A porta da cela (sim, era isso que o quarto era) deslizou com um ruído suave, e entraram três Cinzentos. Só que neste caso seria mais adequado chamar-lhes Cianóticos.

Um dos Cianóticos tinha um dos olhos e o braço esquerdo substituídos por uma substância fibrosa quase negra, parecida com plástico mas com aspecto mais orgânico, que Pyotr pensou tratar-se de algum tipo de prótese. O Zarolho (imediatamente começou a pensar nele com esse nome) aproximou-se. O humano começou a sentir a espécie de formigueiro mental que sentira previamente quando outros extraterrestres tentaram comunicar com ele. Aparentemente, uma forma de telepatia, mas muito imperfeita, já que só conseguiam transmitir impressões.

“Se calhar as nossas mentes são incompatíveis”, pensou, antes de se surpreender com a formação de imagens na sua mente. O Zarolho conseguia fazer-se entender melhor que os outros monos, ao que tudo indicava!

O alienígena conseguia, de alguma forma, transmitir conceitos ao astronauta, que se materializavam na forma de imagens que lhe eram familiares. Enquanto se sentia invadido por esta capacidade de entrar na sua cabeça e procurar imagens para comunicar, este novo desenvolvimento aliviou-o.

Viu na sua consciência formar-se a imagem de um dicionário electrónico portátil e percebeu que o Zarolho estava ali para servir de intérprete.

Pyotr esforçou-se por pensar em constelações, planetas e alguns mapas estelares, na esperança que o Cianótico percebesse a pergunta tão simples: “Onde estou?”. Porém, se o alienígena entendeu a ideia, não reagiu. Em vez disso, transmitiu a Pyotr a imagem de Icarus, com a sensação de uma interrogação. Obviamente, queria saber coisas sobre o fato. Pyotr tentou fechar a mente, se tal era possível. Aqueles sacaninhas não haviam de obter informações através dele, se pudesse evitar.

Durante um momento, os extraterrestres pareceram conferenciar entre si. Era desconcertante olhar para os seus rostos humanóides mas simultaneamente inumanos, inexpressivos. Não articulavam som e o máximo de linguagem corporal que transmitiam eram pequenas inclinações na cabeça, na direcção uns dos outros. Nem chegavam a encarar-se.

Finalmente, o Zarolho transmitiu nova interrogação: a imagem de um médico a fazer um check-up a um sujeito. Pyotr ficou momentaneamente alarmado, conhecendo o folclore associado a estes alienígenas. Estariam a perguntar se precisava de algum cuidado médico adicional ou a propor-se a fazer-lhe exames invasivos? Não lhe apetecia arriscar uma trepanação, por isso tentou irradiar pensamentos de recusa.

Aparentemente, tal surtiu efeito. Ainda tentou transmitir a dúvida sobre a origem da coloração azul que permeava tudo, mas à semelhança do que sucedera quanto à localização, ficou sem resposta.

O Zarolho fez o astronauta ver uma imagem de si próprio a seguir o intérprete por corredores e percebeu a deixa. Iam dar uma volta. Talvez o levassem ao Icarus!

Pyotr e os seus anfitriões atravessaram vários corredores. Estranhamente, enquanto os dois gémeos (pensava neles assim por serem iguais; pelos vistos a teoria popular que os E.T.s eram clones tinha fundamento) não transmitiam qualquer empatia, o Zarolho parecia irradiar alguma simpatia, e mesmo fascínio pelo humano. Seria por conseguir comunicar melhor com ele?

Teve a confirmação durante o percurso. A dada altura, quando passavam em frente a um portal decorado mais efusivamente, o Zarolho pareceu ficar agitado, mas com a ansiedade expectante de uma criança a quem é prometido um brinquedo ou outra recompensa no fim de uma tarefa menos agradável. Pararam todos, e recebeu a imagem mental de um museu. Estariam em frente a algo do estilo? Zarolho e os gémeos pareciam conferenciar novamente e o intérprete emanou algum desapontamento resignado. Pyotr visualizou um relógio antigo, de ponteiros, com os mesmos a rodar aceleradamente. Ficou na dúvida se a mensagem queria dizer “mais tarde” ou “o tempo escasseia”. Bolas, a falta que fazia uma linguagem em comum!

