Morgaine pegou na espada, ignorando o alarme que o ferreiro transpirava. Tratava-se de um excelente trabalho, sóbria e elegante, a lâmina longa e resistente. Não se adequava a si, mas não fora para ela que tinha sido forjada.

Os olhos suavizaram-se ao pensar no meio-irmão que tão poucas vezes pudera ver naqueles anos em que cada um aprendia os seus talentos. Devolveu a espada ao ferreiro ansioso, virando-se para Myrddin, que de imediato compreendeu a pergunta muda.

– Ainda não está terminada – garantiu. – Quando Merlin o fizer, será digna de lendas. Quanto à bainha…?

Morgaine acenou a cabeça em confirmação. A mudez da infância mantivera-se até à idade adulta, salvo raras excepções, usualmente quando Arthur se encontrava presente. A pouca altura que alcançara e a túnica larga que lhe escondia as formas contrastavam com a dureza das feições, onde os olhos eram o principal encanto – colmatando com os cabelos escuros e selvagens, parecia ter crescido de modo a que “Morgaine le Fay” se lhe adequasse sem que se pudessem suscitar dúvidas.

O aprendiz de ferreiro, já mais um ajudante que um aprendiz, olhava-a, embasbacado, sem que qualquer esforço de discrição fosse feito. Julgara conhecer o que existia de criaturas encantadas – Nimueh era, afinal, uma sete vezes sete, pertencendo-lhes por isso. Garth caíra no erro de supor que, através dela, nada o poderia surpreender. Mas isso fora antes de ter visto uma fada. Ou uma mulher que se dizia ter sido criada por elas, o que no seu entender era próximo o suficiente.

E trazida à sua forja por Myrddin. Garth perguntou-se se Nimueh saberia não ser a única mulher a quem o bardo despendia a sua atenção. Mais importante que isso, Garth gostaria de saber qual seria a sua reacção.

 

***

 

– É esta a ajuda que me prometeste?

À semelhança do que já tantas vezes fizera, Myrddin pedira para ser deixado a sós com Nimueh na habitação desta. Agora, no entanto, trazia consigo Morgaine, que se limitara a varrer os olhos pelo local com indiferença, até os pousar na rapariga-mulher, poucos anos mais nova que ela. Não expressou qualquer resposta à fúria aparente com que a jovem a encarava.

– Sim – confirmou Myrddin, desagradado com o rumo dos acontecimentos. Não era aquela a reacção que esperara por parte de Nimueh. – Prometi e cumpri.

– E que mais vai ela fazer além de me olhar como a um porco para a matança?

Morgaine franziu-lhe a testa, virando-se de seguida para Myrddin. Este atrapalhou-se por uns segundos, sendo hábil a ocultá-lo.

– É deste modo que pretendes tratar aqueles que se prestaram a ajudar-te no cumprimento do destino que te profetizei e desejas? Despeito e ciúme? Esta não és tu, Nimueh!

Oh, mas era!

Nimueh mordeu o lábio inferior. Como permitir que Myrddin visse o que de mais negro ela tinha? A inveja, o ciúme… A dúvida e a incerteza…

– Perdoa-me – murmurou, corrigindo-se de seguida e com maior convicção. – Perdoem-me. É a espera que me agonia. Esta impaciência…

– Não faltará muito mais, minha raposa – respondeu rapidamente Myrddin. – Uns dias apenas, e o próprio Merlin te confirmará como Dama do Lago.

Morgaine estalou a língua, uma inquietação que Nimueh não compreendeu se de acordo se de descrença. Em nada mais se voltou a pronunciar, fazendo-o apenas quando a estrada já se encontrava sob os seus pés e os ouvidos inocentes da rapariga-mulher longe das suas palavras enrouquecidas.

– Ela não sabe – acusou. – Vê ainda tudo como um jogo de criança. Desconhece o que terá de abdicar. – Myrddin teve a decência de se mostrar desconfortável. – E contudo ama-la.

– Como não o voltarei a fazer – concordou o bardo, pesaroso.

– Porquê?

– Porque é necessário. Porque o sucesso de Merlin depende do sucesso de Arthur, e o rapaz precisa de tudo o que lhe possamos dar. Poupá-la seria condenar os deuses e a Bretanha. Não o posso fazer.

Morgaine desviou os olhos para o caminho à sua frente.

– Eu poupá-la-ia.

– Eu sei, Merlin sabe. E é por isso que corremos contigo um risco.

 

***

 

Merlin segurava, maravilhado, a bainha encantada de Morgaine. Fora-lhe entregue sem uma palavra, embora o druida desconfiasse de que lhe tinha sido lançado um ligeiríssimo olhar de censura.

Não lhe fez quaisquer perguntas. A magia do objecto irradiava aos seus olhos experientes – uma protecção como mais nenhuma que Arthur poderia ter. E bela, também. Por mais estranha que aquela rapariga fosse, não se poderia negar o bom gosto de Morgaine naquilo que produzia.

Faltava apenas a espada – Excalibur. O mito desaparecido prestes a tornar-se no mito vivo.

– Myrddin! – chamou, saindo do sossego protegido da sua torre. – Myrddin!

