A rapariga estava morta. Permanecia imóvel no fundo do riacho, os cabelos de um loiro pálido movendo-se em redor da face adormecida, tão jovem que doía de olhar. As roupas, algo rude de lavrador, flutuavam com o movimento da corrente, uma leveza contrastando com o peso de um corpo sem vida. Não teria mais de seis ou sete anos.

E era bela! Bela como uma deusa dos riachos ou uma ninfa das águas. O rapaz sabia que a deveria tirar dali. Sabia quem ela era, a sétima filha de uma sétima filha, que merecia uma cerimónia própria, onde a família a choraria ou rejubilaria… Nunca se adivinhava no que se poderia tornar a sétima filha de uma sétima filha. Seria encantada, não havia dúvidas, mas que encantamento? Uma servidora da Luz ou uma escrava das Trevas? Não existia o meio-termo para aqueles que se criam supersticiosos.

Mas aquela não mais inspiraria a dúvida. O seu sete vezes sete não se mostrara de sorte, esquecendo-se de a proteger em tão tenra idade. O rapaz perguntou-se como teria aquilo acontecido. Tropeçara em meio das suas brincadeiras solitárias, caindo no abraço mortal do riacho? Ou teria feito como o velho Bob, que intencionalmente caminhara para as águas que sabia serem-lhe fatais?

As pálpebras da rapariga tremeluziram. O rapaz aproximou-se, curioso, debruçando-se no leito mole do riacho, os joelhos encrostando-se numa mistela de erva e lama. Não conseguia deixar de se sentir fascinado pela imagem dela, imóvel, no fundo das águas. Quase como se lhes pertencesse, e não à terra.

Os olhos abriram-se, reflectindo um azul acinzentado, e uma espiral de pequenas bolhas de ar saiu-lhe por entre os lábios. O rapaz gritou, recuando atabalhoadamente, sujando-se ainda mais no processo e enfiando um dos pés descalços nas águas frias. Está viva!, pensou, correndo para longe do riacho. Afogou-se e está viva!

Refugiou-se na protecção da floresta, agachando-se nas sombras das árvores. O coração batia-lhe descompassadamente de encontro ao peito, a adrenalina do medo percorrendo-lhe ainda o corpo. Da segurança do seu esconderijo, observou a rapariga sair do riacho. Tinha-o visto debruçado sobre si, e ria-se do susto que lhe pregara. Agarrara nos tecidos rudes do vestido e torcia-os, repetindo o processo com os cabelos. Não parecia estar morta ou afogada ou correr algum tipo particular de perigo. Naquele momento, nem parecia mágica.

O rapaz sentiu-se estúpido. Deixara-se assustar por uma rapariga banal, nas suas brincadeiras mundanas. A necessidade de remediar a sua imagem impunha-se sobre o conhecimento de que ela era ainda uma sete vezes sete. Insuflando o peito, voltou a aproximar-se, caminhando do modo que, na sua imaginação, o dono daquelas terras caminharia: pomposo.

Foi naturalmente ignorado. Tornava-se desmotivador, mas se a recusa dela em reconhecer a sua presença servira para o fazer vacilar nos seus modos, em igual medida conseguiu espicaçar-lhe a curiosidade.

  – Eu sei quem tu és – declarou, como que a desafiando. – És a rapariga da Sétima.

A rapariga não lhe respondeu de imediato. Acabou de torcer o cabelo, que lhe caiu pesado pelas costas, e esfregou as mãos no vestido ainda húmido, numa tentativa frustrada de as secar. Quando falou, imitou-lhe o tom.

– E eu sei quem tu és. És o rapaz do Ferreiro.

– O meu pai não se chama Ferreiro!

– Nem a minha mãe Sétima.

Encararam-se durante uns segundos, um desafiando o outro numa batalha muda. Mas eram crianças e a paciência para a quietude não abundava.

– Chamo-me Garth – cedeu o rapaz, resignando-se a perder aquela batalha. O desafio e a arrogância haviam sido substituídos por um cuidadoso tom amigável. – E sou o melhor aprendiz de ferreiro de toda a Bretanha!

– Nimueh.

– Que estavas a fazer ali? – perguntou, apontando o riacho. – Julguei que estavas morta.

Nimueh riu-se, levando uma mão ao lóbulo da orelha e beliscando-o.

– Estava a treinar.

– A treinar para o quê? – O espanto tornara-se evidente nas feições do rapaz. – O que se treina no fundo de um rio?

