Morgaine tinha visto o ventre da mãe inchar como o de uma cadela, deformando-se para que a nova criança pudesse crescer. Diziam-lhe que teria um irmão. Diziam-lhe que o irmão seria rei e que ela, irmã do rei, seria recebida como uma princesa em qualquer local a que se dirigisse.

Mas a criança não era seu irmão. Morgaine vira através da ilusão de Uther, gritando a verdade para que todos a pudessem ouvir – em vão o fez. Uther, sob a aparência de Gorlois, zangara-se, fazendo com que a mãe se zangasse também. O estalo que lhe dera para que se calasse ainda lhe feria o orgulho e, desde então, nunca mais falara. Mantinha-se quieta e taciturna, uma criança baixa que pouco prometia crescer. Os olhos verdes, sagazes, moviam-se de pessoa para pessoa como se a cada um vigiasse. A sua presença muda causava arrepios em todos os que dela se apercebiam e os rumores depressa começaram a correr. Os comentários sobre a sua estranheza passaram a sussurros sobre a sua magia. As visões que tivera quando ainda falava cresceram num rodilho de mentiras exageradas e os nomes nasceram nas sombras das suas costas – Morgan Le Fey, aquela que pertencia às fadas.

Morgaine jurara odiar o meio-irmão. Ele era o fruto inegável do crime hediondo que se vira obrigada a presenciar e a calar. Ele era sangue do sangue do violador da sua mãe, carne da carne do assassino do seu pai. Ele era tudo o que de maior Uther deixaria para trás.

E, no entanto, a criatura enrugada e ensanguentada, rúbea dos gritos que lançava aos céus, ganhara-lhe o coração. Tinham-lho colocado nos braços contra sua vontade, seguindo os desejos expressos pela mãe de que ela o visse. Instintivamente, Morgaine começou a embalar a criança, cantarolando-lhe numa voz baixa e rouca pelo desuso. Queria que ele soubesse que nascera num mundo onde se poderia ouvir sempre algo mais do que brados e ordens ríspidas de parteiras.

Quase amuou quando lho tiraram e a expulsaram do quarto. Um parto não era local para senhoras como ela. Um parto não era sítio para que alguém se pudesse quedar inútil, dificultando o trabalho das restantes. Mas um jardim já o era.

– Nasceu, então, um rapaz. – Morgaine ergueu o olhar inquisitivo. Estava ajoelhada sobre o seu canteiro de ervas, sujando o vestido e verificando o que cada uma delas necessitava – uma outra razão para a temerem como feiticeira. De pé, diante dela, Myrddin, o bardo, sorria sem gosto. – Mas pelo que tantos me quiseram dizer, tu já sabias.

Morgaine ignorou-o, retomando a atenção nas plantas. O bardo não pareceu nem surpreso nem ofendido.

– Merlin vai gostar de saber. Mas diz-me, senhora Morgaine, é verdade que possuis o dom da Visão? – A pergunta embateu num escudo de silêncio, apenas o motivando para que prosseguisse num monólogo. – Muitos alegaram tê-lo e, no entanto, nada sabiam do que diziam. É um dom raro e perigoso, não deve ser deixado à solta. Nenhuma fera o é. Precisas de o educar, Morgaine. Precisas de quem to ensine a fazer. Não é apenas a Visão, sabes? Essa esconde muitas coisas, coisas que seria bom que compreendesses e soubesses manejar à tua vontade. De outro modo, cairás tu na vontade delas.

A rapariga começou a raspar a terra, arrancando os pequenos inícios de ervas daninhas que se tinham atrevido a tentar crescer no seu canteiro. Ocupou-se durante alguns minutos, ciente da presença do bardo que, ainda que sem falar, insistia em permanecer ao pé dela. Por fim, a insistência pacífica do homem prevaleceu, levando-a a erguer interrogativamente a cabeça na sua direcção.

– O teu irmão não vai ficar aqui – declarou Myrddin, com suavidade. – A sua educação está prometida a Merlin e assim que a tua mãe o tiver desmamado, o druida virá exigir o que lhe é devido. Como será a tua vida nessa altura, Morgaine? Até onde terão ido os rumores? Quanto de ti terá a tua Visão corroído? Quem aqui restará que te possa amar? – Um lampejo de medo passou pelos olhos de Morgaine. – Eu posso impedir tudo isso, senhora. Posso levar-te a quem te ensine sobre as artes que possuis e posso, depois disso, dar-te um propósito onde as utilizar. Vem comigo, Morgaine. Deixa-me ajudar-te.

Morgaine fixou-o no seu silêncio, por tanto tempo que Myrddin julgou a causa como perdida. Quando falou, fê-lo com tal segurança e seriedade que o bardo soube que apesar das afirmações do corpo, não era uma criança aquela que se lhe dirigiu.

– Para que depois eu te possa ajudar.

– A mim muito pouco, Morgaine, minha senhora – sorriu Myrddin. Uma vez mais, um sorriso talhado em pedra. – Mas Merlin e a Bretanha terão o que te agradecer, bem como o teu meio-irmão, o jovem Arthur.

– Do mesmo modo que Igraine me teria a agradecer tê-la avisado sobre a verdade que se escondia na aparência do senhor meu pai?

Ah! pensou Myrddin. Esta é uma ferida ainda a supurar.

– Demasiadas vezes temos de agir sabendo que não recolheremos o fruto merecido pelos nossos actos – suspirou o bardo. Pareceu a Morgaine que um abatimento o envelhecia num rompante. – Ainda assim, não deixamos de regar a árvore.

Morgaine não lhe respondeu, remetendo-se novamente ao seu cerco de silêncio. Debruçou-se sobre o canteiro, retomando o trabalho que abandonara, dando a conversa por terminada. Daquela vez, Myrddin não insistiu, deixando-a com uma vénia que a jovem fingiu não ver.

Ao nascer do Sol, partiram da casa de Uther.

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