O bardo não lhe respondeu, provavelmente não o ouvindo. Está a cabriolar no feno com alguma filha de camponês, pensou, praguejando contra a luxúria do aprendiz. Nem em relação à miúda, a sétima de uma sétima, fora capaz de manter as mãos afastadas.

Embora essa fosse capaz de ter mais algum peso no espírito do bardo do que as restantes: conseguia compreendê-lo pelo desconforto de Myrddin de cada vez que Merlin lhe esfregava a memória sobre o que a esperava. E sobre o quanto ela permanecia ignorante. Ah, sim. O aprendiz sentir-se-ia esfrangalhado durante a cerimónia, mas duvidava que fizesse fosse o que fosse para a impedir. Seria, inclusive, capaz de a realizar ele próprio, por mais que sentisse a alma em sofrimento.

Merlin regressou à torre. Deixá-lo brincar. Brevemente, a diversão seria sua.

 

***

 

Garth acordou com o piar de uma ave nocturna, acabando a praguejar em voz baixa pela sua estupidez em ter-se deixado dormir. Encontrava-se sentado entre as monstruosas raízes de uma árvore velha como o tempo, as costas doridas pelo encosto do tronco. Planeara manter vigília ao riacho que corria ali perto, o burburinho das águas elevando-se numa melodia que se juntava à da vida nocturna. Não havia Lua. Garth perguntou-se se isso teria algo a ver com o que estava prestes a testemunhar, mas Nimueh nada lhe dissera quando viera ter consigo, cumprindo uma das muitas promessas que haviam feito em crianças.

– É esta noite!

– Já!? – exclamara o aprendiz de ferreiro, a sua atenção dividida entre Nimueh e o fole. O suor do calor do braseiro escorria-lhe pela pele calejada e desnudada, no entanto, a amiga parecia não sentir os mesmos incómodos. Olhava-o com uma alegria excitada, as mãos entrelaçadas à frente dos lábios.

– Já!? – repetira. – Estou à espera há anos! Vou ser alguma coisa, Garth! Vou ser Dama do Lago! Ninguém me temerá. Procurar-me-ão e adorar-me-ão! Finalmente deixarei este sítio, esta… esta maldição!

Apenas naquele momento é que Garth se apercebeu do porquê da obsessão de Nimueh com o seu destino. Nunca o compreendera. Nimueh não o permitira, ocultando a mágoa que o isolamento e o receio de que era alvo lhe causavam. A sua sete vezes setes – Garth julgara que o amor e amizade que lhe devotava seriam o suficiente para que ela o encarasse como uma bênção na vez de uma maldição.

Sentiu-se o maior dos ingénuos. Fora por aquilo que ela escolhera o bardo e não a si?

– Não estragarei tudo se ficar a ver? – perguntara. Não a poderia privar daquilo. Não antes, quando parecia ser tudo o que ela desejava, nem agora quando compreendia a totalidade da sua necessidade.

– Se ficares quieto, não – assegurara Nimueh, em perfeita convicção. Quase poderia passar por alguém que soubesse alguma coisa do assunto. Contudo, Garth nunca a vira envolvida com qualquer tipo de magia… Excepto quando se deixava ficar imóvel no fundo do rio. Aí, quase se tornava na ninfa aquática que ele acreditara ser quando a vira pela primeira vez, tantos anos antes.

Ele prometera não interferir. Queria apenas estar com ela naquele momento, partilhar a sua alegria e deixá-la saber que permaneceria ao seu lado quaisquer que fossem as ocasiões.

Uma parvoíce. Sabia o que significava para ela e o quão pouco isso lhe parecia. Esfregou as mãos uma na outra, soprando-as, e aconchegou a roupa contra si. Começava a ponderar nas possibilidades que tinha em fazer uma pequena fogueira quando os três vultos lhe surgiram no campo de visão, dois deles carregando archotes. Reconheceu Nimueh, movendo-se com a sua graça dançada, algo que lhe era característico em tempos de descontracção e excitação. O cabelo ruivo de Myrddin, o bardo, brilhava à luz das chamas, despertando-lhe um ódio violento que o levou a cerrar os punhos. Não conhecia o velho – notou-lhe, no entanto, o à-vontade com que se movia. Não era alguém que estivesse habituado a ver-se desobedecido. Saberia rodear-se das pessoas certas para o tempo certo.

O trio aproximou-se do leito do riacho. Viu Myrddin estender a mão para o velho e pegar-lhe no archote, curvando-se e mergulhando as chamas de ambos nas águas correntes, lançando-os na escuridão. Garth praguejou. Levantou-se, disposto a aproximar-se, quando se recordou da promessa que fizera a Nimueh – não iria interferir. Tornar-se-ia inevitável fazê-lo assim que saísse na escuridão da noite à sua procura.

A contragosto, voltou a sentar-se, agora curvando-se em diante, na direcção em que deixara de ver Nimueh e os homens sábios. Controlava a respiração, tentando ouvir o máximo que podia, mas sabia que se encontrava longe demais. Talvez os olhos se habituassem. Talvez Nimueh o encontrasse.

imagem sete vezes sete

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