Esplendor não gostou do Homenzinho. Tratava-o com severidade. Alimentava-o, escovava-o, e, por vezes, quando estava satisfeito com Esplendor, dava-lhe guloseimas. Mas, assim como fizera no primeiro dia que o vira, não deixava passar uma oportunidade de mostrar a Esplendor quem mandava.

E não sabia o seu nome. Quando o chamava, parecia gostar de variar nos vocativos: dragão, besta, animal. Mas nunca Esplendor. Podia não saber que era esse o seu nome? Esplendor sabia que o Homenzinho era Homenzinho. Se o Homenzinho não sabia o dele, era um cuidador muito injusto.

Pior que não saber o nome de Esplendor, só quando brincava com os dentes de Esplendor. Esplendor reclamava, mas o Homenzinho era quem mandava. E, naquelas alturas, mandava-o calar. E pimba um martelinho num. Zrac um arame preso a outro. Os arames, os arames! Os arames magoavam Esplendor. Depois ficava melhor e esquecia-se que os tinha. Mas primeiro magoavam. Não gostava dos arames.

Por que queria o Homenzinho que ele tivesse arames?

***

Todos os dias, naqueles seis meses, João entrava na Dragonaria com um “bom-dia” polido (Falso!) a Orlando. E todos os dias – salvo fins-de-semana e feriados, haja respeito – Orlando lhe respondia o cumprimento num tom afectado, antes de tomar o anão como tema das primeiras conversas do dia.

Aquele dia não era excepção, nem teria qualquer hipótese de o ser. Tendo-se alongado mais do que o comum no treino do seu dragão, João finalmente declarara o animal pronto para o primeiro teste. A inovação do seu método despertava a curiosidade, e Orlando não seria o único a escapar-se do posto de trabalho para ir observar os esperados resultados.

– Hoje quase não me disse nada, a voz tremia com os nervos – comentava com uma das amigas da equipa legal. – Garanto-te.

A amiga, no entanto, pareceu considerar o nervosismo perfeitamente natural, em nada contribuindo para o tom conspiratório de Orlando. Aborrecido, o recepcionista remeteu-se ao silêncio, a atenção focada no picadeiro à sua frente. João já se encontrava no seu centro, o dragão de porte médio deitado atrás de si. (Parece estar maltratado, se eu fosse da Administração, levantaria um inquérito.) Tanto quanto conseguia ver, a criatura encontrava-se solta, não tendo sequer os habituais arreios de segurança. Devia estar confiante, o anão. Tentou destrinçar-lhe as feições no preciso momento em que João virou costas, gesticulando para o dragão. Com um riso jocoso, Orlando exprimiu o seu humor perante a imobilidade da criatura.

Rira-se cedo demais. Abrindo a bocarra, o dragão permitiu que o anão – pouco maior que cada dente da criatura – lhe prendesse dois arames finos aos aparelhos de metal que, agora se via, o animal já trazia consigo. Orlando passou a língua pelos dentes, lembrando com nervosismo os maus momentos passados à custa do aparelho que ele próprio tivera de usar durante a adolescência.

Um murmurar começou a elevar-se entre os espectadores. O que fazia João, o que tinha na cabeça, seria possível? As achegas dispersavam-se, dando lugar a apostas que já todos sabiam que não seriam cumpridas: não eram mais que uma figura de expressão.

Com o puxar de um dos arames, o dragão levantou vôo. Orlando recuou, fechando os olhos à areia que se levantara, imitado pelo resto da multidão. Não fora algo calmo nem delicado. O recepcionista quase podia ouvir os pensamentos de admoestação dos domadores presentes: o ideal seria preparar o dragão para o vôo. Exercitá-lo por uma meia hora, tomando especial cuidado com as asas, e, só então, levá-lo a deixar o solo. Uma brusquidão na decolagem levaria os dragões a julgarem-se em perigo, correndo-se o risco de um ataque ao seu domador.

João, contudo, parecia demasiado imerso no seu exercício para se aperceber da preocupação dos colegas. Movimentando os arames que o prendiam ao dragão, obrigava-o a voar em círculos perfeitos, tendo o anão como centro. Quando considerou ter sido o suficiente, João puxou os fios num rompante, levando a criatura a perfazer uma cambalhota em pleno ar.

Pela primeira vez desde a chegada do domador, Orlando sentiu uma aversão sem conexões com a inveja. À sua volta, o burburinho tinha cessado, os palpites tendo caído por terra. Se alguns rostos se tinham fechado, noutros a apreensão era inegável. Nenhum sorria. Nenhum parecia fascinado com o novo método de João, ou satisfeito pela eficiência com que este levava o seu dragão a efectuar todos os exercícios fulcrais ao primeiro teste.

– Isto são maus-tratos – ouviu Orlando murmurar. Olhou de esguelha para a amiga do departamento legal. Os lábios comprimidos levaram-no à certeza de que agora ela estaria muito mais aberta a uma conversa de maldizer.

