Procuraram-na durante a tarde inteira: Aurora não estava em lado nenhum. Quando o sol, encoberto pelas nuvens, deveria estar a desaparecer no horizonte, regressaram. Contudo a esperança de a encontrar em casa desvaneceu-se – ela estava tão vazia como quando a deixaram, sem um único vestígio da menina. E o céu ameaçava-os.

– Vou continuar a procurá-la – disse Rouco.

Contemplou o castelo que se erguia acima deles, e depois olhou para o lado contrário, rua abaixo. Semicerrou as pálpebras, aguçando a visão. Havia qualquer coisa a meio caminho, uma bruma acinzentada, pouco perceptível ao olhar humano. Da massa principal esgueiravam-se corpos serpenteantes que se infiltravam nas ruelas.

– Uma armadilha – sussurrou, percebendo agora o que acontecera. – Já sei onde está a Aurora.

– Onde? Vamos buscá-la, agora! – Inês ter-se-ia precipitado para lá se soubesse qual o lugar ao certo.

– Não.

Ela mirou-o, chocada.

– O quê?

– Aconteceu algo terrível. Entre em casa e não se atreva a sair. – Mirou-a, sério. – Esta casa protegê-la-á. O seu marido fez por isso.

– Não! Tenho de encontrar a minha filha! Ela está sozinha, precisa de mim!

Rouco agarrou-a pelos ombros e abanou-a um pouco, obrigando-a a encará-lo.

– Neste momento, cem espíritos malignos correm as ruas em busca de corpos para possuírem. Encontrá-la-iam antes que conseguisse encontrar a Aurora. E se, depois disso, por acaso desse de caras com a sua filha, seria muito provável que lhe torcesse o pescoço. Por isso, fique em casa e não permita que ninguém entre. Se eu trouxer a Aurora, olhe sempre à janela para ter a certeza de quem é.

– Se? – O pânico brilhou-lhe no olhar.

O troll inspirou fundo. Não tinha tempo para aquilo.

– Espere aqui. Darei o meu melhor para a salvar. Trate de acreditar que ela voltará – declarou, antes de a largar.

Inês comprimiu os lábios, de olhos cheios de lágrimas, mas acabou por acenar.

Quando a porta se trancou atrás de si, Rouco correu na direcção da ponte. Não lhe diria que fora Aurora a causa da libertação dos espíritos, nem que, para isso, ela teria de estar demasiado perto da fonte deles.

Uma vaga de bruma passou por si, ignorando-o. Tinha demasiadas protecções para se tornar apetecível como objecto de possessão. Olhou para trás, contando-as à medida que entravam através de uma porta. Três espíritos, com as piores das intenções. Poucos instantes depois, um misto de gritos, risadas e choros encheu a casa, uma sinfonia de terror e loucura, completando-se com objectos a serem derrubados e escaqueirados. Era inumano. Naquele lugar não tinha quase recursos para os impedir de tomar Avô. E quando a Congregação de Aprisionamento chegasse, seria demasiado tarde para aquela gente.

Mais gritos, vindos na sua direcção. Um espectro de fogo passou por si, largando labaredas e calor, enquanto embatia nas paredes, tentando extinguir as chamas. Percebeu que era uma mulher, pelos restos do vestido que se desfazia em cinza. Olhou em volta, procurando um barril de água, qualquer coisa, até a ouvir rir, qual louca, por entre o fogo que a consumia. Tentou ignorar o que acontecia, mas foi incapaz.

Em simultâneo, os gritos de uma cria humana chegaram até si, vindos de uma quelha transversal formada entre duas casas. Correu através dela, os ombros raspando nas pedras ásperas, e desembocou num pátio sem saída. Prostrada no chão, uma menina tentava encolher-se e proteger-se de um homem e uma mulher. De mãos ávidas, eles rasgavam-lhe as roupas, regozijando-se com o medo criado.

– Pára, mãe! – gemeu, por entre o choro. Os dois adultos riram-se, ignorando por completo a nova presença.

