É uma verdade universalmente reconhecida que um cavalo, em posse de um bom porte, necessita de um cavaleiro.

Nasci há precisamente quatro anos, na Real Coudelaria de Portugal. A minha linhagem provêm de uma família de raça Puro-Sangue Lusitano, todos campeões internacionais pontuados. Sempre fui elogiado pelos meus criadores como sendo um belo animal, com um bom porte, que prometia grandes vitórias no futuro.

Mas, para o conseguir, necessitava de um cavaleiro. Se escolhesse o certo, poderia tornar-me um cavalo de competição, ser um campeão e orgulhar os meus antepassados.

 

Com Novembro, chegava a Feira da Golegã. Era lá que ia escolher um cavaleiro que me iria acompanhar durante a vida. E, talvez, encontrar alguém que me levasse aos Jogos Olímpicos, que os meus criadores seguiam religiosamente de quatro em quatro anos.

A viagem foi longa, mas eu estava demasiado ansioso. Já tinha ouvido vários relatos da Feira, mas era a primeira vez que saía da coudelaria. Fui separado da minha mãe quando ainda nem um ano tinha, portanto não tinha família para sentir saudades.

Assim que saí do atrelado, conduzido pela mão de um humano, notei de imediato a confusão à minha volta. Humanos e cavalos amontoavam-se nos espaços, competindo entre si, fosse em competições desportivas regulares, e, no caso dos humanos, quantas cervejas conseguiriam beber num curto espaço de tempo.

Sabia para onde tinha de me dirigir, não precisava de um humano para me conduzir. Via perfeitamente um cercado com várias pessoas alinhadas em fila. Sentia-me extasiado com aquele ambiente!

Os humanos eram todos jovens, muitos deles ainda na adolescência. Observei com cuidado cada um, tentando perceber o temperamento. Tinha de escolher muito bem o cavaleiro que me iria acompanhar até ao fim da minha vida profissional. Avancei até parar diante de um humano do sexo masculino, alto e bem constituído.

– Lusitano de gema! – Disse o cavalo que se encontrava ao seu lado. – Nascido e criado em Portugal, mostra aptidões para o ensino e para o toureio.

Gostava bastante de ensino, mas o toureio assustava-me bastante.

– Idade? Tamanho? Preço?

– Tem quinze anos e bom temperamento. Cerca de metro e setenta até à cabeça, vendo-o por duzentos e cinquenta ecqus.

Era um preço apetecível, e as características pareciam-me boas. Mas poderia eu decidir-me pelo primeiro cavaleiro que me aparecia à frente? Decidi não dedicar muito tempo a pensar sobre este assunto e adquiri o humano.

Ainda nesse dia, levei-o para casa comigo. Ele poderia dormir na casa com os meus criadores. Com o tempo, começaríamos a entender-nos e a poder falar, embora eu compreendesse relativamente bem a língua deles. Depois de verificar que os criadores deixavam a minha nova aquisição bem instalada, fui dormir, aguardando o dia seguinte com ansiedade.

 

Ter um humano a colocar-me uma sela no dorso e um bridão na boca não era uma sensação estranha. Ele ainda não tinha trocado uma palavra comigo, mas sabia que tinha de dar tempo. Provavelmente estava assustado por se encontrar num ambiente tão diferente daquele em que tinha sido criado.

As minhas expectativas para o meu cavaleiro eram altas, mas rapidamente percebi que elas nunca iriam passar disso. Ele mal parecia saber equilibrar-se no meu dorso, inclinando-se demasiado a cada movimento que eu fazia. Puxava demasiado as rédeas, magoando-me a boca com o bridão, e não conseguia explicar-me que direcção queria que eu tomasse. E eu precisava de alguém que me conduzisse, era assim que tinha sido ensinado. Não podia fazer nada sozinho!

As esporas dele furaram-se na minha barriga, magoando-me. Por instinto, respondi com um coice, atirando-o para o chão. Levantou-se, parecendo ofendido, e não me voltou a montar, deixando-me com todos aqueles aparelhos no meu corpo.

– Se o teu humano continuar com esta atitude, vais ter de te livrar dele! – Comentou um dos meus irmãos mais velhos, que espreitava pela cerca.

– Ainda é o primeiro dia dele aqui.

– Mas já devia vir ensinado. Sabes o que acontece aos humanos que não têm utilidade?

– Vão para o abate. Mas isso não vai acontecer. Ainda seremos campeões!

O meu irmão fez um ar céptico, o que eu compreendi. Começava a acreditar que nunca conseguiria ter resultados com aquele humano.

 

Os dias seguintes revelaram a sua inutilidade. Não parecia saber o que fazer no topo de uma sela, e por mais que eu tentasse comunicar com ele para o ensinar, ele não reagia.

Ao fim de uma semana, quando começava a perder a paciência, entrou por acidente um bezerro no picadeiro. Era uma situação recorrente naquele local, o que me espantou foi a reacção do meu cavaleiro. Rapidamente me agarrou as rédeas, como se fizesse aquilo desde que tinha nascido, e incentivou-me na direcção do bezerro, berrando. Ao chegarmos perto dele, fez-me contorná-lo e inclinou-se ligeiramente na direcção do animal. Desconfiava sobre o que ele estava a fazer, mas não quis acreditar. Queria confrontar o meu humano que tinha estado durante uma semana a fingir que não sabia montar e que eu tinha considerado mandar para o abate por inutilidade.

– Então sabes montar? – Gritei, mesmo sabendo que ele não me conseguia entender.

Ele desmontou com elegância, colocando-se diante de mim.

– Antes que digas algo, é óbvio que te compreendo. Sempre te compreendi porque cresci com cavalos como tu, arrogantes de boa linhagem que se acham superiores.

Fiquei demasiado chocado para reagir. Ele pertencia-me. Como se atrevia a falar comigo naqueles modos?

– Já percebi que és um cavaleiro de toureio. Se trabalharmos em conjunto, poderemos ser conhecidos a nível internacional.

– Não tenho outra escolha senão trabalhar contigo, pois não?

Já estava arrependido de o ter comprado. Mas agora não havia volta a dar. Não havia razão para o mandar para o abate, visto que sabia montar. Talvez conseguisse vendê-lo mais tarde.

imagem para o conto

Anúncios