Garth seguia a silhueta de Nimueh dançando em volta da fogueira. Por uma noite, as circunstâncias do seu nascimento eram esquecidas pelos companheiros e permitia-se à jovem que risse, cantasse e dançasse como qualquer outra – e que mulher ela se tornara! A menina havia crescido, o corpo perdendo a gordura infantil, traçando com firmeza as suas formas, os seios arredondando-se por baixo do tecido e as coxas engrossando para os filhos que haveria de ter. Das sete irmãs, era a única que permanecia por casar, mantida à distância tanto pelo seu fadado sete vezes sete quanto pelo homem sábio que amiúde a visitava.

Garth rangeu os dentes ao pensar nele. O ciúme envenenava-o de cada vez que recordava o modo como o bardo se fora infiltrando nas afeições de Nimueh, tomando-lhe o tempo e tornando a adoração infantil num amor que o aprendiz de ferreiro desejava para si. E de cada vez que o fazia, alardeava-lhe a sua presença, apresentando-se na forja com o intuito de saber sobre o avanço dos trabalhos. Que uso poderia ter um bardo para a espada de guerra que lhes encomendara?

– Garth! – A figura de Nimueh rodopiou de encontro a si, batendo-lhe de encontro ao peito. Instintivamente levantou os braços, rodeando-lhe os ombros e a cintura. Nimueh esticou o pescoço, olhando-o de baixo, a face feliz e afogueada. – Desfaz essa carranca, Garth! É um festival, pretendes que a má sorte caia sobre todas as colheitas?

– Que os deuses não o permitam!

– Então alegra-te, meu amigo – concluiu Nimueh, beijando-o. Garth sentiu o desejo arder dentro de si e, por alguns momentos, sentiu-se feliz, girando com Nimueh. O seu vulto soltava-se de si e emaranhava-se na espiral de tantos outros que ali, naquela noite, perdiam nome e identidade, movendo-se com as sombras das chamas sobre o corpo, os tambores eclodindo no interior dos seus peitos. Não existiam entraves, enganos ou maldizeres. A única magia era a dos deuses, as únicas feitiçarias, benignas. Nimueh desvanecera-se numa rapariga, um corpo mais entre todos os que a rodeavam, tal como Garth se esbatera num rapaz e nada mais. Poderiam sê-lo naquela noite – dois corpos, dois amantes, unidos no encanto do onírico.

Mas Garth vira-o. Um relance de cabelo ruivo, um perfil de viés – quando se virou novamente em busca de Nimueh, esta desaparecera, e Garth soube que, mais uma vez, a perdera para ele.

 

***

 

Nimueh gritou, recebendo no ventre o sémen de Myrddin. As costas arquearam-se-lhe como um arco manejado por mãos experientes, o suor brilhando-lhe na pele à luz das fogueiras que, apesar de distantes, se infiltravam nos domínios da floresta. Ouviu o gemido do bardo, clamando pelo seu nome, antes de se deixar cair ao lado dela. Aninhou-se nos seus braços, os dedos brincando com a barba ruiva, onde alguns fios prateados já se faziam presentes.

– Estás a envelhecer – brincou. – Em breve serei demais para ti.

– Não menosprezes o desejo de um homem – retorquiu-lhe Myrddin. E estarás para lá do meu alcance muito antes de isso acontecer. Mas não lho disse. Não tinha a coragem para o fazer.

Contudo, ela apercebera-se da alteração no seu espírito, interpretando-o erroneamente.

– Quanto tempo ficas desta vez?

– Partirei dentro de dois dias.

– É pouco.

– Já te devias ter habituado – notou Myrddin. – Nunca aqui fiquei mais que três noites.

Nimueh passou-lhe uma unha sobre o peito, distraída.

– Não é possível que me habitue à tua ausência. – Esticou o queixo, fixando-o. – E eu? Quanto tempo para o que me predisseste, Myrddin?

Myrddin sentiu o bem-estar do momento esfumar-se ante o conhecimento daquilo que se aproximava. Maldito fosse Merlin, sete vezes maldito!

– Pouco.

– Dizes-me sempre isso – reclamou a mulher, beliscando-lhe um dos mamilos.

– Au! Nimueh! Falo-te seriamente! – Hesitou, incerto sobre como a promessa seguinte seria recebida. – Na minha próxima visita, trarei alguém comigo. Alguém que te ajudará.

Nimueh alegrou-se.

– Ajuda? Que tipo de ajuda?

– Não compreenderás de início, mas assim que a receberes, saberás – garantiu Myrddin. – Será magnífico, Nimueh. Tu serás magnífica. Verás.

 

***

 

As novas sobre a morte lenta de Uther espalharam-se pela Bretanha como cinzas ao vento. Dizia-se à boca pequena que o Pendragon se havia quedado sob dores acutilantes, devastado pelas almas demoníacas dos seus inimigos caídos, que se tinham erguido uma vez mais para o atormentar. Falava-se de traição discreta e envenenamento matreiro.

– Velhice – sentenciou Merlin. – Não existe maior doença nem veneno mais perigoso. Acautela-te, Myrddin, também para lá caminhas.

O bardo, consideráveis anos mais novo que o seu mestre, ignorou-o.

– O rapaz está pronto? – perguntou, ansioso. Anos de planos e considerações teriam o seu primeiro passo naquela morte. Um desaparecimento que traria lugar a alguém maior – um rei não apenas Pendragon, mas um rei que expulsaria de vez com os saxões, unificaria a Bretanha e entregá-la-ia aos velhos deuses.

Merlin, impaciente, bateu com as mãos na mesa.

– Vem, chega-te aqui – ordenou, aproximando-se da janela. Myrddin obedeceu. – Olha e diz-me o que vês – continuou Merlin, apontando um dedo para o exterior.

– Um jovem com uma espada, talvez de madeira…

– Não é de madeira. Consegui-a a um soldado ávido de moedas para a bebida.

– Ele parece-me ser muito novo para…

Merlin mandou-lhe uma carolada na nuca.

– Acusas-me de mentir, bardo? Vê os treinos do rapaz. Notas a perspicácia com que vence aqueles que defronta? Não está ali força bruta. Está engenho e bom uso da cabecinha que o pescoço lhe segura. Eduquei-o, Myrddin. Eduquei-o nas armas, no pensamento e na diplomacia. Tive o molde de que precisava, e nele criei o rei de que a Bretanha necessita. Arthur está pronto. Certifica-te que tudo o mais também o estará.

imagem sete vezes sete

Anúncios