Um ardor no peito despertou-o. Abel remexeu-se sob o lençol da sua cama com cheiro a urina. Ainda assim era muito confortável, em relação à ponte. Abriu os olhos e baixou-os para o peito. Um ponto de luz brilhava-lhe sob a pele. Rangeu os dentes, contrariado. Parecia que o idiota do troll já dera pela sua falta. Teria de agir depressa.

Levantou-se depois de amanhecer. Só nessa altura é que a sensação do peito se desvaneceu por completo. Saiu com uma cautela disfarçada, mastigando um pedaço de pão com três dias. Depois ficou à espreita, a algumas casas de distância, para ter a certeza que a miúda não lhe dava com o cheiro. Ainda não conseguira eliminá-lo por completo, mas não tardaria a que o seu espírito acabasse de drenar o fedor humano.

Aguardou. A porta abriu-se uma vez. Examinou a mulher que saiu. Não devia ter mais do que um quarto de século, no entanto a vida já lhe desgastara a alma com crueldade. Sorriu para si. Ainda assim, era um bom pedaço, daqueles que se tomam como espólio de uma batalha, até lhe romper a alma e ser somente uma carcaça vazia. Se de momento não estivesse dentro do corpo de uma criança, ela não lhe escaparia, por mais que gritasse. E ele adorava gritos.

À porta, a mulher baixou-se e ofereceu um beijo de despedida no cabelo da filha, antes de partir. A criança ficou ali parada, por um momento, segurando na mão um bastão peculiar. Havia algo naquele bocado de madeira, mas não lhe pareceu uma ameaça directa. Por fim ela saiu também, seguida pelo fiel saco de pulgas. Deu-lhes um pequeno avanço antes de correr para elas.

Aurora voltou-se, um segundo antes de ele a alcançar. Pôs o bastão em riste, mas de nada lhe valeu, porque não era ela o alvo. Abel lançou as mãos à cadela: com uma segurou-lhe o focinho, para que o bicho não o mordesse, e com a outra o dorso, segurando-a debaixo do braço. Por um instante o bastão rasou-lhe a cabeça. A fedelha estava mais ousada. Eram coisas do troll, de certeza, o qual lhe deveria ter dado um pouco mais de auto-estima, e enchido o sótão de macaquinhos.

– Larga-a, já! – As palavras tremiam-lhe.

– Ou o quê, zarolha? – riu-se. – Se a quiseres de volta, vem ter comigo à ponte, ao final da tarde. Não me vais encontrar antes disso!

Num acesso de desespero, Aurora voltou a brandir o bastão, mas desta vez esteve longe de lhe tocar.

– Tem cuidado, ou ainda acertas na tua amiga. Não ias gostar de a ouvir ganir, pois não?

Ele recuava enquanto falava, descendo a calçada de pedras desniveladas. Alli contorcia-se, tentando escapar, a cabeça abanando para um e outro lado. Abel soltou uma risada maldosa, antes de dar meia volta e se precipitar rua abaixo. Atrás de si ainda ouviu o cajado cair e ressaltar no chão, quando Aurora tropeçou. Olhou por cima do ombro. Como se uma cegueta pudesse competir fosse com o que fosse!

Conteve a respiração e mordeu o lábio inferior que começara a tremer. Se de dor, medo, ou raiva, não tinha certezas. Talvez fosse um misto de tudo o que se movia dentro do peito como um turbilhão. Levou a mão à venda. Se a tirasse, poderia ver para onde ele ia, correr no seu encalço, apanhá-lo e… quem estava a tentar enganar? Mesmo que o visse, entre todas as outras auras, como teria percepção do chão, das casas, dos muros? Mais depressa acabaria dentro de um poço.

Diante de si, escutaram-se meia dúzia de passos pesados. Pelo roçar da madeira nas pedras, alguém apanhara o bastão do chão. Esse alguém pegou-lhe numa das mãos e fê-la segurar nele, firmemente, mantendo a mão quente e grande sobre a sua que gelara. O perfume que emanava, numa mistura relaxante de ervas, incitou-a a um inspirar profundo.

 – Vai tudo correr bem, pequena. Nada temas – murmurou a Dona Alice. – És corajosa e forte. Aconteça o que acontecer, não desistas.

Ofereceu-lhe uma festa no cabelo, antes de se afastar, coxeando. Aurora nada disse. Os acontecimentos tinham-lhe roubado as palavras. Saiu do meio da rua e encostou-se a uma parede. Na galeria de fendas que as pedras formavam, apercebeu-se do som quase inaudível das patas dos pequenos bichinhos. Andavam para cá e para lá, atarefados a tecer a sua teia, ou a esquivar-se às que tinham sido montadas para os capturar. Ínfimos, quase invisíveis, mas presentes, importantes. Aquelas pequenas vidas restauraram-lhe parte da calma, permitindo que pensasse. Abel tinha um qualquer objectivo. Se lhe obedecesse, poderia cair numa teia, como as que armadilhavam as fendas, e não tinha qualquer garantia de reaver a sua amiga. Se o tentasse seguir, mesmo que no seu passo lento, podia ser que ele a libertasse. Para além disso, ela não queria voltar à ponte. Só a ideia de a atravessar a pé já lhe causava calafrios.

Desencostou-se, decidida. Encontrá-lo-ia.

Sondou cada palmo da vila, com o olfacto e a audição. Caminhou devagar, por vezes seguindo apenas o instinto, em busca de um traço dele. Por vezes arriscava-se. Ao sentir que não havia ninguém nas redondezas ou demasiado perto, subia a venda e semi-abria os olhos, só uma nesga, e perscrutava os arredores. Nunca antes se atrevera a fazê-lo daquela forma.