Meteram-se a caminho e atravessaram mais alguns corredores, até chegarem a uma espécie de estação cheia de tubos onde chegavam e de onde partiam esferas negras. Estas, quando imóveis, abriam um diafragma por onde Cianóticos entravam ou saíam do seu interior.

Dirigiram-se a uma e entraram nela. O humano não conseguiu deixar de ficar pasmado com a aparente indiferença que os outros alienígenas presentes na estação demonstravam perante a sua presença.

A esfera movia-se de um modo extremamente suave, sem se sentir inércia. Terminou o seu percurso noutra estação, de onde se dirigiram a um salão amplo cheio de equipamentos estranhos, com aspecto semi-orgânico, como as próteses do Zarolho. Percebeu que estavam num laboratório, e no centro, dentro de um cilindro translúcido, encontrava-se o Icarus. Vários Cianóticos estavam embrenhados em observá-lo e aparentemente em testá-lo recorrendo aos equipamentos do salão. O astronauta não se conteve:

– Icarus!

O computador, activo, apercebeu-se da vocalização e respondeu:

– Utilizador Pyotr Magellan Drekker?

– Sim, computador, sou eu.

– Aparenta estar íntegro.

– Sim, pode-se dizer que estou bem. Tirando estar preso e a ver tudo azul. Aliás, cada vez mais azul. Não consigo perceber porquê.

– O ar deste planeta está impregnado de moléculas artificiais, cuja composição não consigo apurar mas que aparentam servir para proteger da radiação das camadas superiores da atmosfera. Posso especular que as alterações visuais sejam resultantes da exposição às mesmas.

– Espera aí! O ar está cheio de uma substância venenosa?!

– Neste momento não posso afirmar que seja “veneno”, É possível que a exposição prolongada se torne tóxica, se tal ainda não aconteceu. Não posso confirmar que sejam essas moléculas lhe estejam a causar o tal efeito. Pode ser a radiação.

– Não interessa se é uma coisa ou outra, de certeza que vão dar cabo de mim! Tenho mesmo de sair daqui! – Pyotr acalmou-se um pouco – E tu? Que te estão a fazer?

– Este fato tem estado a ser sondado pelo equipamento extraterrestre. O equivalente deles a um sistema operativo é fundamentalmente diferente de mim, mas dada a sofisticação que consigo perceber nesses aparelhos, estimo que seja apenas uma questão de tempo até o equivalente deles a software conseguir decifrar a nossa linguagem e penetrar as defesas informáticas do fato.

– De quanto tempo estamos a falar?

– Desconhecido. Analisando a presente situação, tanto deste equipamento como do utilizador, a lógica dita que devemos abandonar este local o mais rapidamente possível. A propósito, a exposição a fontes de energia neste laboratório permite o recarregamento das baterias deste fato. Nível actual: 83%.

– Folgo em saber, “Spock”. Concordo contigo, temos que tentar fugir! Mas como? Já conseguiste, ao menos, descobrir onde estamos?

– Não. A incompatibilidade de linguagem, enquanto me tem protegido da intrusão por parte dos alienígenas, também não me permitiu obter qualquer informação. Questão: é seguro estarmos a discutir estes pontos em frente aos nossos captores?

– Fica descansado, eles não falam e não deram qualquer sinal de entenderem comunicação verbal terrestre… – Pyotr sentiu-se gelar quando se lembrou que o Zarolho podia estar a percebê-lo, mesmo que parcialmente. Parou imediatamente de falar e virou-se, meio em pânico, para os Cianóticos. Tentou bloquear a sua mente o melhor possível, e aconteceu algo inusitado: recebeu a projecção de um alienígena, tipo cartoon, a piscar o olho. De seguida, viu-se a seguir o Zarolho para a sala misteriosa por onde passaram previamente.

