Pyotr Drekker observava, imóvel, o cenário azul através da janela da cela. Os seus captores tinham tentado, de um modo totalmente descarado, transmitir-lhe a impressão que não estava preso, que era apenas um hóspede, mas sabia melhor que isso.

De qualquer modo, mesmo que tivesse liberdade para se movimentar neste estranho mundo, sem o Icarus não iria a lado algum. Diabos, mesmo que tivesse acesso ao fato e o conseguisse recarregar, não o poderia activar a partir da superfície do planeta.

Que situação! E ainda há menos de um dia (pelo menos, assim achava, com o salto hiperespacial e a permanência num mundo alienígena, era difícil ter certeza), tudo era uma celebração…

Um dia antes, Pyotr preparava-se para ser o primeiro humano na história a atravessar o hiperespaço sem recurso a uma nave. Após dois séculos de viagens hiperespaciais em cruzadores e naves progressivamente mais pequenas, finalmente, um grupo de crânios conseguira miniaturizar propulsores ao ponto de poderem ser integrados em fatos especiais. O resultado fora Icarus, o chamado hiperfato. As suas capacidades foram testadas, como é natural, através de controlo remoto, e conseguiram alguns saltos bem calculados entre Terra-1 e Terra-3, a 25 anos-luz. Supostamente, o fato conseguiria saltos até uns 40 anos-luz, mas ninguém se atrevia a mandá-lo para além das fronteiras do domínio humano. A autonomia do Icarus era, compreensivelmente, superior à de um propulsor de cruzador, como era mais pequeno e leve. As possibilidades que esta nova tecnologia abria eram enormes, até já se falava em usá-la para viajar no tempo!

A ideia agradava a Pyotr, um estudioso ávido da cultura dos séculos XX e XXI, que adoraria conhecer a Terra-1 dessa época, quando era apenas “Terra”, sem número. Talvez pudesse obter algumas relíquias originais dessa era, acabadas de produzir, em vez das réplicas que coleccionava, sintetizadas cerca de quatrocentos anos depois.

A obtenção desses objectos era a sua menor preocupação no momento. Livrar-se dos sacanas cabeçudos que o prendiam neste mundo horrível, todo azul, ciano e índigo era a sua prioridade.

Ainda lhe custava a crer como tudo correra mal de um minuto para o outro. Lembrou-se duma expressão coloquial muito em voga na sua época preferida, que tinha a ver com material fecal a atingir dispositivos de ventilação, e fora o que sucedera, de certo modo. Um desastre épico, semelhante aos que atormentavam os pioneiros do início da corrida ao espaço.

Inicialmente, tudo correra bem. Já com o Icarus equipado, o astronauta pioneiro saíra da estação que usavam como plataforma de suporte para os saltos, a Daedalus. Usando propulsores magnéticos convencionais, afastara-se da estação o suficiente para o hiperpropulsor poder ser activado. Até aí tudo bem, acenara para o público que fora convidado a assistir, que incluía todos os cronistas e noticiadores da praxe. Mantivera-se sempre em contacto via rádio com os membros da equipa de controlo, que não podiam deixar de mandar as suas piadinhas, a favorita das quais parecera ser “Tenta não te aproximar demais de nenhuma estrela”.

A sua alma gelara quando o tagarelar dos controladores de missão foi substituído por vozes agitadas, que trocavam informações em tom aflito sobre sobrecarga nos reactores da estação e falha no sistema de arrefecimento. A última coisa que ouvira, antes de as vozes se calarem e a estação se começar a desintegrar foi “Como é que ninguém reparou no revestimento gast…”. Pyotr contemplara com um fascínio aterrado a sucessão de explosões que assolaram a Daedalus, com a mente acelerada como sucede nesses momentos em que observamos um desastre a acontecer e não temos maneira de o evitar. Parte da sua mente evocava imagens do Challenger e de Chernobyl, a parte mais pragmática e treinada tomava decisões de como escapar à explosão final que o iria atingir dali a alguns segundos.

Providencialmente, essa parte da sua mente era a que estava ligada via interface electroencefalográfico aos comandos do fato. A mesma que o salvara, activando o propulsor de imediato e sobrepondo-se ao computador de bordo, que o queria impedir de dar um salto de longo alcance sem ter programado as coordenadas.

Resumindo, a sua reacção instintiva fora comandar o Icarus para saltar para o mais longe possível daquele local.

