As águas do Tejo borbulhavam e trepavam os degraus feitos de pedra antiga, tentando tocar-lhe os sapatos negros. Tentativas vãs. Consultou o relógio de bolso e deixou os olhos seguirem os três ponteiros, instante a instante, as engrenagens vibrando-lhe na palma da mão enluvada. Por fim, detiveram-se em simultâneo sobre o número doze escrito em numeração romana. Ao longe, escutou a primeira badalada. O som das que lhe seguiram embrenhou-se na noite, anunciando a chegada do dia 25 de Dezembro.

De cada um dos lados, as duas enormes sentinelas de pedra estalaram, o mármore fracturando-se com a magia que vagueava na noite. Representavam as duas colunas do templo de Salomão – a sabedoria e a devoção. Significados poderosos. Um brilho etéreo emanou dos seus corpos. Sorriu. Um fumo negro tomou conta do mostrador do relógio, escurecendo o vidro, escondendo números e ponteiros. Aproximou-o dos lábios e soprou. Na sua mão, o objecto desfez-se em pó negro e voou na direcção das águas. Erguendo-se, sem aviso, uma onda tomou para si as partículas, engolindo-as.

Baixou a mão, mantendo o olhar fixo para além das águas. Engoliu em seco, humidificando a garganta, e chamou a si as palavras que lhe enchiam a mente. Entreabriu os lábios.

De entre o fumo que ensombra a Memória,

Dos confins negros do que é perdido e História,

 As águas agitaram-se, as ondas tornaram-se maiores.

 

Agiganta-te para não mais cair,

Sê do mar senhor e consome o que da Terra quis partir

E conquistar o que é teu por direito e bem,

Consome-os e entrega-os à Terra de Ninguém.

Quando a invocação terminou, o Tejo serenou. Franziu as sobrancelhas. Alguma coisa estava errada. Onde se encontrava o poderoso gigante que se deveria erguer sob as suas palavras?

– Talvez o sacrifício de há sete anos não tenha corrido bem. Talvez possa haver sobreviventes – disse alguém, atrás de si.

– Morreram todos, certifiquei-me.

Voltou-se, encarando a presença áurea cujos pés ossudos flutuavam a dois palmos do chão. Tinha a expressão de uma jovem desolada, os olhos encovados e vazios, o rosto sugado, as mãos encarquilhadas. Quanto à voz, entranhava-se na medula e gelava o corpo.

– Certificaste-te mal. – Ela foi cortante. – Invoca um morto, estripa-o da verdade e descobre quem sobreviveu. Tens seis dias e algumas horas para remediar o teu erro, de forma a podermos libertar o nosso Senhor da sua prisão de água e nevoeiro. Caso contrário…

Ficou a vê-la desaparecer no ar. Ainda lá estava, algures, tal como a sua ameaça espectral. Cerrou os punhos e fitou o rio uma última vez, antes de se afastar do Cais das Colunas.

*

Por fim, o último cliente. De pernas cruzadas, ele olhava em volta, tão interessado no estabelecimento como estaria um caracol num velório. Não que ele tivesse ar de caracol, vestido dentro de um fato negro, engomado na perfeição. Mas que tinha ar de quem passara o dia num enterro, tinha. Âmbar suspirou e saiu de trás do balcão com um prato na mão.

– Eis o seu pedido, senhor – disse, pousando-o diante dele. – Bom apetite!

Antes que pudesse recuar, uma mão de dedos gélidos crispou-se-lhe no pulso. Ergueu uma sobrancelha. Seria um daqueles clientes com a mania que podia fazer o que lhe apetecesse das empregadas? Forçou um sorriso.

– Deseja mais alguma coisa? – Ao encará-lo, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Os olhos eram tão escuros que a íris se confundia com a pupila, e brilhavam, correspondendo ao esgar sagaz que lhe bailava nos lábios.

– Cabelo e olhos de uma cor tão característica – comentou, observando-a como se se tratasse de uma mercadoria. – Presumo que o seu nome lhes faça jus, não é assim, Âmbar?

Libertou-se com um puxão do braço e recuou.

– Com licença – disse, afastando-se, desconfiada.

Ao passar junto ao balcão ousou um vislumbre para trás. Ele não pegara ainda nos talheres. Antes, bebericava do copo de vinho, seguindo-a com o olhar, enquanto o pé oscilava indolentemente. Voltou o rosto para a frente e abanou a cabeça. Aqueles sapatos eram-lhe estranhamente familiares. Como era possível que a perturbassem mais do que qualquer coisa naquele sujeito?

Saiu do restaurante mal tirou o avental, deixando que fosse o gerente a tratar do resto. Puxou a gola do casaco para cima, escudando-se do vento cortante. Nem as luzes de Natal conseguiam disfarçar o frio da noite. Desceu a avenida vazia, de mãos nos bolsos e pescoço encolhido.

Um estalido ecoou no ar, sobrepondo-se aos restantes sons. Olhou para trás, atentando o interior escuro dos carros estacionados, a esquina da rua transversal mais próxima e os ramos retorcidos das árvores. Talvez o barulho proviesse delas. A noite estava cheia de pequenos sons que de dia eram imperceptíveis.

Consultou o relógio. Tinha pouco menos de dez minutos para chegar à estação mais próxima do Metro.

Retomara a marcha, quando um novo ruído a perturbou – o som de passos que a seguiam, de sapatos a baterem nas pedras do passeio. Um arrepio subiu-lhe espinha acima. Mordeu o lábio inferior e acelerou. Os passos imitaram-na. Por um momento, conteve a respiração. Tinha medo de olhar para trás, medo do que poderia encontrar.

Uma rajada de vento soprou o som para longe de si. Atreveu-se a rodar a cabeça e espreitou por cima do ombro. Arregalou os olhos. Era o homem do restaurante, e estava a menos de três metros. Ele esboçou um sorriso simpático, contudo os globos oculares reluziram como os de um animal nocturno.

Não foi preciso mais. Sem tomar atenção à estrada, Âmbar precipitou-se para a beira do passeio e atravessou para o outro lado. Os ouvidos tornaram-se surdos a outros sons que não a sua respiração, o bater desenfreado do coração, ou os próprios movimentos. Desceu os degraus do Metro de dois em dois, e quase caiu ao reparar, tarde demais, num mendigo encolhido que ali se refugiara. Saltou por cima dele, agarrando-se ao corrimão, no último momento. Ainda assim torceu o pé. Ofegou, enquanto se endireitava e corria para as cancelas, ignorando a dor. Abriu a mochila, atabalhoada, sem deixar de olhar para trás. Não viu ninguém, não ouviu nada.

As mãos encontraram o passe. Mal as cancelas se abriram, saltou para o outro lado, como se ao fecharem-se se erguesse uma barreira entre ela e o exterior. Olhou para o lado de lá. Aguardou, com uma mão sobre o peito. Os segundos passaram-se.

Estava a ser idiota. Ele podia nem sequer estar a persegui-la. Podia ter ouvido o seu nome de outro empregado, não havia nada mais lógico. Respirou fundo e contou até dez, antes de baixar a mão e tentar descontrair os ombros. Guardou o passe na mochila e fitou o seu interior, hesitante, antes de tirar de lá um pequeno canivete que usava para cortar fruta. Escondeu-o no bolso, por precaução, mantendo lá a mão e não se atrevendo a largá-lo.

Cautelosa, entrou na plataforma. Não havia ali vivalma. Espreitou os túneis negros, donde o eco distante de um comboio ainda sussurrava.

Recuara dois passos, com um suspiro de alívio, quando embateu num corpo. Paralisou. Ele estava ali, surgira do nada.

Parte I

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