Abel, ou a criatura que se apoderara dele, regressou um pouco antes do pôr-do-sol. Aurora não as via, mas sabia que no céu se acumulara um sem número de nuvens cinzentas, impedindo o sol de tocar a terra. Era um presságio dos maus.

Seguiu-o. Ele parecia ter mais pressa do que de manhã. Ainda assim não lhe tocou, até entrarem na vila e se aproximarem da ponte.

– Consegues descer sozinha? A tua cadela está lá em baixo – acrescentou, como incentivo.

Aurora avançou para o declive sem lhe responder. Não queria que aquela aura a contaminasse com peçonha do Outro Mundo, com a sua influência negra. Apesar do bastão ir sempre à frente, derrapou uma vez e oscilou perigosamente, mas conseguiu equilibrar-se. O cheiro de Alli estava de facto ali em baixo, um odor real do seu corpo. Quando atingiu terra mais ou menos plana, teve de se controlar para não arrancar logo a venda.

– Onde está? – exigiu saber. Não havia qualquer outro movimento óbvio, para além do deles e do Rio Moura. Deu um passo incerto. – Onde?

– Toma!

Foi atingida no peito por uma coisa pesada que quase a derrubou. Meio atarantada, deixou cair o bastão e envolveu-a nos braços, agarrando-a o melhor que pôde. Era um saco áspero. Lá dentro batia um coração e sentia-se a respiração, ambos fracos.

– Oh Alli… – sussurrou, apressando-se a desapertar os cordéis, com dedos nervosos. Tocou-lhe no pêlo mal pôde. Estava frio. Há quanto tempo estaria inconsciente?

Nos primeiros momentos Aurora estava demasiado preocupada para se dar conta, mas depois percebeu que faltava alguma coisa.

– O Rouco? – perguntou de súbito.

– Não volta tão cedo – garantiu. Uma mão agarrou-lhe o cabelo com força e puxou-lhe a cabeça para trás. – Mas tu, em agradecimento, podes fazer-me um grande favor.

Arrancou-lhe a venda da cabeça, levando atrás meia dúzia de fios de cabelo. Aurora abanou a cabeça, ignorando a dor.

– Olha, fedelha. Olha para todos eles! Se não abrires os olhos, corto-te as pálpebras – ameaçou, exercendo mais força, de tal forma que as costas dela começaram a vergar-se. – E mato a tua cadela, e a cabra da tua mãe!

Um soluço de frustração fugiu-lhe por entre os dentes cerrados. Que hipóteses tinha?

– Deixa-me pousar a Alli – pediu. – Eu não fujo.

– Não conseguirias.

Largou-a com um impulso para a frente. Aurora inspirou fundo e ajoelhou-se, pousando a amiga com todo o cuidado. Abriu os olhos. A sua aura estava tão ténue… como se parte dela não estivesse mais ali.

– É para hoje?

Engoliu em seco e passou uma mão pelo rosto. Coragem, disse a si mesma, em pensamentos, e no entanto já estava a tremer de medo. Um pressentimento dizia-lhe que, desta vez, contemplar aquelas pedras traria uma terrível consequência. Com uma última réstia de força de vontade, levantou o olhar para a ponte.

As pupilas dilataram-se e os olhos pareciam querer saltar das órbitas. Dentro do peito, o coração foi como que esmagado por uma força invisível. Múltiplas alfinetadas atacaram-lhe carne e ossos, a cada alma que se libertava da ponte e se precipitava para ela, tentando tomá-la como invólucro, sedentas de vida humana. Uma convulsão atingiu-a, contorcendo-lhe os braços, as costas, o pescoço. Contudo os olhos continuaram fixos na ponte, a cabeça contrariando os movimentos do corpo. O organismo foi incapaz de conter o conteúdo das entranhas. Cada poro inundava-lhe o corpo de suor e a boca esboçava um grito mudo. Para além disso, havia algo que a queimava sobre o peito – o talismã.

Por fim, a ponte ficou vazia. Aurora tombou, encolhida sobre si. Os olhos permaneciam abertos, mas não viam nada. Continuava a tremer, parecendo mais pequena ainda do que era. Não reagiu quando voltaram a pegá-la pelos cabelos; não ouviu as palavras que lhe disseram; não se sentiu arrastada. Até lhe afundarem a cabeça no rio. Uma golfada de água invadiu-lhe garganta e nariz, roubando-lhe o pouco fôlego que lhe restava. Fechou os olhos com força e esbracejou em vão, gastando a réstia de energia que tinha.

Ao longe, escutou um grito de dor. Seria imaginação? A mão que lhe mantinha a cabeça dentro de água desapareceu. Todavia não tinha força suficiente para sair do rio.

Uma dor violenta fincou-se num braço e a seguir sentiu um puxão. O ar tocou-lhe o rosto molhado. Tossiu, expelindo água aos solavancos, meia engasgada, e logo a seguir uma língua atacou-lhe o rosto com lambidelas vigorosas. Aurora abriu os olhos, com um esforço imenso. Lá estava ela, desfocada, cada vez mais ténue.

– Alli – sussurrou, por entre a tosse. – Alli…

A amiga tocou-lhe com o focinho no rosto, farejando-a. Pouco depois, o último fragmento da sua aura extinguiu-se.

Um soluço tomou-lhe a garganta, depois outro, enquanto as lágrimas lhe inundavam os olhos. Devagar, deitou-se de lado e envolveu-a nos braços, apertando-a contra o peito. Repetiu o nome dela vezes sem conta, as lágrimas juntando-se ao pêlo molhado. No braço, a dentada ardia, a marca do seu salvamento e do último suspiro da companheira. A mais fiel das amigas.

Teria ficado deitada na margem até as lágrimas se esgotarem, não fosse uma pedra começar a bater-lhe leve, mas insistentemente, na cabeça.

– Cachopa, levanta-te, vem. Há demasiados gritos, há fumo, há fogo!

– Não… não quero… – A sua voz era um sussurro. Apertou Alli mais contra si. – Não quero mais, não quero estar aqui.

– Se ficares aí morres! Ele volta, ele mata-te! – disse o golem. – A tua amiga nã te salvou p’ra ficares aí a morrer, pedras me partam! E eu nã m’atirei ao olho daquele rapaz p’ra nada!

Aurora abanou a cabeça, de rosto escondido contra a cadela. Não era capaz, não conseguiria fazer mais nada. Estava cansada, tão cansada de tudo. Se a sua alma também pudesse fugir do corpo e cair no esquecimento, nada a faria mais feliz.

– Aurora – murmurou uma voz. Era impossível não a reconhecer, contudo o tom era demasiado estranho. Não era o que lhe conhecera antes, nem o da fase de possessão.

Descobriu os olhos e direccionou-os para o local donde viera o seu nome. Ali, pairava outra aura. Reconhecia-lhe o dono, no entanto estava mudada, retraída, hesitante, pejada de medo. Ainda assim, aproximou-se. A menina voltou a esconder a face, encolhendo-se mais. Os seus olhos já não sabiam o que viam. Muito ao de leve, uma mão pouco maior que a sua tocou-lhe no braço, a medo. Estremeceu, esperando uma agressão que tardava em vir.

– Aurora, desculpa.

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