Nas semanas seguintes, apesar das nossas divergências, eu e o meu humano aprendemos a trabalhar em conjunto, contornando bezerros no picadeiro. Na televisão, a tourada sempre me tinha parecido assustadora, mas ali não havia sangue nem sofrimento. Talvez eu tivesse estado enganado durante estes anos.

No entanto, apesar de saber montar, não eram raras as vezes em que me ferrava a barriga com as esporas até criar feridas ou me dava chibatadas com força até me marcar o pêlo. Comecei a fazer tudo o que ele me mandava por medo de levar mais pancada. Fazia parte, não? Afinal, se não fossem necessários, não teriam sido criados como equipamento essencial para os estábulos.

Apesar de obedecer cegamente ao meu humano, tentando confiar em tudo o que ele me ordenava, comecei a ter medo da sua presença. Parecia que, mesmo quando fazia tudo bem, ele me batia. Mas todos me diziam que fazia parte do que ele tinha para me ensinar. E eu acreditava nisso, pois sabia que só com esforço e dor me tornaria um campão.

Uma noite, quando já me preparava para dormir, ele apareceu no estábulo. Ao contrário dos humanos dos meus irmãos, este não me trazia nenhuma sensação de calma. Pelo contrário, ficava extremamente nervoso. Quando não me batia, ofendia-me e chamava-me inútil. E eu não tinha coragem de retaliar, porque sabia que só com ele poderia triunfar numa arena.

– Recebi um convite para amanhã entrarmos numa corrida de touros. Entramos?

– Não vejo porque não! – Repliquei.

– Óptimo.

E afastou-se, sem dizer mais nada. Resfoleguei, tentando ignorar as suas atitudes e concentrar-me na glória que estava ao meu alcance, à distância de uma corrida.

 

Mirei-me num espelho antes de entrar na corrida. O meu humano trajava um fato brilhante e colorido, e as minhas longas crinas tinham sido entrançadas. Sentia-me elegante. Era agora que ia orgulhar a minha linhagem!

Ao entrar na arena, fui imediatamente ofuscado pelas luzes que piscavam, pela música e pelas ovações das pessoas. O meu humano pediu-me, talvez com demasiada insistência nas esporas, para que galopasse em redor do campo. Mais uma vez, confiei cegamente nele. Talvez tenha sido esse o meu erro.

Assim que o touro entrou na arena, tive um ataque de pânico. Aquela criatura negra monstruosa, tão desorientada como eu, não se comparava aos bezerros com que lidávamos em casa. Não queria confrontar aquela criatura, ia morrer na arena.

O meu humano voltou a insistir, magoando-me a boca com os seus puxões e a barriga com a força das suas pernas. Galopei cegamente na direcção do touro, tentando que ele percebesse que não lhe ia fazer mal. Mas o meu humano não pensava assim. Sem eu perceber como, tinha agarrado numa farpa e espetou-a no lombo do touro, fazendo-o sangrar. Aquilo era demasiado cruel, lembrava-me agora por que razão sempre tinha querido ser um cavalo de ensino e não de toureio. Fiquei parado no meio da arena enquanto o touro corria em círculos atrás de outros humanos com panejamentos vermelhos.

– Mexe-te inútil! – Gritou o meu humano, ferrando as esporas com mais força. – Galopa, mexe-te, faz alguma coisa.

Não queria alcançar a glória à conta do sofrimento dos outros animais. E muito menos queria alcançá-la a sofrer às mãos de um humano que me pertencia. Já era demais. Empinei-me e escoicei-me, como se fizesse parte de um rodeo, até o meu humano finalmente cair no chão. A plateia, composta por humanos nas cadeiras acima e cavalos de toureio nas baias por baixo, lançou exclamações de espanto, de terror, de medo. Os outros humanos da arena afastaram o touro para o interior, enquanto outros corriam a socorrer o meu humano.

Mas a minha raiva falava mais forte. Com uma força e uma atitude que não me pertenciam, saltei para cima do meu dono, batendo-lhe como ele me tinha batido desde que o tinha adquirido, gritando e pedindo explicações para a razão por que ele me tinha tratado assim. A violência era tanta que até os outros humanos tinham medo de se aproximar da cena.

Observei o corpo do meu humano coberto de sangue, arquejando por ar. Ao acalmar-me, comecei também a sentir-me mal, fraco, triste. Tinha-me tornado pior do que ele.

– Por que me obrigaste a fazer-te isto? – Perguntei, sem esperar uma resposta.

– Porque achei que poderíamos ser campeões. – Disse ele, enquanto cuspia sangue.

Dois humanos vestidos de batas brancas aproximaram-se do meu humano.

– O que quer que lhe façamos? O humano é seu! – Exclamou um deles. – A decisão é sua.

Vendo o meu humano, que eu aprendera a odiar, deitado no chão a cuspir sangue, ainda pensei em perdoá-lo e pedir que o curassem. Mas algo dentro de mim falava mais alto. Raiva. Um desejo de vingança. E, ao mesmo tempo, o acto que me iria imortalizar na história, mesmo que pelas piores razões.

– Abatam-no. Hoje já tenho jantar.

imagem para o conto

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