A água gelada corria-lhe de encontro às pernas, colando-lhe a túnica à pele. Merlin, o druida, não parecia mais incomodado do que ela, mas Myrddin não poderia mostrar maior desconforto. Caso não estivesse tão enlevada pela perspectiva que se avizinhava, Nimueh ter-se-ia apercebido de que esse era um estado de espírito que durava desde que ele e Merlin haviam entrado na aldeia com a boa nova de que a sua altura chegara.

O druida sorriu-lhe. Inicialmente parecera-lhe tão feliz quanto ela. À medida que se aproximavam do riacho, Nimueh foi sentindo um alheamento que a tornou desconfiada. Não era por ela que ele se sentia feliz – não a conhecera, nunca antes se dignara a ver-lhe a cara ou a ouvir-lhe a voz –, mas sim pelo próprio encantamento que iria realizar. Ou essa era a única explicação que Nimueh conseguira pensar. No entanto, ele fá-lo-ia. Torná-la-ia na Dama do Lago, e isso era tudo o que importava à sétima da sétima.

Viu-o contorcer-se, remexendo no interior da túnica. A lâmina de uma espada reflectiu-se à luz das estrelas, antes de Merlin a mergulhar nas águas do riacho, o cabo bem firme entre as mãos ossudas. Myrddin caminhou até Nimueh, salpicando-a. Pousou-lhe a mão no ombro, apertando-o ao de leve. Não o olhou. Merlin captava toda a sua atenção, o que não passou despercebido ao druida.

– Estás pronta, rapariga? – perguntou, um sorriso jocoso soando-lhe nas palavras. Nimueh acenou em confirmação.

– Si… Sim! – O gaguejo na resposta aborreceu-a. A sua prontidão tinha mais firmeza que aquilo.

– Óptimo, óptimo – ronronou Merlin. – E tu, rapaz?

– Merlin…

– Não falhes agora, Myrddin. Não falhes agora. – Ecoava como um avô preocupado com o desempenho do neto. – Sabes o que têm de fazer.

Myrddin não respondeu, intensificando o aperto no ombro de Nimueh. Esta deixou-se conduzir pela largura do riacho, a água subindo-lhe cada vez mais, até a tomar pela cintura. A curiosidade do que seria feito corria-lhe pelas veias, mas não se atrevia a perguntar, temendo que o menor barulho pudesse de alguma forma estragar o encanto.

Merlin começara a entoar na língua antiga. Ou seria no dialecto dos deuses? Nimueh teve de engolir o riso nervoso. Tanto a haviam temido pelas suas artes, e nem o conhecimento das palavras que lhes associavam ela tinha.

Ergueu os olhos para Myrddin. O vulto dele elevava-se acima de si, as formas do rosto escurecidas e difíceis de interpretar. Esticou o braço, tocando-o com a ponta dos dedos, e enregelou. Myrddin chorava. O salgado das suas lágrimas pegava-se-lhe aos dedos, espalhando-se num terror paralisante pelo resto do corpo.

Num movimento súbito, tentou fugir.

– Não! – gritou, quando o bardo a agarrou, empurrando-a para baixo. – Não! Myrddin! Garth!

A brutalidade do gesto do bardo mergulhou-lhe a cabeça em água. Sentiu-a em seu redor, correndo-lhe entre os cabelos, passando-lhe pelos ouvidos, entrando-lhe no nariz… Roubando-lhe o ar e levando-lhe a vida. Os braços mexiam-se num frenesim em seu redor, até conseguir agarrar o braço de Myrddin e arranhá-lo até lhe arrancar a pele, até o seu sangue se juntar à corrente do riacho. O pânico escureceu-lhe os pensamentos, um único instinto prevalecendo sobre tudo o resto: sobrevivência.

Mas a imagem turva de Myrddin acima de si tornava-se cada vez mais esbatida, cada vez mais distante… O coração desesperava numa aceleração que sentia a ecoar nos tímpanos, o peito rebentando em dor pela falta de oxigénio… Lenta, desesperadamente, caiu na inconsciência.

