, até o silêncio ser rei. Sobre a mesa, os passos voltaram a vibrar e, logo a seguir, o homem saltou lá de cima. Através da fresta entre a toalha e o chão, viu-lhe os sapatos negros que se detiveram por um momento, antes de se afastarem. Passou-se ainda mais tempo, até se atrever a espreitar.

O chão estava pejado de corpos. No ar pairava um fedor carregado de qualquer coisa que na altura não soube identificar. Muito a medo, saiu do esconderijo e chegou-se à pessoa mais próxima. O rosto estava tão seco como as passas que se preparara para comer; escancarados, os olhos pareciam querer saltar das órbitas.

Só mais tarde percebeu que a única presença viva em todo o edifício era uma menina de 11 anos. Ela mesma.

*

– Debaixo das mesas. Porquê…? – murmurou, sem desviar o olhar do fumo negro. Há sete anos assistira a um ataque rápido. Aquela coisa obedecia à vontade do homem. Seria imune a uma lâmina? A mão crispou-se no punho do canivete, ainda no bolso.

– Debai… – começou ele, ponderando na resposta. – Ah, claro! Como é que poderia ter imaginado que o escudo que lancei sobre mim iria alcançar uma criança? Que sorte danada… mais sete aninhos de vida. E o trabalho que me deste! E porquê? Sacrifício é sacrifício, nada mais. Sente-te honrada, que a tua morte será alimento para algo maior e poderoso, aos pés do qual te vergarias, se pudesses.

Bateu com o salto no chão, fazendo o fumo avançar um pouco mais.

Em pânico, Âmbar sentou-se num único movimento e tentou varrer o fumo com a mão armada. O braço passou através dele, sem o perturbar mais do que uma brisa. Levantou os olhos para o homem e lançou-se sobre ele, esfaqueando-lhe a barriga com toda a força.

Ele arquejou e recuou um passo, levando ambas as mãos ao ventre. Antes de se começar a rir.

– Isso não me afecta, rapari…

A palavra perdeu-se. O pavor daquele riso louco fê-la atacá-lo da forma mais improvável. Segurando o canivete com ambas as mãos, cravou-o num dos pés dele, com um grito descontrolado.

O fumo recuou e desapareceu. Largou a arma onde estava e rastejou pelo chão, afastando-se dele antes de se atrever a levantar o olhar. O homem sorria para ela. A cor negra dos olhos recuou, revelando o azul cor de céu que estivera escondido. Devagar, a boca abriu-se e começou a formar uma palavra que reconheceu só de ver o estranho alívio e arrependimento da sua expressão. No entanto, antes que lhe desse voz, o corpo desfez-se em cinzas. Sobrou somente o canivete, a lâmina limpa como se não tivesse provado sangue. E talvez já não houvesse nenhum sangue para provar naquele corpo.

Não se atreveu a ficar ali. Correu para o exterior aos tropeções e inspirou o ar frio da noite. Um soluço tomou-a de surpresa, estremecendo-lhe o corpo. As lágrimas escaparam-se, por fim. O seu espírito estava demasiado aterrorizado para pensar em como regressar a casa.

Abraçada a si mesma, continuou a descer a avenida, o olhar saltando em redor. Só não olhou por cima do ombro, com demasiado medo do que encontraria lá. Contudo, já não havia passos a persegui-la.

Atrás dela, pairava o espectro lívido de uma jovem. Seguiu-a, levando na mão encarquilhada um par de sapatos de senhora, tão negros quanto a escuridão. Porque só um vivo tomado pelo mal conseguiria invocar, dos confins do mar, o seu amo e senhor, Adamastor.

Parte II

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