– Eu não te disse que ele…

Um arquejo colectivo interrompeu-lhe a frase e desviou-lhe a atenção. O queixo caiu-lhe quando notou que o dragão, num puxão enfurecido, se tinha libertado de João. O domador chegara a erguer-se no ar, antes de largar as rédeas de arame, optando por cair ainda a pouca distância do solo. A última imagem de Orlando foi a de o ver de joelhos, as mãos apertando o tecido das calças, enquanto a cabeça se curvava em desespero para o céu acima de si. (Idiota!) No segundo seguinte era arrastado pelo restante da multidão. Ainda que soubessem, pelas medidas de segurança divulgadas de tempos a tempos, da necessidade de manter o silêncio, os gritos tornaram-se inevitáveis. Orlando perdeu o controlo do corpo. Arrastado, perdeu vista da amiga e do sentido de orientação. A sombra do dragão cobriu-o duas vezes, antes de se ver entalado contra o batuque de uma porta. Espremendo-se, conseguiu entrar no edifício, que reconheceu mais tarde como sendo a sede administrativa. No desespero de refúgio, folhas espalharam-se e objectos partiram-se, a sala enchendo-se com muitas mais pessoas do que aquelas que a sua capacidade permitia. Espalmado contra uma das janelas, Orlando não conseguiu desviar os olhos do exterior. Num fascínio horrorizado, observou o dragão lançar-se a pique sobre os que não tinham ainda conseguido abrigo. Pela bocarra aberta, fiapos de fogo esvaíam-se no ar, ainda fracos demais para constituir uma verdadeira ameaça. Os arames de João balançavam por baixo do corpanzil do animal, ainda agarrados à sua dentição, fazendo a sua própria destruição: Orlando contou um mínimo de cinco pessoas feridas pelo embate com os malditos aparelhos.

Um dentista, disse ele!, pensou, numa fúria assustada. Que mais danos teria João Loureiro feito caso não tivesse, de todo, o curso e a experiência que afirmara?

***

Esplendor passou uma rasante sobre um dos poucos grupos que restavam à sua mercê. As figurinhas espalharam-se, dispersando pela sua presença. Dois tropeçaram. Um não se voltou a levantar. Deveria tentar apanhar um deles? Sentiu o calor que se lhe enrolava no ventre e tentou cuspi-lo uma vez mais. Nada. Seria por isso que os dentes lhe doíam? Fora por isso que puxara o Homenzinho. Ele estava a magoá-lo. Ele devia saber que o estava a magoar. Mas não parecia saber. Esplendor tivera de lho dizer, mas agora o Homenzinho estava quieto a olhar para ele, ainda mais pequenino do que era antes. Precisava de voltar para o Homenzinho. Precisava que ele lhe tirasse as coisas que o magoa…

Um assobio trespassou o ar. Esplendor virou a cabeça, curioso. Já ouvira aquele som, mas nunca para ele. Era sempre para os outros. O assobio repetiu-se. Queriam que fosse para ele? Mas não era o Homenzinho quem o fazia, não podia ser para ele.

E não era. Uma sombra maior, um corpo maior, uma força maior. As asas do dragão azulado cortavam o ar, numa movimentação poderosa. Rugindo sobre Esplendor, o dragão maior começou a descer, forçando Esplendor em direcção ao solo. Tentou fugir: o fogo travou-o. Quando pousou, o dragão maior pousou a seu lado. A mulher que lhe levara o Homenzinho deu umas palmadas no focinho azulado, antes de se virar para Esplendor. Fixou-a, a luta pelo domínio repetindo-se. Desconfiava. Ela ia-se aproximando, sem nunca largar o seu olhar. Um passo agora. Outro algum tempo depois. Esplendor mal se apercebia da sua aproximação, tal o vagar com que ela a fazia. Quando a mulher lhe pousou a mão no focinho, estremeceu. As garras rasparam a areia quando ela lhe retirou os arames. Rugiu, tanto de dor quanto de alívio. Doía menos. O Homenzinho não sabia, mas ela sabia. Baixando a cabeça ao nível da mulher, Esplendor abriu a boca, permitindo que ela lhe tirasse todo o metal que o Homenzinho lhe prendera aos dentes.

***

João ignorou a boa disposição latente do recepcionista quando abandonou de vez a Dragonaria. Um despedimento e um processo por fraude acompanharam-lhe a saída. Quando teve a certeza que não poderia ser visto pelo indivíduo desagradável, sentou-se na berma do passeio, enterrando as mãos na cara. Tivera tanta certeza de que resultaria…

– Nunca mais conseguirei outro igual – murmurou. A carreira de domador de dragões estava definitivamente fechada para si. A palavra correria entre aqueles do ramo, e os que de alguma forma milagreira não o soubessem, torceriam o nariz ao ver a fraude no seu registo criminal.

Mas pelo menos estava vivo. Ter ficado à mercê das vontades do dragão naquele picadeiro tinha-o feito rever o ponto de vista em relação àquele detalhe em particular. Talvez, apenas talvez, remeter-se a tratar cavidades draconianas não fosse tão mau quanto isso.

Respirando fundo, levantou-se, sacudiu as calças, e retomou o caminho para casa. Precisava de rever o seu currículo antes de o poder recomeçar a enviar. Afinal, se nada tinha resultado enquanto domador de dragões, só poderia ter melhor sorte enquanto dentista de tais bestas. Mentalmente, começou a elaborar os cartões de apresentação:

 

João Loureiro

Dentista de Dragões

Imagem O Domador de Dragões

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