– Onde estiveste?

Nimueh hesitou à entrada do casinhoto de pedra, confusa pela rispidez da mãe. Os olhos moveram-se pela única divisão, até se depararem com a explicação para o estado de espírito nervoso.

– No riacho – respondeu. – Para quando for a senhora das águas – acrescentou, esperando despertar a simpatia do homem sábio. O vulto, sentado ao pé da concavidade que nos dias mais invernosos fazia de nicho para a fogueira, moveu-se com desconforto.

– Dama do Lago – corrigiu, uma suave nota de repreensão na sua voz. – Dá a cada coisa o seu nome, Nimueh, e nunca os confundas. Um nome é poder. Um punhado de palavras confusas não é nada.

Nimueh corou de embaraço.

– Ainda assim, desobedeceste-me – continuou a mãe, optando pela reprimenda familiar face à incerteza de como reagir à intervenção do bardo. – Disse-te que voltasses cedo, e o Sol já se prepara para se deitar.

– Senhora – chamou o bardo, a face ainda obscurecida pelas sombras. – Esses castigos podem esperar, eu não. Deixa-me a sós com a criança.

Nimueh viu os lábios da mãe embranquecerem e cerrarem-se. Forçando uma concordância que tanto tinha de respeitosa quanto de temerosa, saiu da habitação, cumprindo os desejos do homem sábio. Este suspirou, chamando Nimueh para junto de si.

– Temo que a tua mãe não me tenha grande apreço – lamentou-se. Nimueh sentou-se no chão a seus pés, observando em silêncio a face cansada. Não era um homem velho, conquanto a sua postura o pudesse indicar. Não era, também, um homem jovem. Tinha no rosto as marcas e agruras de uma vida já meio vivida, e os olhos azul-cobalto pareciam atravessar-lhe a alma com a mesma facilidade com que ela atravessara as águas do riacho. O cabelo ruivo crescia-lhe num emaranhado, acompanhando a barba da mesma tonalidade. – Uma apreensão que não lhe compreendo, minha pequena Nimueh. A mais ninguém pareço causar tal sentimento.

– Ela é uma sétima filha – retorquiu irrefletidamente Nimueh. – Sabe coisas que os outros não sabem.

O bardo olhou-a, estupefacto, largando de seguida uma estrondosa gargalhada.

– E desse modo, dizes-me sem nós na língua que a achas com razão.

Nimueh voltou a corar, as faces escaldando ante a realização do seu atrevimento. Mas não era criança para se deixar por explicar.

– Um homem sábio é muitas coisas – retorquiu. – Algumas boas e algumas más. Trabalhará para o melhor da Bretanha e dos deuses, mas não podemos saber se esse grande bem comum não será um grande mal para nós.

– Por vezes são requeridos sacrifícios.

– E é por saber isso que a minha mãe não se sente à vontade convosco.

– És uma pequena raposa esperta, não és, Nimueh? – provocou o bardo, pousando-lhe a mão sobre a cabeça. – Mas vejo que pelo menos tu não me receias.

– Quero ser aquilo que me disseste!

As feições do bardo obscureceram, ante a rigidez que as tomou.

– Esperemos que quando chegar o momento, não tenhas mudado de ideias.

– E quando chegará, senhor? – perguntou ansiosamente a criança. Por uns momentos, o homem sábio quase que pareceu entristecer-se.

– Não tenhas pressa, Nimueh. O teu tempo chegará. Antes dele, aproveita a paz que ainda te resta.

 

***

 

– Como estava ela?

Myrddin sentiu-se ameaçado pela pergunta no minuto em que entrou no aposento. A grande torre de Merlin encontrava-se atulhada de caixas, caldeirões e mesas, que por sua vez se afogavam numa variedade de mapas e pergaminhos, alguns da autoria do druida, outros destinados a auxiliá-lo nas suas buscas e deduções.

O próprio Merlin permanecia de costas para si, rabiscando furiosamente numa tentativa de ordenar as ideias que lhe advinham com demasiada rapidez e sobreposição. Tratava-se de um homem alto, de uma magreza extrema, com poucos cabelos de que se pudesse gabar, mas assaz orgulhoso da barba grisalha, que mantinha limpa e livre de nós.

– Ansiosa – respondeu Myrddin. – Como sempre tem estado.

Merlin parou de escrever, a pena imóvel a meio de uma palavra.

– Mas…?

– Mas não sabe o que verdadeiramente a espera.

O druida pousou a pena, virando-se para o bardo. Um sorriso divertido e sarcástico bailava-lhe nos lábios.

– Tomaste gosto pela pequena? Decidiste animar-me com alguns dilemas pessoais, Myrddin? Bem sabes como me apraz observar todos esses problemas sentimentais. Ah! – exclamou, estalando a língua. – É uma batalha tão sangrenta quanto a que fazemos contra os saxões! E igualmente excitante, meu jovem bardo! Possa eu um dia ensinar-te a ver o encanto de tudo isto, e então sim, aprenderás a usufruir verdadeiramente do dia-a-dia dos que te rodeiam.

– Foi por isso que mandaste Uther ao leito de Igraine?

A pergunta fora disparada mais como um desafio do que como uma acusação, lançada no calor da irritação. Por demasiadas vezes, Myrddin deixava-se arrebatar pelas provocações do seu mestre.

– Uther Pendragon é o nosso senhor e suserano – ronronou Merlin, satisfeito como um gato lambendo os beiços. – Se ele desejava a duquesa da Cornualha, não lha poderia negar. O erro foi de Gorlois por querer exibir a esposa como se de um prémio se tratasse. Foi um acto estúpido e orgulhoso, sofreu as consequências.

– A morte pela beleza de uma mulher?

– Coisas muito piores já aconteceram pela beleza de uma mulher. Não são criaturas confiáveis, as mulheres, muito menos as bonitas. Nunca te envolvas com uma que o seja, Myrddin. Escolhe as feias e as estropiadas, se realmente precisares delas.

Myrddin nunca vira uma feia ou uma estropiada na companhia do druida.

– E a criança? – insistiu. – Que será da criança?

– Ser-me-á dada, tal como Uther prometeu. – Merlin pegou distraidamente na pena, batendo-lhe com o bico de encontro à palma da mão. – Ele tentará quebrar a promessa quando tiver o varão nos braços. Mas não deixarei. Ninguém foge às promessas que me foram feitas.

Myrddin pretendera saber sobre a menina, a filha que Igraine tinha tido de Gorlois, antes de este ter sido morto e o leito matrimonial conspurcado pela ilusão de Uther. Que seria dela, agora que o pai morrera e a mãe se casara com o rei que a violara? Se os rumores da justiça de Pendragon se revelassem verdadeiros, cresceria com tudo o que lhe pertencia de direito, educada para se tornar na duquesa da Cornualha: bem como num acepipe a possíveis noivos que nela vissem não apenas as terras e o título, mas também o parentesco com o futuro herdeiro de Uther. E pouco mais velha seria do que Nimueh…

A companhia de Merlin deixou-o agoniado. De igual forma, a sua devia ter-se tornado demasiado enfadonha para o druida, que lhe virara as costas, embrenhando-se mais uma vez nos cálculos de possibilidades. Discretamente, retirou-se.

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