Horas mais tarde, encontrava-se com dois gémeos e o Zarolho a bordo de uma das naves triangulares. O intérprete explicara-lhe que o melhor a fazer seria colaborar com os outros e demonstrar o funcionamento do Icarus. Pyotr recusou, inicialmente, considerando que a sua vida não valia a traição, mas Zarolho argumentara que seria uma questão de tempo até os outros desvendarem o funcionamento. O astronauta acabou por concordar. Talvez conseguisse sabotar o fato, ou algo do género. Pelo menos, o efeito do produto estava a desaparecer, e já via mais cores. Quando o intérprete expusera a situação aos outros clones, um exame rápido determinou que eram efectivamente as partículas do escudo que causavam o efeito. Para solucionar o problema, podia optar por sair do planeta com eles ou ficar num cilindro isolante, o que não chegava a constituir uma verdadeira escolha, considerando toda a situação. Perguntou-se se iria sofrer efeitos permanentes da exposição, e concluiu amargamente que provavelmente ia morrer uma morte violenta antes de descobrir a resposta.

Achou curioso que, agora que os Cianóticos voltaram a ser Cinzentos, o seu admirador tinha uma cor mais amarelada. Provavelmente consequência do tal acidente e da protetização.

O astronauta, já com o Icarus vestido, colocou o capacete e activou o computador.

– Situação? – perguntou.

– Sistemas principais de navegação activos. Alimentação do propulsor a carregar. Sistemas de suporte de vida perfeitamente funcionais.

– Tens energia para dar um salto?

– Afirmativo. Baterias a 100%.

–E tens algumas coordenadas? Já descobriste onde estamos?

– Possuo coordenadas para um salto de 0,6 anos-luz, introduzidas no meu sistema pela rede extraterrestre. Quanto à nossa localização, continuo a não possuir dados suficientes.

– Hmm… Então, o computador deles decifrou a tua linguagem?

– Correcto. Por outro lado, consegui aceder aos mapas deles, no entanto ainda não consegui extrair dados suficientes para correlacionar com a minha base original e calcular um salto para a Terra-1, ou pelo menos, para espaço conhecido.

– Bem, talvez consigamos empatar o suficiente para conseguires calcular isso. Se dermos um salto ou outro e os mantivermos entretidos…

– Pouco provável. O protocolo de salto programado especifica que vamos saltar para um posto avançado alienígena, que se interpretei correctamente, é um centro laboratorial. Prevejo que, uma vez lá, fiquemos retidos para mais estudos, possivelmente através da desmontagem deste fato.

– Mas isso é catastrófico! Não só não posso voltar, como eles ainda deitam as mãos viscosas à tua tecnologia!

– Naturalmente, podem ter outra coisa em mente. Apenas estou a extrapolar a pouca informação que possuo.

– Que reconfortante! Não tens um sistema de autodestruição ou coisa que o valha? Sempre podíamos rebentar esta nave!

Antes que o computador respondesse, Pyotr ouviu duas vezes um som que apenas ouvira em registos antigos: o disparo de uma arma de fogo!

Os gémeos jaziam sem vida no chão da nave, e o Zarolho empunhava um revólver cujo cano ainda fumegava.

«Perdoa todo este estratagema, Pyotr. Não te contei o que planeava realmente fazer porque precisava que emanasses desespero suficiente para convencer os outros de que ias colaborar com eles.»

O astronauta ficou parado, sem saber o que pensar. Este E.T. era uma verdadeira caixinha de surpresas.

“Mas… Estás a ajudar-me? E tu? O que te vai acontecer?”, quis saber, surpreendendo-se a si próprio quando notou que já considerava o alienígena algo parecido com um amigo.

«Os outros vão querer destruir-me, naturalmente. Mas não me interessa, aquele mundo, todos eles… Já não têm nada que me possam oferecer.» O extraterrestre parecia fitar o vazio. «Por isso, achei que podia fazer algo mais útil com a minha existência e salvar-te. Gostaria de te acompanhar ao teu mundo e conhecê-lo em primeira mão, de certeza que me sentiria melhor lá do que aqui. Mas este veículo não tem autonomia suficiente para lá chegar.»

“Para ser honesto, nem sei qual seria a reacção do meu povo ao aparecimento de um representante de outra espécie inteligente, ainda para mais uma saída de mitos urbanos com séculos de existência.”

«Mitos urbanos?»

“É complicado. Mas prefiro pensar que ninguém te ia dissecar, que já somos mais civilizados que isso.” Não conseguiu deixar de pensar no folclore do século XX e XXI, em particular de um vídeo que visualizara nuns arquivos semi-perdidos e que supostamente documentava uma autópsia feita a um Cinzento. Sentiu-se verdadeiramente embaraçado com isso. O Zarolho nitidamente captou o conceito, já que respondeu:

«Percebo. Nós não somos isentos de culpas nesse departamento», acedeu, projectando imagens dos esqueletos no museu. «Mas queria acreditar que ultrapassámos essa fase. Em todo o caso, não me parece que vamos descobrir. O máximo que posso oferecer agora é levar-te tão longe quanto este veículo possa ir e ligar o teu fato ao sistema de navegação. Pode ser que assim possas programar o salto para casa.»

E assim o fizeram. Quando confirmaram que tinham escapado, pelo menos temporariamente, a uma eventual perseguição, imobilizaram o veículo em espaço profundo, a cerca de 10 anos-luz do planeta do Zarolho.

O computador do Icarus anunciou que tinha programado um salto que, com 99,1% de certeza, os levaria de volta para casa.

– E porque não 100%? – interrogou Pyotr.

– Há sempre que considerar eventuais discrepâncias de posição entre as posições das estrelas documentadas nos mapas e as posições reais, bem como a ampliação de factores de erro pela distância a percorrer.

– Hmm, suponho que 99% já é bom – admitiu o astronauta, enquanto saía pela comporta da nave.

– Na realidade, 99,1% – corrigiu o computador, de um modo que parecia demonstrar uma satisfação trocista. O fato estava a iniciar a sequência de activação do hiperpropulsor, quando Pyotr estabeleceu um último contacto telepático com o Zarolho, já com dificuldade, dado que estavam a afastar-se.

“Adeus, meu amigo. Espero que um dia nos possamos reencontrar, mas não sei se será alguma vez possível.” De repente ocorreu-lhe: “Nunca me chegaste a dizer o teu nome.”

«Porque não tenho. Não temos nomes individuais, apenas designações funcionais. Mas podes pensar em mim desta maneira…»

Pyotr recebeu a imagem mental do rapaz que vira na capa do livro de banda desenhada, a acompanhar o homem que fingia ser um morcego.

Quando o fato deu o salto, o seu ocupante ia a sorrir. Era o único astronauta na história da humanidade a ter um sidekick, e ainda por cima um extraterrestre!

Icarus Blues 3

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