– Aurora! Merda… Aurora!

Rouco tentou entrar dentro do turbilhão, arrancá-la de lá. No entanto foi repelido por um braço de água que o arremessou para a margem. Não podia desistir tão facilmente. Prometera protegê-la, prometera cuidar dela, prometera levá-la a casa… Ergueu-se e voltou a correr, mas foi detido a meio caminho por dois braços de pedra que o agarraram com uma força tremenda, erguendo-o do chão. Uma a uma, as pedras que Aurora reunira em seu redor tinham-se unido com outras, formando um corpo rochoso, alto, esguio, ainda assim com um poder pétreo capaz de enfrentar a fúria da Natureza.

– Temos de sair daqui! Ele vai ocupar tod’o leito d’inundação. Tu e o rapaz ainda vã fazer companhia ós escamosos. – As palavras trituradas arranharam os ouvidos do troll, tão altas foram proferidas para se sobreporem ao rugido do rio. – Nã podes fazer nada!

As águas agitavam-se, formando ondas gigantescas que espumavam, enfurecidas. O corpo de Alli foi tragado por uma delas, que de caminho tentou arrastar consigo o enorme golem, puxando-lhe as pernas feitas de blocos de rocha. Ele vacilou mas não cedeu, recuando sem nunca largar Rouco. O rapazito já tinha trepado as margens e esperava por eles lá em cima, os olhos esbugalhados fixos na coluna de água dentro da qual Aurora estava presa, o rosto contorcido numa expressão de impotência e medo. Mas não fugia, não se escondia, não se encolhia. Como se quisesse absorver tudo aquilo para nunca mais esquecer.

Chegado lá a cima, o golem pousou o amigo no chão.

– Fic’aqui. – Era uma ordem. – Eu vô ajudar, pedra por pedra.

Voltou-lhe as costas, formadas por uma enorme laje negra, que deveria ter estado escondida sob o rio ou arredores, demasiado pesada para se mover por si só, e avançou num passo lento em direcção à ponte. Os pés, se é que se lhes podia chamar isso, arrastavam-se na calçada, arrancando-lhe pedaços que se juntavam ao restante corpo, atraídos pela sua essência, dando-lhe uma forma cada vez mais humanóide e gigantesca.

Mal pisou a ponte, o corpo curvou-se com mil e um ruídos de pedras a rangerem e quebrarem. Levou os dedos, feitos de seixos articulados, à superfície da ponte e cravou-os, arrancando-lhe um pedaço enorme, que foi prontamente engolido pelo rio, instantes depois do arremesso. A ponte começou a ceder, não tanto pelo esforço do golem que continuava a sua tarefa, lenta mas perseverantemente, mas pelo ataque que o rio exerceu sobre os três arcos, devastando-os com a sua força.

Rouco observava tudo, quando um grito súbito lhe desviou o olhar para a outra margem do rio. Uma mulher corria naquela direcção, tão depressa que quase juraria ser impossível. Tinha a roupa descomposta e o cabelo tão desalinhado que parecia ter sido repuxado num ataque de nervos. O olhar de ódio que lhe lançou, mesmo àquela distância, fê-lo estremecer. Inês escorregou pelo declive, sendo recebida por uma vaga de água que a atingiu no peito. Resvalou para trás e ficou submersa por um momento, antes de se erguer com uma vontade férrea, louca, a brilhar-lhe no olhar.

Rouco ultrapassou o choque que o mantivera estático e deu um passo em frente, para a deter, porém foi ele quem foi detido por uma mão quente que agarrou a sua, prendendo-o sem recorrer ao uso da força.

– Não, Rouco. É assim que deve ser.

Não teve coragem de olhar para trás e perguntar porquê. A impotência apertava-lhe cada vez mais o peito.

– Devolve-me a minha filha! – gritou Inês para o rio. – Devolve-a, Santiago! Não vou permitir que a tentes levar outra vez! Nunca mais!

Avançou rio adentro, tentando chegar à coluna de água onde Aurora flutuava, inconsciente, mas de rosto sereno, como se dormisse. Esticou o braço tanto quanto podia. Os dedos mergulharam na massa de água, tocaram o rosto da filha… e os seus olhos abriram-se. Fitou a mãe, como se a visse pela primeira vez.

– Aurora…

As restantes palavras foram engolidas, quando a água da coluna escorregou através do braço dela, como uma serpente. Rodeou-lhe o corpo, com o seu poder constritor, antes de a tomar por completo. A água que prendia a criança escoou-se, deixando uma zona seca forrada de detritos, no lugar onde ela caiu. A nova coluna formou-se em redor de Inês. A mulher esperneou, esbracejou, levou ambas as mãos à garganta, implorou por ar, deixando escapar a réstia que tinha nos pulmões.

Do seu ponto de observação, Rouco conseguiu ler a maldição que ela lançou ao falecido marido e o número de vezes que chamou pela filha, até o corpo deixar de lutar por uma fuga que não existia.

Com um estrondo grotesco que abalou o chão, maior parte da estrutura da ponte colapsou numa torrente de pedras, levando consigo o golem. Os detritos precipitaram-se sobre as duas com o peso de toneladas, soterrando mãe e filha.

A pouco e pouco, o rio começou a serenar. A torrente transformou-se num curso de água que rodeava e saltava por cima das pedras soltas, quase de forma brincalhona, regressado ao seu modo pacífico e cantante. Só os escombros falavam, sem palavras, do que acabara de acontecer.

Por fim, Alice largou-lhe a mão. Rouco precipitou-se de imediato para o leito, afastando pedras com um rosnar de esforço. Os corpos tinham que estar algures. Sabia como os iria encontrar, mas recusava-se a aceitá-lo. Puxou uma pedra mais pesada que se recusou a mover. Puxou com mais força, cerrando os dentes e fechando os olhos.

– Iss’é o mê rabo, oh!

Rouco largou de súbito a pedra e quase tropeçou na que estava atrás de si. Piscou os olhos.

– Nã te ponhas com cara d’idiota! As pedras do outro lado vã cair s’eu me mexer, tira essas – pediu o triturar de pedras que era a voz do amigo.

Apressou-se a obedecer, rodeando a massa de rochas que poderia ser o golem. Removeu as pedras, atento às exclamações que lhe diziam que estava a tentar arrancar um bocado de braço ou a cabeça. Por fim, as pedras mexeram-se por si só, desenrolando-se num movimento lento, e revelando uma concavidade sobre a qual a criatura estivera enrolada. Lá dentro, muito encolhida, estava uma menina pequena, ilesa. Ao seu lado repousava o bastão que o pai lhe oferecera.

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