Aos poucos e poucos, a aldeia refez-se do susto. Havia alguns mortos, uns tantos feridos e cerca de uma dúzia de desaparecidos, contudo só a alma dos primeiros e dos últimos se lembraria do que realmente acontecera. De alguma forma, a memória dos acontecimentos tinha sido substituída, na mente dos sobreviventes, pela de uma terrível tempestade que devastara casas e conseguira mesmo destruir a ponte sobre o Rio Moura. Quanto ao corpo de Inês, nunca foi encontrado.

– Penso que o rio o absorveu – disse Alice, sentada sobre um tronco velho, à beira da estrada. – Ele não tomaria a vida da Aurora como tributo. Não a de uma criança inocente que se auto-sacrifica. Já sabias que tinha sido ela a matar o Santiago, não sabias?

Rouco suspirou, fazendo um leve aceno.

– Suspeitava, mas não queria acreditar. Ela parecia amá-lo tanto – murmurou.

– Amava. O povo dizia que a Aurora era cega, mas cega era a mãe. Demasiado cega para perceber o que era melhor para a filha, e o seu amor era demasiado grande para a deixar partir.

Alice olhou em frente, onde duas crianças conversavam uma com a outra: Aurora e Abel. O rapaz, poucos centímetros mais alto, tinha a cabeça baixa e ainda exibia uma nódoa negra sob o olho, fruto da pedrada do golem. Falava de forma atabalhoada, as palavras enrolando-se e sobrepondo-se. Não tinha coragem para a encarar.

A pequena desculpou-o, insegura da própria decisão, após tantos anos de maus tratos e maldades. Não sabia bem por que o fazia, quiçá por pressentir algo de bom nele, uma centelha que só precisava de uma oportunidade para brilhar. Uma centelha que fora abruptamente despertada e com a qual Abel ainda não sabia lidar. Crispou os dedos no bastão por uns segundos, e estendeu-lho a seguir, assim como ao talismã que Alice lhe oferecera, o mesmo que, soube depois, evitara que fosse possuída quando os espíritos se tinham libertado. Não precisaria deles no mundo para onde ia partir, e aprenderia a guardar recordações sem necessitar de objectos. Ele faria melhor uso deles. Protegê-lo-iam e talvez o ajudassem a crescer.

Abel piscou os olhos, perplexo com as ofertas, contudo aceitou-as, com um agradecimento quase venerável. Era claro que não fazia ideia do que fazer com elas.

Rouco sorriu ao vê-los, revelando meia-dúzia de dentes tortos.

– Pelo menos há algo de bom em tudo isto – comentou, levantando-se do tronco, com o seu corpo de troll desengonçado. – E os espíritos que escaparam ao rio?

– Alguém há-de tratar deles, não é a tua tarefa – ditou Alice. – Já não há ponte para guardar.

Ela tinha razão. Estava livre daquele dever que lhe roubara anos e anos de vida. Livre para poder viver. Deu a mão à sua donzela. As rugas tinham-lhe desaparecido do rosto. Já não parecia uma anciã, mas sim uma mulher cheia de vida. Quando regressassem a casa, perguntar-lhe-ia se aquele aspecto de idosa fora uma ilusão só para o enganar.

Aurora foi ter com eles, dando a mão a cada um. Num momento estavam lá, no seguinte tinham desaparecido.

 

– 15 anos depois –

 

Empurrou a porta com a biqueira da bota. Ela deslizou, num chiar arrastado, abrindo-se somente o suficiente para ele passar. Quando deu o primeiro passo, o soalho de madeira estalou, ameaçando ceder sob o seu peso. Não se deixaria enganar tão facilmente pelo tugúrio apodrecido. A criatura entrava e saía todas as noites para caçar. O cheiro a cadáver era um miasma que contaminava o bafio daquele sítio. Não se deu ao trabalho de fechar a porta, era sempre mais uma fracção de luz que entrava.

Avançou com cuidado, atento ao mais pequeno ruído. A mão esquerda empunhava uma pistola carregada de balas de prata. Alguns raios de sol penetravam a casa através das frestas do telhado, revelando que este atingira o zénite fazia muito pouco tempo, o que dissuadiria qualquer tipo de fuga por parte da criatura. Parou à beira de um alçapão aberto. Para lá dele, havia só escuridão. Esboçou um sorriso breve, arrumou a arma no coldre, e atirou o cigarro para o chão, esmagando-o com a bota.