***

Garth levantou-se quando os ecos de um grito o arrancaram à sua vigília. Hesitou, incerto sobre se a cabeça não lhe estaria a pregar partidas. Mas se não estivesse…

– Dragões me queimem a carne! – resmungou. Por que se metera naquilo, para começar? Por Nimueh. Pela pequena Nimueh. Não conseguia ficar quieto, arriscando a que algum mal lhe acontecesse. Seria um risco, a quebra da promessa… Mais nenhum grito se fizera ouvir. Ninguém chamara pelo seu nome. Talvez o tivesse imaginado, talvez apenas quisesse que ele tivesse acontecido.

Ainda assim, apressou-se na direcção do riacho.

***

Merlin aproximou-se, a espada rasgando as águas à sua frente. A rapariga deixara de se debater – a sétima filha de uma sétima filha. Sete vezes sete. A essência de que precisava, o espírito que levaria a vida a Excalibur. Ergueu a lâmina acima de si, desferindo-a sobre o corpo inerte da rapariga, que Myrddin mantinha ainda debaixo de água. Enterrou-se-lhe pelo pescoço, atravessando-lhe os seios e o ventre. As águas em redor do corpo escureceram por uns segundos, antes de a espada começar a absorver o que era seu por direito – o sangue. O fluxo da vida. A forma escura da rapariga desvaneceu-se lentamente, absorvida pela lâmina que a reclamava. Nenhum dos homens sábios murmurou algum som, qualquer dor ou excitação presa no seu maravilhamento. Nimueh desaparecia aos seus olhos e, ainda assim, permanecia. Linhas ténues demarcavam a sua silhueta, despojada de cor ou firmeza. Ondulavam com o ondular das águas.

– Merlin…

– Shiu! – sussurrou o druida. – Cala-te e observa. Não voltarás a ver coisa igual.

A espada reluziu, emitindo uma luz tão pálida quanto o luar. Quando retornou à aparência do que era, o que restava de Nimueh havia desaparecido.

***

Garth contou dois vultos a erguerem-se do riacho: ambos demasiado altos para que fossem Nimueh. Magoaram-na!, pensou. Malditos, magoaram-na! Amaldiçoou-se a si mesmo pela hesitação que tivera. Amaldiçoou-se pela recusa em ceder aos seus desejos, pela confiança que resolvera ter de que Nimueh trataria de si.

Uma luz ténue apareceu à sua frente, apagando-se tão subitamente que se julgou afectado pela imaginação. Entrou a correr dentro do riacho, a água movimentando-se numa forte onda pelo seu embate. Os vultos viraram-se, pareceu-lhe que surpreendidos. Deveriam ter-me ouvido a aproximar-me mais cedo, apercebeu-se. Deveriam tê-lo feito, mas não o fizeram. Nenhum deles prestara atenção a qualquer outra coisa que não fosse aquilo que tinham estado a fazer. Garth sentiu o medo pairando sobre si – tal alheamento não podia ser um bom sinal.

– Onde é que ela está? – perguntou, contendo-se. Estava, afinal, perante dois homens sábios. Um que sabia bardo e outro que Nimueh lhe dissera ser um druida. Mexiam com o poderoso, com o encantado. Veneravam em melhor afinidade os deuses que todos eles serviam. – Onde está Nimueh?

Aquele que julgou como sendo o druida recuou, um gorgolejo saindo-lhe da garganta.

– Oh, que encanto, que encanto! – exclamou. Garth apercebeu-se que o gorgolejo fora uma gargalhada. – Que noite maravilhosa! Myrddin, diz-lhe. Diz o que fizemos à rapariga.

Não precisou de o dizer.

– Mataram-na! – vociferou! – Mataram-na!

