– Rouco, Rouco! – disse de súbito uma pedra, começando a dar pequenos saltos sem sair do lugar.

Aurora voltou a cabeça e arqueou as sobrancelhas ao detectar a aura do troll a aproximar-se cada vez mais. Escutou-lhe também os pés a derraparem, mas o ruído parecia distante da fonte, como se a fracção anímica dele fosse mais célere que o corpo e o tivesse ultrapassado.

Quando a aura já estava quase em cima de si e os passos demasiado perto, dois braços envolveram-na num abraço apertado.

– Estás b… – A frase ficou a meio. O alívio que a aura expressava fundiu-se com choque e lamento. Aurora premiu os lábios, sabendo para onde ele estava a olhar. – O que aconteceu?

A pequena abriu a boca para falar, quando ele apartou os braços, contudo foi Abel quem respondeu.

– Feri a cadela, obriguei a Aurora a olhar para a ponte e depois ainda a tentei afogar. – A voz tremia-lhe.

– Ele tinha uma aura má. Ela fugiu depois disso – esclareceu Aurora. – E sabe o que és.

– E estes novos amigos? – Lançou uma mirada curiosa às pedras.

– Eles vieram da floresta e do rio, para me ajudar – respondeu. – Ajudar-me a prendê-los.

– Isso não é assim tão fácil. Nenhum de nós conseguiria ter mão neles – notou.

– Então… – Fez uma pausa. – Destruímo-los.

Aurora arrepiou-se com as suas próprias palavras, enquanto o silêncio tomava conta do grupo. A pequena observou aura a aura, mas nenhuma parecia disposta a dar uma resposta. Sem ser uma presença negligenciada, apesar de ter sido a primeira a chegar, e a causa da construção da ponte.

– Rouco, o rio pode fazê-lo – disse Aurora. – Ele tem poder para isso, não tem?

O troll hesitou.

– A cachopa tem razão. Por’alguma razão as pontes sã escolhidas com’um dos locais d’aprisionamento – notou uma das pedras. – A água corrente tem um grande poder sobr’eles. E olh’ó céu! Negro como o fumo do Outro Mundo. A uma palavra, tod’ele cairá, caramba!

– Disseste que o rio ajudaria se lhe pedíssemos – notou Aurora. – Podemos pedir-lhe, todos nós.

Mais hesitação, como se ele próprio não acreditasse no que dissera. Aurora inspirou fundo.

– As almas nunca serão destruídas enquanto a ponte estiver de pé. A ligação que existe entre elas prevalecerá sob qualquer força.

– E… e se destruirmos também a ponte? – Abel remexeu-se no lugar. – Parece difícil, mas talvez com alguma magia…

– É demasiado arriscado – notou Rouco. – Se a ponte colapsar, sem que consigamos destruí-los, eles espalhar-se-ão como uma praga.

– Temos mais hipóteses, Rouco? – rosnou uma das pedras maiores. – Se ficarmos à espera dos aprisionadores, é melhor rebolarmos de reino. Até lá, os próprios espíritos destroem este monte de pedra podre.

Rouco ponderou, desviando a atenção para os próprios pensamentos. Mesmo sendo do tamanho que era, Aurora tinha consciência de que aquele plano estava cheio de buracos. Talvez ele conseguisse remendar quase todos.

O troll inspirou fundo, como que ganhando coragem.

– Então faremos assim: invocarei a chuva, tanta quanto for possível. Isso fá-los-á recuar – disse. – E depois… depois rezamos.

 

Rouco improvisou uma espécie de suporte feito de paus unidos com tiras da própria camisa. Sobre ele reuniu três pequenos xistos triangulares, uma madeixa de cabelo disposta de modo a formar um círculo, e, no seu centro, um cadinho onde se caísse mais uma gota de água, todo o interior se derramaria. Um relâmpago súbito iluminou os céus, a luz tornando-lhes os rostos ainda mais lívidos. Desta vez não houve palavras. Um assobio melodioso e estranhamente profundo fluiu no ar, rodeando-os num toque corpóreo, como se tivesse dedos. A própria melodia parecia conter palavras enroladas sobre si, com um poder tão latente que lhes arrepiava o corpo. Foram-se afastando, subindo cada vez mais em direcção às nuvens. Rouco parou de assobiar, contudo o som pairou, lá nos altos, em sonância com os trovões. As nuvens lembravam terríveis fortalezas prontas a largar uma multidão de flechas de água. A primeira caiu dentro do cadinho. A água lá contida escorreu pelos bordos, mais do que aquela que o pequeno objecto conseguia conter, inundando o suporte, varrendo os xistos, como um dilúvio.