– A escuridão não te vai safar – sussurrou, tirando do cinto uma pequena esfera de vidro. Aproximou-a dos lábios e segredou-lhe três palavras. Não seu interior, uma luz começou a desabrochar, branca, morna. – Foi uma amiga que me ofereceu – disse, como se estivesse lá alguém para o ouvir. – Para me iluminar com a sua recordação nas horas de maior escuridão.

Deixou a esfera cair e semicerrou os olhos, preparado para o que aí vinha. Levou a mão ao coldre.

– Chamo-lhe “aurora” – disse.

No momento em que a esfera tocou o chão, um clarão imenso encheu a cave. Um guincho de dor revibrou nas paredes e uma mancha negra moveu-se lá em baixo, rápida, e saltou na sua direcção.

Recuou e apontou-lhe a arma. Com um estampido que ressoou nas paredes de pedra, o tiro atingiu o atacante no ventre. A criatura caiu para trás, regressando à cave com um baque seco. Não tardou a que se tentasse arrastar para a sombra, porém ele não lhe deu tempo para muito. Saltou atrás da coisa, aterrando de cócoras. Não pegou na esfera. A luz desvanecia-se aos poucos, mas ainda era forte o suficiente para iluminar os restos animais que pejavam o chão. Não muito longe, reconheceu um crânio humano, pouco maior que a sua mão.

Endireitou-se e encarou a criatura. Os ossos estavam quase à superfície da pele, mas tapados pelos farrapos do que um dia tinha sido roupa; os olhos pareciam querer saltar das órbitas, em contraste com o rosto encovado. E havia neles um ódio tremendo. O fervilhar do ferimento causado pela bala era audível, revelando o quão minado já estava o corpo. O Mal já devorara tudo o que havia de humano ali.

Num movimento de desespero, o ser arremessou-lhe um pedaço parcialmente comido de qualquer coisa. Protegeu o rosto com um braço, num momento fugaz, durante o qual a criatura se tentou escapulir por um buraco escavado na terra.

No entanto, não foi longe. Um segundo tiro atingiu-a numa coxa, e o ruído gorgolejado que libertou lembrou-lhe o de alguém a afogar-se. Arrepiou-se com a onda de recordações que veio à tona. Determinado, avançou para o ser e pousou-lhe no peito o bastão que trazia sempre consigo.

– Já fizeste mal suficiente neste mundo – disse, observando aquele resto de ser humano. – Vai para não mais voltares, demónio.

A mão escorregou ao longo do bastão, os dedos seguindo um trilho irregular, de figura em figura gravada na madeira. Os lábios moveram-se, sem permitir que qualquer som se escapasse. O pequeno esquilo animou-se, o gato de orelhas arrebitadas saltou da madeira numa mancha prateada, o lobo precipitou-se para a presa, em conjunto com as restantes imagens que se libertaram do repouso e rodearam o corpo ali caído. Não houve gritos nem tentativas de fuga. A magia consumiu-lhe a alma que, por um instante, ainda se tentou apossar dele. Porém o talismã que trazia ao peito repeliu-o.

Sem uma alma que lhe unisse as partículas, o corpo desfez-se em pó.

– Já fizeste tudo o que tinhas a fazer aí em baixo, Abel?

Ele levantou o olhar para o alçapão, donde espreitava uma pedra. Provavelmente ninguém acreditaria que uma pedra era capaz de espreitar, mas aquela fazia-o.

– Menos um peso na minha consciência – disse, guardando a arma e tirando outro cigarro do interior de uma bolsa. Prendeu-o entre os lábios.

– Chama-lhe consciência… queres é livrar-te deles todos p’ra poderes cumprir a tua promessa e ir ter com ela. Ai, a minha donzela! – A última parte fora dita numa tentativa de voz afeminada, o que vindo de um calhau era algo muito estranho, e claro, muito pouco feminino.

Abel riu-se e baixou-se, apanhando a esfera cuja luz era agora só um ponto no centro.

– É… Aurora – sorriu para si.

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