Pela porta de vidro, Orlando notou a aproximação do anão. Bamboleando-se pela rua em linha recta, quase dava a impressão de que pretendia entrar na Dragona…

A porta envidraçada foi aberta sem cerimónias, permitindo a entrada do anão.

– Bom dia – cumprimentou, aparentemente indiferente à desconfiança de Orlando. Com a linha de visão pouco acima do tampo da mesa, retirou um punhado de papéis de debaixo do braço e empurrou-os pela secretária. O recepcionista estreitou os olhos. Pegando nos papéis, começou a folheá-los numa leitura superficial.

– Deve ter havido algum engano – murmurou. A desconfiança desvanecera-se, cedendo assento ao embaraço. – Isto são…

– Comprovativos da minha contratação – auxiliou o outro. – E a minha identificação. Diz que é para começar hoje. Também meti o meu currículo, não vão elas tecer-se.

Tinha de ser erro dos serviços administrativos. Ou aquela estagiária nova dos Recursos Humanos, ainda não chegara a gostar dela.

– Houve algum engano – declarou em voz alta. – O senhor… – Relanceou um olhar sobre os papéis. – O senhor João não cumpre os requisitos exigidos para o emprego.

João empertigou-se, o que pouco fez pela sua imagem.

– Cumpro todos os requisitos do anúncio. Vim à entrevista. Fui contactado e assinei contrato.

– Pois, mas veja, não tem altura.

(Foi de certeza a estagiária! Aquela perua mal-encarada!)

O anão olhou-o de queixo caído, como se pretendesse convencer Orlando de que nunca na vida fora tão insultado, e de que nunca na vida lhe tinham dito tal coisa. (Como se isso fosse possível, o infeliz.) João franziu o fronho.

– Nunca ouvi dizer que a altura tivesse influência. Tenho o curso, as habilitações, empregos anteriores. – O tom mordaz adoçou-se: – Um contrato assinado e um país esfomeado por escândalos e injustiças.

Orlando fixou-o.

– Um momento – pediu, antes de sair da secretária e desaparecer pela porta atrás de si. Bufando por conta do inconveniente, João dedicou o tempo de isolamento a passear os olhos pela sala. Pequena e em tons pastel, encontrava-se maioritariamente despida de adornos: a única excepção sendo feita aos quadros e às fotografias que se aninhavam pelas paredes. Homens e mulheres de etnias, feições e estaturas diversas, uns olhando para fora da sua moldura, outras ignorando-a com vigor. Nada teriam em comum, não fossem os corpanzis que em todos se faziam presentes. Caudas, dorsos, asas, focinhos, escamas… Ainda que o tamanho impedisse a sua captação total na imagem, cada parte que mostravam tornava-os reconhecíveis: dragões.

O regresso do recepcionista impediu-o de entrar em devaneios. Se desagradado se animado, Orlando não o demonstrava. João sentiu o suor a humedecer-lhe a testa. E se o descobrissem?

– Peço desculpa pelo inconveniente, senhor João. Os Recursos Humanos confirmaram estar tudo em ordem. (Cotas, ah! Quem pensa aquela megera que engana?) Por favor aguarde uns minutos.

Não havia qualquer cadeira, sofá ou banco onde se pudesse sentar. Nem sequer um caixote de lixo que pudesse virar ao contrário. Não era, claramente, uma questão que incomodasse o recepcionista, algo que João esperava dever-se mais a um conhecimento de que não teria de esperar muito, do que a uma animosidade para consigo. Não pretendia inimigos no novo emprego, já seria difícil quanto bastasse estando as coisas no ponto em que estavam.

Os minutos passaram num silêncio desagradável. Enquanto o recepcionista não fazia gala em o ignorar, João desejou ter trazido o relógio de pulso, por mais desaconselhado que fosse tê-lo consigo durante o trabalho. Poderia desestabilizar os animais, e isso não era coisa com que se brincasse.

Uma das portas à sua esquerda abriu-se, dando espaço a uma mulher musculada, de feições duras e ombros largos. Envergava um fato de fibra acrílica e prendera o cabelo castanho num pucho sobre a nuca. Desviou o olhar da prancheta que trazia das mãos, fixando-o em João.

– João Loureiro? – João assentiu. As feições da mulher suavizaram-se num sorriso. – Bem-vindo. Sou a Célia, vou acompanhá-lo neste primeiro dia.