Percebeu a deixa, e foi com o extraterrestre. Curiosamente, nenhum dos Gémeos os seguiu. Quando chegaram à sala, Pyotr confirmou que se tratava de um museu, mas o conteúdo deixou-o atónito: o espaço, que fazia lembrar um hangar, estava carregado de objectos de origem terrestre, e emanava toda uma aura de sala de troféus. Aqui e ali, objectos nitidamente de fabrico humano, que abarcavam várias eras, sendo que o astronauta reconheceu a maioria como provindo dos séculos XX e XXI. Estes incluíam um pesado telemóvel com ecrã monocromático e com teclas de pressionar mecanicamente, um automóvel de motor a combustão com um logótipo “Ford” na grelha da frente, algumas peças de roupa e calçado, 3 relógios e, num expositor iluminado, um livro de arte sequencial – a designação comum era “Banda Desenhada”, se não estava em erro – em cuja capa curiosamente bem conservada se viam dois indivíduos, um deles com um fato escuro com máscara e capa, vagamente reminiscente de um morcego, acompanhado por um indivíduo juvenil num fato mais claro, também com capa e uma máscara do género que só tapava os olhos. Super-heróis, um género muito popular naquela era. Apesar de os ver em tons de azul, tinha a ideia de já ter visto a imagem nas suas pesquisas, e que o fato do rapaz incluía cores garridas, como amarelo, vermelho e verde. Ainda se viam, pendurados no tecto, um caça a jacto da década de 1950 e um outro, com aspecto mais sofisticado, que provavelmente pertenceria à década de 2020.

Finalmente, e o que mais perturbou o astronauta, havia cilindros contendo esqueletos humanos perfeitamente montados, bem como de outros animais, incluindo cães, gatos e até bovinos.

«Isto é só uma amostra» explicou uma voz, alarmantemente clara, na mente de Pyotr, que deu um salto, surpreendido, perante a comunicação que continuou: «Temos muito mais coisas armazenadas. Durante muito tempo visitamos o vosso mundo, deixámos de o fazer há mais de trezentos dos vossos anos»

De facto, o mostruário terminava em finais do século XXI. O humano pensou:

“Consegues perceber a minha língua?”

«Os conceitos, sim. Projecto-os na tua mente de modo a parecerem frases. Levou algum tempo mas cheguei lá. O museu ajuda. Tenho um interesse especial pela vossa espécie, sabes?» A ideia deixou o astronauta desconfiado, o que foi obviamente pressentido pelo alienígena, que continuou:

«Vocês, que se designam humanos, têm uma característica maravilhosa – a individualidade. Algo que eu prezo imenso.»

“Pois, já reparei que vocês parecem feitos em série.”, lançou Pyotr. “Clonagem?”

«Sim. Nós partilhamos uma espécie de mente colectiva, embora mais a nível subconsciente. Temos diferenças a nível consciente, especializações, se quiseres, conforme as tarefas atribuídas, mas somos essencialmente muitas versões do mesmo.»

“E tu?”

«Eu sofri um acidente que me alterou. Viste as marcas físicas. Desliguei-me do colectivo e agora apenas consigo comunicar conscientemente por telepatia activa. Tornei-me um indivíduo único, e como tal, uma anomalia, que apenas é tolerada porque não perturba o funcionamento dos outros. Passei muito tempo neste museu, a desejar conhecer um de vocês e a desejar que não tivéssemos perdido o interesse no vosso mundo. E de repente, apareces tu!»

“Bom, aproveita bem porque acho que não me vais ter muito tempo por aqui.”

«Ah, porque pretendes fugir?»

“Não. Porque acho que estou a morrer. Desde que cheguei que vejo tudo azul. Um pesadelo. E o computador do fato sugeriu que é a vossa atmosfera, carregada de umas partículas estranhas, que me está a envenenar e a causar esse efeito. Resumindo, não acho que sobreviva aqui muito tempo. Nunca aconteceu a outros visitantes?”

«O escudo químico anti-radiação… Não, isso foi implementado mais recentemente, quando a atmosfera ionizou. Que eu saiba, nunca nenhum de vós apresentou esse efeito.»

“Talvez se eu explicar aos outros…”

«Não vais conseguir comunicar como consegues comigo. A colectividade faz com que a telepatia activa deles seja fraca, a minha é que está mais desenvolvida para compensar estar desligado deles.»

“Então, estou perdido. Preciso de sair daqui, de voltar para casa. E preciso do fato.”

«O que tem o fato de tão especial? Sei que andam todos intrigados com ele.»

Pyotr explicou a Zarolho o que fazia o fato, como fora lá parar e como teria que estar fora da atmosfera para poder saltar. Isto se conseguisse apurar onde estava e calcular uma rota para casa.

Icarus Blues 2

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