Depois daquele aviso, a chuva precipitou-se em avalanche sobre a Vila de Avô, apanhando todos os desprevenidos.

 

Aurora viu-as chegar, uma a uma, auras negras, expulsas dos corpos. Escutou também coisas a arrastarem-se, soltando lamúrias e gemidos, talvez provindos de espíritos que tentavam levar consigo os corpos pelos quais há tanto esperavam. Os espíritos esconderam-se no interior da ponte, escudados da chuva.

– Quantos? – perguntou umas das pedras.

– Muitos… – disse Rouco. – Não os conto bem, mas a ponte está a ficar carregada da sua energia. E as nuvens vazias. Está na hora de o rio nos ajudar.

Ele moveu-se, os pés chapinhando enquanto entrava nas águas pouco profundas. Aurora escutou as palavras que proferiu, sem as compreender. Uma língua antiga que tocava as almas distantes. Contudo, nada aconteceu. O troll repetiu, num sussurro ainda mais baixo, quase encoberto pela corrente que se tornara mais violenta, devido à chuva, e tentava transbordar do leito.

Não houve nada. Nenhum reconhecimento, nenhum tremeluzir de uma aura aparente que as águas pudessem esconder entre as suas partículas. A chuva torrencial transformou-se num aguaceiro que os ameaçava. Viu como as almas mais ousadas começaram a escorregar pelos arcos da ponte, ainda sob a sua protecção, tal como imaginava que um verme faria.

Rouco inspirou fundo. Continuou dentro de água, imóvel. A pouco e pouco, a esperança abandonava-o, a aura mirrava para se fechar sobre si. Não o poderia permitir.

– Eu falo com o rio – disse a pequena, avançando para as águas.

Elas tentaram empurrá-la, levá-la consigo, mas Aurora resistiu. A sua força elementar era assustadora e ao mesmo tempo maravilhosa, com uma vida incrível. Se pudesse usar um pouco desse poder…

Rouco afastou-se, deixando-a tomar conta da situação. Se acreditava nas suas capacidades, não estava certa, mas por falta de alternativas, deixá-la-ia tentar.

– Rio Moura, água selvagem, senhor e senhora, volúvel – lembrou-se de uma palavra que ouvira o padre dizer um dia – que dá vida, ajuda-nos. Sempre estiveste aqui, a guardar-nos, a dar de ti o que precisamos. Mas hoje precisamos de mais, porque um mal terrível libertou-se, algo que não conseguimos conter, mas tu consegues, és uma força divina, um braço com o poder de mil. Ajuda-nos!

Nunca se imaginara capaz de falar assim. Porém, nada aconteceu. Não houve qualquer aura a despertar, nenhum sinal. Aurora engoliu em seco. Talvez ele quisesse mais, depois de tanto que já lhe tinham tirado.

– Em honra do teu auxílio, ofereço-te… – Engoliu em seco. – Ofereço-te a minha própria alma.

De súbito a água parou de correr. A criança conteve a respiração, ao ver o que vinha à tona, provindo das profundezas do leito, muito além das pedras que cobriam o fundo. Uma aura gigantesca, disforme, de um tamanho magnetismo que a sua própria alma queria libertar-se do corpo. Flutuou, por segundos, como se a superfície da água fosse um impedimento à sua libertação. Porém não era. Ainda escutou Rouco gritar o seu nome, quando um turbilhão de água se precipitou sobre si, rodeando-a, tomando-a. Não entrou em pânico, não tentou fugir. Simplesmente fechou os olhos. A oferta fora feita.

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