Rouco precipitou-se para eles. Levou-lhes as mãos aos cabelos sujos e empurrou um para cada lado, afastando-os da criança. Os possessos guincharam e voltaram-se para o atacar, contudo mal olharam para ele detiveram-se. Era impossível não o reconhecerem por aquilo que era.

– Isto não fica assim. – Rouco lançou-lhes a ameaça, enquanto pegava ao colo a menina encolhida. Ela soltou um guincho de terror ao sentir o toque. Mas à falta de outra agressão, talvez tenha percebido que aquele homem a fora salvar.

Rouco recuou, mantendo os dois debaixo de olho. Quando se viu de novo na rua principal, pensou depressa num lugar onde deixar a pequena. Após uma hesitação, concluiu que provavelmente “aquele” seria o mais seguro. Mas levá-lo-ia a um desvio da sua rota.

Precipitou-se pelos atalhos mais apertados, fechando os olhos a muito do que via, até desembocar no adro amplo da pequena igreja da vila. Ambas as portas estavam abertas. Não conseguiu perceber se seria bom ou mau. Se aquele local sagrado estivesse corrompido, as suas esperanças teriam sido vãs. Parou diante do primeiro degrau e observou o interior pouco iluminado. Ao longe, no altar, duas velas tremiam tanto como a criança que amparava. Uma sombra vaga formou-se sob a parca luz, avançando de um dos lados da Igreja, e parou a um metro da porta. O sacerdote, de estatura baixa e olhos encovados, benzeu-se com a mão direita, enquanto na esquerda segurava um turíbulo fumegante.

– Esta criança foi atacada – disse Rouco. – Trouxe-a para que possa ficar segura, aqui.

O homem examinou-os por um momento.

– Ela que atravesse sozinha a fronteira. Só assim saberemos se o seu corpo e alma poderão ser acolhidos na casa do Senhor.

– Ali dentro estarás em segurança – murmurou o troll para a menina. Acocorou-se e pousou-a no chão, sempre com gestos delicados. – Coragem, ninguém te magoará.

De olhos vermelhos pejados de um medo profundo, a criança fitou o troll, e depois o reverendo. Abanou a cabeça, não querendo entrar. Ele suspirou e tomou uma decisão que resolveria o problema. A máscara humana que lhe escondia as verdadeiras feições desapareceu.

Um grito estrangulado brotou dos lábios da pequena que se afastou de repelão, correndo para o interior da igreja. O próprio padre arregalou os olhos e recuou, não se lembrando sequer da protecção que aquele lugar sagrado conferia contra seres de essência diferente da puramente humana.

Rouco endireitou-se. Fizera o que se comprometera a fazer. A criança estava a salvo, por ora. Deu meia volta e correu em direcção ao seu principal objectivo.

À medida que se aproximava mais da origem dos espíritos, maior era o caos que pejava as ruas. As chamas consumiam mais do que uma casa, os animais que outrora tinham estado presos numa capoeira ou estábulo andavam soltos. De relance assistiu a um bando de galinhas a debicar um corpo.

Em contraste, a ponte em si estava deserta. Não lhe admirava que eles desejassem estar longe daquele lugar ao qual ainda estavam ligados como que por um cordão umbilical. Enquanto esse elo existisse, a sua área de devastação estaria circunscrita a poucos quilómetros.

Rouco abeirou-se da margem, com medo do que poderia encontrar. Ergueu as sobrancelhas. Duas crianças estavam sentadas, uma diante da outra. Em redor delas formava-se um círculo de pedras, umas tão pequenas que os olhos humanos seriam incapazes de as discernir àquela distância, outras de um tamanho enorme. Aurora olhava de um lado para o outro, escutando-as com atenção. O outro rapaz, claramente assustado, apertava as mãos uma na outra. Contudo estava atento ao que diziam, e havia uma estranha tenacidade no seu olhar, tão estranha quanto a sua permanência voluntária sob a ponte. Um fio de sangue marcava-lhe o rosto, do olho até ao maxilar.

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