– Não, eu nun…

Garth atirou-se de encontro ao bardo, as mãos fortes e largas de ferreiro rodeando-lhe o pescoço. Myrddin agarrou-lhe os pulsos, em desespero, num esforço inútil para o afastar de si. As pernas começaram a falhar, à medida que a privação de ar lhe roubava as forças. Sentiu a vista enublar-se, os sons desconexos que lhe fugiam da língua enfraquecendo…

O sangue salpicou-lhe a cara.

– Ainda não acabei o que tenho para ti – resmungou Merlin, retirando Excalibur do crânio deformado do ferreiro. Myrddin inspirou ruidosamente, afastando-se, atabalhoado, do corpo inerte de Garth. Sem o seu apoio, viu-o cair e deslizar até ao fundo do riacho. Num acto de superstição, cuspiu-lhe, afastando o mal.

– Cospes-lhe? – provocou Merlin. A espada baptizada desintegrava-se nas suas mãos, prosseguindo a sua magia e aliando-se à entidade criada. – A esse pobre idiota? Não tem agora nenhum poder que te afecte.

Mas ela tinha. E dificilmente esquecia.

Apressando-se, seguiu Merlin para terra seca.

***

Garth…

O ferreiro sentiu o apelo como um sussurro. Um sussurro terno que lhe ecoava pelos ouvidos.

Garth, abre os olhos.

As pálpebras estremeceram, mantendo-se cerradas.

Garth. Abre.

Obedeceu. Uma imensidão azul erguia-se sobre si. Não estática nem similar, mas diferente numa miríade de detalhes e em constante movimento. Estava submerso, acolhido pelas águas.

Olha para mim.

Virou a cabeça e encontrou Nimueh. O rosado das suas faces tinha desaparecido, bem como o dourado do cabelo, que dançava em seu redor como na primeira vez em que a vira. Nenhum tecido a cobria e, ainda assim, não sentia o ardor do desejo que desde que haviam abandonado a infância o torturava.

– Estou morto?

A sua voz ecoou como a dela. Dos seus lábios não saiu qualquer bolha de ar e talvez isso lhe devesse provocar estranheza. Mas não. No seu íntimo, sabia o porquê.

Sim, meu Garth. Estás morto.

Não existia remorso ou arrependimento em Nimueh. Apenas tristeza.

Garth estendeu-lhe a mão, que ela pegou sem hesitar. A pele dela tomara o brilho das escamas, mas os olhos mantinham o familiar azul-cinzento. Fixou-os.

– Então terei de desaparecer – constatou. Nimueh acenou-lhe afirmativamente. – E tu?

Eu fico. Tenho ainda o que fazer.

Lançou um olhar de fugida ao próprio peito. Apenas então Garth se apercebeu do cabo que lhe espreitava por entre os seios. Uma repugnância instintiva fê-lo largar-lhe a mão.

– Foi isso o que me matou.

Garth, o que te matou fui eu. Foi o meu sete vezes sete.

Não era verdade. Não era verdade e assim o disse. Ela ignorou-o, surda aos seus apelos. Acabou por desistir.

– Onde estamos? No riacho?

Não. Disse-to há muitos anos, não te recordas? O riacho é pequeno demais. Perdoa-me, Garth. Não te pude deixar lá. Tinha de vir e tinha de te trazer, de te falar uma vez mais. Estamos no lago, Garth. No meu lago.

– Da Dama do Lago?

Da Dama do Lago.

Nimueh. A Dama do Lago. Tivera o que desejava, afinal. Não estava feliz, Garth via-lho, embora ela o tentasse esconder. Não fora assim que imaginara a sua liberdade: não com a aquisição de uma nova prisão.

E naquela, ele não a poderia acompanhar.

– Virás ter comigo no final?

Nimueh hesitou. Talvez julgasse que não existiria um final para si – e talvez não houvesse. Mas ele precisava da sua promessa. Precisava de lhe dar algo pelo qual ansiar.

Por fim, decidiu-se.

Sim, Garth. Irei.

imagem sete vezes sete

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