Orlando torceu o nariz enquanto via pelo canto do olho o anão seguir Célia qual carneirinho obediente. Há cinco anos atrás, tivera de praticamente se matar para conseguir aquele emprego. Desde então, nunca conseguira sair da secretária para cargos mais respeitados por conta da sua “falta de competências”, e agora aparecia-lhe aquilo?

 – Um anão domador de dragões – resmoneou, em descrença, entre dentes. Como esperariam que dominasse as bestas, quando até os domadores mais robustos demonstravam dificuldade vez ou outra? E pior! Nem domador ele realmente era!

Um dentista!, teria gritado, não fosse ainda a decência de se saber em horário laboral. Um dentista de dragões! Fora para dar espaço àquilo que os pedidos de Orlando tinham sido continuamente indeferidos?

Que piada de mau gosto.

***

Higiene, treinos, rotinas, alimentação, fornalhas, lazer. Enquanto colega mais experiente, Célia fora de um comportamento exemplar. Ainda que levasse uns dias a adequar-se, João não se poderia queixar de desorientação: tudo lhe fora explicado, mostrado e comentado. Até à Incubadora a colega o levara, ainda que as probabilidades de João ser ali necessário roçassem o escasso.

– Estamos todos curiosos com a nova técnica que trazes contigo – declarou, quando, findo o essencial, lhe dava a conhecer a área de descanso dos domadores. – Domar um dragão pelos dentes, quem diria!

João torceu os lábios, num sorriso desconfortável.

– O truque está nos aparelhos – murmurou.

– Não há aparelho que funcione sem uma mão humana por trás.

– Hum.

Provavelmente Célia pretendera aquilo como um elogio. João, no entanto, empenhava as suas preces para que a mão humana pouco tivesse de fazer na concretização da sua teoria. Não haveria salário ou encanto por dragões que lhe valessem caso não conseguisse cumprir o que seu currículo afirmava.

As dúvidas adensaram-se quando Célia o encaminhou até ao seu primeiro “projecto”. Um dragão verde ocidental, de pequenos chifres e asas cinzentos. As garras aparadas esgravatavam o chão, num acto de descontentamento.

– A clausura aborrece-o – constatou João. Célia assentiu.

– Ainda é jovem, ganhou dentição há pouco tempo.

– Para quem se destina?

Com excepção dos que permaneciam na Dragonaria para efeitos de escolarização e reprodução, apenas dois destinos aguardavam as criaturas ali domadas: privados endinheirados, ou o Exército Nacional.

– Ainda não foi decidido – replicou Célia. – Mas qualquer destino exige um bom trabalho.

João esfregou as mãos às calças, tendo já substituído as roupas civis por um fato da mesma fibra que o de Célia. Recusando à colega a oferta de demais auxílio, observou-a enquanto se afastava, os passos firmes levando-a para longe de si, em direcção aos campos de vôo. Com um suspiro, virou-se para o desafio que o esperava. Preso a uma coluna de ferro, o dragão fixava-o de cabeça pousada no chão.

 – Oh, céus – murmurou. Se a criatura lhe parecera grande ao lado de Célia, ao seu lado era… era… Massiva! O que lhe passara pela cabeça para fingir uma experiência que não tinha? Para mentir nas habilitações e afirmar já ter comprovado uma técnica que não passava ainda de teoria?

Não havia desemprego que justificasse ter a cabeça abocanhada. E era exactamente isso o que a dissimulação daqueles olhos âmbar lhe dizia que iria acontecer.

Lagartos, não tirei eu o curso?

Mentindo nos detalhes ou não, era um recém-licenciado!

Devolveu o olhar ao dragão. Sentou-se à sua frente, pernas cruzadas, sem nunca se desviar das pupilas ambarinas. Esperou. Uma baforada de fumo escapou-se das narinas da criatura sem que João se movesse. Um burburinho antecedeu o escancarar da bocarra, levando a que o anão quase sorrisse. Malandro. Tentava expelir fogo contra ele.

– Mas és ainda demasiado novo – ralhou, o olhar ainda enfrentando o do animal. – E não tens mais o que fazer.

O dragão desviou os olhos: uma vitória. Não se atrevendo a celebrações, João levantou-se, aproximando-se da besta e pousando-lhe a mão no pescoço. Pele de cobra, suave e escorregadia. Não seria fácil prender uma sela naquele espécime.

Atenção!

Pela visão periférica, notou a mancha em movimento. Desviando-se com uma destreza pouco natural, escapou à chicotada da cauda. O dragão uivou em frustração.

Filho dum lagarto!

E julgara ele que aquela seria a parte mais fácil.

Imagem O Domador de Dragões

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