Já a alguma distância do centro da povoação, detectou um cheiro. Não dele, mas de Alli. Nunca a levara a passear para aqueles lados; ficava demasiado longe das casas, já entre os pinheiros. As agulhas que forravam o solo tornavam-no escorregadio e eram uma ameaça para quem tinha pressa. Por isso, apesar da imensa vontade de correr, sondou o caminho com o bastão.

O cheiro tornara-se mais forte: era urina. Não existia trilho algum, o que significava que era um lugar muito pouco frequentado. Podia ser mau de muitas formas, mas por outro lado…

Sem mais hesitações, tirou a venda e abriu os olhos. Desde que o pai morrera que perdera a percepção de todas as pequenas coisas maravilhosas e simples que existiam para além de Avô, as auras que se escondiam nas tocas e as que passavam no céu e cantavam. Que permaneciam estáticas, muito acima da sua cabeça. Porque as árvores também tinham alma, uma tão perene que perdurava mesmo quando o seu invólucro fora cortado ou arrancado do solo.

– Demoraste.

Deu um salto e rodou sobre si, tentando atingi-lo com o bastão. Contudo ele agarrou-o, para o libertar no segundo a seguir.

– Outro amuleto…

Os olhos de Aurora escancararam-se. Se por um segundo não compreendera como fora possível não dar pela aproximação de Abel, agora tinha diante de si uma explicação demasiado terrível. Negra, tão negra era a aura que pairava diante de si. A sua essência tentava domar-lhe o pensamento, deturpar-lhe a mente, consumi-la. Recuou. Aquela era a voz do rapaz, mas não era ele que ali estava. O tom era melífluo e ao mesmo tempo cruel, e faltava-lhe o odor típico a queijo rançoso.

– Que belos olhos tens – notou a Aura, face à falta de diálogo.

A criatura avançou demasiado depressa. Uma mão, que não conseguiu ver, agarrou-lhe o braço como uma tenaz. Tentou puxá-la, no entanto Aurora resistiu e voltou a atingi-lo com o cajado, desta vez no flanco.

– É melhor parares com isso ou ficas sem pau. E sem cadela – acrescentou, os dedos enterrando-se mais na carne tenra.

– Onde está a Alli?! – exigiu saber, mirando a substância amorfa. Aquela não variava de cor consoante os estados de espírito do dono.

– Com que então tens língua – disse, aprovador. – Ela está num lugar que não te direi. Ao fim da tarde, será tua, viva. Mas para isso tens de colaborar, é simples. Agora anda.

Empurrou-a à sua frente, sem pressa, permitindo-lhe que sondasse o caminho para não tropeçar. Só a largou alguns minutos depois. Diante de si, escutou o ranger dos gonzos antigos e um bafo intenso a humidade precipitou-se sobre ela.

– Vais ficar aqui durante umas horas, quietinha, sem tentares nada – disse, voltando a empurrá-la e obrigando-a a entrar.

Lá dentro o ar era pesado, antigo, poeirento. Pequenas auras pululavam, assustadas com aquela entrada súbita: ali um ninho de auras, provavelmente de ratos, acolá talvez uma aranha particularmente grande, e, mais acima, era possível que um morcego se pendurasse de cabeça para baixo. A porta fechou-se atrás de si, e a tranca de madeira foi corrida, prendendo-a. Inspirou fundo. Esperaria. Não era capaz de imaginar qual o plano da criatura, mas com certeza não seria nada de bom.

Sondou o solo com a ponta do bastão e as paredes com uma mão. Estava num compartimento pequeno, de uma só porta e uma janela tapada por pedaços de madeira pregados. O sol entrava por uma fresta ínfima, deixada num dos cantos.

Aurora acabou por se sentar num caixote deixado ali a apodrecer. Ele estalou em ameaça, porém não partiu. De bastão pousado nas pernas, a criança ficou quieta, e só os olhos se mexeram, tentando contar as auras que a rodeavam, criando uma espécie de perímetro quase vazio.

 – Não tenham medo – murmurou, para depois aguardar. Era, de momento, a sua única companhia, os únicos seres com quem falar. – Não vos farei mal. Desculpem ter invadido a vossa casa. Vim à procura de uma amiga, ela foi levada por uma coisa muito má. Vai magoá-la, sinto que vai. Se o Rouco estivesse aqui para me ajudar… ele saberia o que fazer. É um troll muito amável.

Quando soltou um suspiro e se calou para escutar o silêncio, alguma coisa se mexeu num dos cantos. Uma aura que parecera abafada, talvez adormecida, espevitou. Avançou para ela, por cima dos detritos. O som do seu movimentar era peculiar, como se, em vez de andar, rebolasse. Parou quando embateu no sapato da menina.

Intrigada, Aurora baixou-se e levou a mão até ele. As sobrancelhas arquearam-se ao sentir a superfície fria e o interior sem nada pulsante. Pegou-lhe, sentindo-lhe o peso. Só podia ser uma pedra. Ficou a observar-lhe a aura, perguntando-se se a criatura teria olhos para a ver.

– Ah… olá, sou a Aurora – disse, não se lembrando de nada mais inteligente.

Na sua mão a pedra contorceu-se. Quando a voz dela surgiu, lembrou-lhe um triturar de pedra contra pedra.

– Cachopa, nã me recordo do mê nome. Mas sei quem és, amiga do Rouco. Os amigos dele sã mês amigos. Tal como mês protegidos.

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