E assim, momentos depois, Pyotr dera por si muito vivo, mas muito perdido, no meio do vazio imenso e negro, a anos-luz da Terra-1, envergando um Icarus com as reservas de energia quase esgotadas pelo salto não controlado.

O astronauta comunicara, então verbalmente, com o computador de bordo:

– Onde estamos?

– Informação indisponível – respondera a máquina, na sua voz electrónica perfeitamente modulada – Salto efectuado sem colocação de coordenadas.

–E não consegues calcular?

– As estrelas observáveis não correspondem a constelações mapeadas a partir do domínio humano – explicara o computador – As posições observadas nos nossos mapas não correspondem às reais devido ao tempo que a imagem das estrelas demora a chegar às Terras. Adicionalmente, não possuo informação sobre qual a direcção do salto. Apenas posso estimar a distância saltada, que é de 39,7 anos-luz, com margem de erro de 0,21 anos-luz, de acordo com o nível energético inicial e com a massa total transportada. Não posso precisar mais sem leituras de hiperturbulência e distorção gravitacional através do percurso. Sem esses dados é impossível efectuar o cálculo em tempo útil com os recursos energéticos disponíveis.

– Tempo útil? Explica.

– As baterias do fato ficaram com 6% de carga após o salto. É necessária essa energia para o suporte de vida. O cálculo da posição aceleraria o gasto energético e esgotaria completamente as reservas em menos de 2 horas, tempo terrestre padrão.

– E se não calculares nada, quanto tempo de suporte de vida me resta?

– 4 horas e 35 minutos, mais ou menos 10 minutos.

– Estou a ver. E não me podes congelar, ou assim?

– O fato não está equipado com equipamento criogénico.

– E não há maneira de carregar as baterias?

– Não nos encontramos perto o suficiente de nenhuma estrela ou outra fonte maior de energia para proceder à recarga. – Com esta explicação, Pyotr pensou na ironia, seria o primeiro Ícaro a morrer por não estar suficientemente perto do sol.

– Ou seja, daqui a cerca de quatro horas e meia, morro.

– Incorrecto. Esse é o tempo para os sistemas de suporte de vida falharem. Após a desactivação, restará algum oxigénio e a temperatura inicialmente será compatível com a vida. Estimo um intervalo adicional de 22 minutos, com base no actual ritmo metabólico do utilizador, até a hipoxia e a hipotermia provocarem a cessação das funções vitais.

– Ah, bom. Obrigado pela correcção. Fico muito mais aliviado! – ironizara o astronauta.

– Não são necessários agradecimentos. Só estou a cumprir a minha função. – Fora a resposta desprovida de humor por parte da máquina.

Pyotr ficara a pensar, no tempo que lhe restava, como daria jeito um Deus Ex Machina, um salvador inesperado, um cruzador desviado que o encontrasse e salvasse. Depois apercebera-se de como tal esperança era uma tolice. Se o computador estava totalmente desorientado, era porque não estavam perto sequer de nenhuma rota humana. Com o desespero, dera por si a imaginar se algum cruzador daqueles que se perderam nos primeiros anos da exploração do espaço profundo poderia andar por perto, ainda funcional. Pelo sim, pelo não, activara o emissor de sinais de socorro hiperespaciais, um aparelho independente que incluíram num compartimento do fato. A maquineta tinha uma bateria própria, que Pyotr desejou saber ligar ao fato, mas que de qualquer modo só lhe concederia, provavelmente, mais uns minutos. Bem, talvez alguém o ouvisse e pudesse salvar em tempo útil.

Quando três naves triangulares se materializaram, quatro horas e quarenta e dois minutos depois, pensara que a privação de oxigénio começara a fazê-lo alucinar. Especialmente quando fora puxado por um dispositivo de tracção para o interior de uma delas e vira os ocupantes. Sendo figuras icónicas da cultura do fim do século XX e início do século XXI, reconhecera-as de imediato, criaturas delgadas com cabeças demasiado grandes e enormes olhos negros amendoados.

Fora então levado para o planeta dos seus salvadores ou, pelo menos, um ocupado por eles. Um mundo em que por alguma razão, tudo ficava azul, incluindo a pele cinzenta dos alienígenas.

Decididamente, era algo que tinha a ver com o planeta; quando o reanimaram no interior da nave, após o resgatarem de uma morte no gelo do espaço, as cores ainda eram normais.

E agora, preso na cela, via tudo em tons de azul. Seria alguma coisa na atmosfera? Algum gás, ou veneno? Precisava desesperadamente de informações e não vislumbrava hipótese de as obter.

Icarus Blues 1

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