– Isto – replicou Nimueh, saltando para dentro de água. Varrendo a superfície com um braço, provocou uma onda que encharcou Garth de cima a baixo. O rapaz abriu e fechou a boca várias vezes, ouvindo um “cara de peixe!” por conta da reacção. Ante a provocação, entrou numa fúria para dentro do riacho, perseguindo Nimueh com a óbvia e justa intenção de lhe retribuir a brincadeira. Os reflexos dela eram ágeis. Os dele, rápidos. A batalha terminou num empate, com ambos deitando-se ofegantes nas ervas, esperando que o Sol os secasse antes de chegar a altura de regressarem às respectivas famílias – nenhum deles se escapuliria a um raspanete caso chegassem a casa encharcados até aos ossos.

– Nimueh – chamou Garth, quando recuperou o ritmo da respiração. – Que estavas a fazer no fundo do riacho?

– Já te disse, treinava.

– Mas treinavas para o quê? E não me molhes outra vez! – acrescentou, com um súbito alarme.

Nimueh sorriu, um trejeito minúsculo que poderia ter passado despercebido.

– Prometes guardar segredo?

– Prometo! – respondeu de imediato Garth, virando-se de lado para a olhar. O perfil dela recortava-se contra o sombreado da floresta mais adiante, pertencendo-lhe com tanta naturalidade quanto pertencera às águas… Não. Enganava-se. Nunca pertenceria tanto a outra coisa como pertencera ao riacho. Em tudo o resto, limitava-se a adequar-se, a parecer bem, a parecer pertencer.

– Prometes mesmo?

– Que as feras me rasguem a carne e os dragões me queimem os ossos. Que os basiliscos me envenenem os olhos e as fadas me quebrem o espírito. Que estas e três mil outras dores caiam sobre mim se não cumprir a promessa que te faço!

Nimueh virara-se para ele durante os seus votos, os olhos cinzentos arregalados pela sua ousadia – e admirados também. Garth sentiu-se orgulhoso por ter conseguido despoletar um pouco que fosse da admiração dela.

– Essas são palavras perigosas de se dizerem – alertou.

– Não faz mal. Não te menti, Nimueh. Vou cumprir a promessa.

– Está bem – acedeu a rapariga, deitando-se de novo com os olhos fixos no céu. – Estava a treinar porque um dia vou viver ali.

Garth permaneceu calado, esperando que ela continuasse. Quando se apercebeu de que ela não se explicaria, zangou-se, apoiando-se nos cotovelos para se elevar acima dela.

– Brincas comigo!

– Não! Nunca o faria com uma coisa destas! Foi um homem sábio que mo disse.

O rapaz acalmou-se, deixando-se cair de novo em cima das ervas. Se fora um homem sábio quem lho dissera, então seria verdade. Toda a gente sabia que um homem sábio não mentia – embora nem sempre fosse fácil compreender o que diziam. Talvez fosse isso que se tivesse passado. Talvez Nimueh estivesse a levar demasiado à letra o que ele lhe dissera. Ou talvez houvesse uma maneira de aquilo acontecer que nenhum deles conhecia.

– E ele disse-te que ias viver aqui?

Nimueh soltou um dos seus risos de menina.

– Não neste, meu tolinho. Num maior, muito maior! Talvez num lago.

Garth tentou imaginar como seria viver num lago. Mas num lago não teria a sua forja nem maneira de lhe fazer uso. Não conseguiria aquecer o braseiro nem moldar o metal. Não poderia continuar com a profissão do seu pai, que fora do pai do seu pai, e do pai do pai do seu pai antes de si. Tornar-se-ia numa desilusão para os seus antepassados e para si mesmo.

Mas Nimueh não andava a aprender a arte do ferreiro. Nimueh não se tornara aprendiz de qualquer arte de artesão e, além de mulher, era também uma sétima filha de uma sétima filha. Talvez Nimueh gostasse de viver num lago, talvez fosse aquilo que ela queria.

– Não sei – respondeu a rapariga, quando lhe perguntou. Esticou os braços acima da cabeça, espreguiçando-se. – Talvez. Gosto de ficar no riacho. Consigo ficar muito quieta, sem respirar, durante algum tempo… – Garth não o duvidava: tinha-a julgado como morta. – Mas tenho sempre de sair dali. Tenho sempre de vir atrás do ar. – A voz tinha-se tornado mais fraca, baixando de volume até se tornar num sussurro receoso. – Não sei como vou conseguir viver num lago.

Garth sentiu-se subitamente entristecido, sabendo de imediato que era a tristeza dela que partilhava.

– Vais conseguir – respondeu, tentando consolá-la. – És a sétima filha de uma sétima filha. Tens o sete vezes sete.

– O sete vezes sete… – repetiu Nimueh, saboreando as palavras. Dir-se-ia que era a primeira vez que as ouvia, algo que não era, de todo, possível: os aldeões não tinham particular cuidado com os sentimentos daqueles que consideravam bafejados por forças que não compreendiam. Mas talvez fosse a primeira vez que as ouvia como uma esperança em vez de um temor. – Tenho-o, não tenho?

imagem sete vezes sete

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