Sem que ninguém lhe deitasse sequer um olhar, Rouco correu para a ponte. Lançara sobre si um pequeno sortilégio que desviava a atenção de todos em redor, tornando-o o mais insignificante dos insignificantes insectos. Quando se abeirou do seu abrigo e posto de guarda, um olhar firme e muito sério fê-lo abrandar o passo. Junto à entrada da ponte estava uma senhora de idade. Mas não uma senhora qualquer. Era um membro do povo errante. Uma cigana. Era indiscutível que aquele olhar verde o via demasiado bem, e precisaria de um disfarce mais efectivo para passar despercebido. Muitos dos membros desse povo possuíam resquícios da chamada Terceira Visão. Poucos tinham muito mais. Ela fazia parte do último grupo.

Um sorriso abriu-se-lhe nos lábios, apesar da preocupação que lhe pululava no peito.

– Alice – disse, em modo de cumprimento. Não precisara de muito para a reconhecer, mesmo que os cabelos tivessem já perdido o seu negro de azeviche e o rosto apresentasse uma teia complexa de rugas.

Ela sorriu. O mesmo trejeito, talvez menos atrevido mas, ainda assim, quente.

– Rouco.

– Há quanto tempo… – Alice levantou uma mão, silenciando-o.

– Não temos disso – disse. – Vim aqui só para te dar uma coisa.

A mão enrugada mantivera-se fechada sobre um pequeno saquinho de couro. Avançou para ele com um passo onde não havia hesitação, mas sim uma falta de agilidade que a idade roubara.

– É para a Aurora. É um talismã. Mas terás de ser tu a entregar-lho em mão, o cristal precisa de sentir o teu toque para o feitiço se activar. – Estendeu-lhe a bolsa.

O sol do meio-dia deixou-se absorver pela superfície negra, alimentando o que estava lá dentro.

– Que feitiço?

– Nomeá-lo poderá roubar-lhe poderes. Não confias em mim?

Um pequeno sorriso de desafio lembrou-o da jovem atrevida que o encontrara debaixo da ponte, fazia mais de meio século.

Agarrou o pertence com um cuidado extremo. Sopesou-o. Era pouco mais pesado que uma pluma.

– Sempre confiei – notou. – No entanto, a mãe da Aurora não quer que me aproxime. Não será fácil entregar-lhe isto.

– Há muitos anos, quando nos conhecemos, também não querias que eu me aproximasse. Obedeci? Não. Então faz o mesmo, sê ousado – declarou. – Tem de ser entregue hoje. Não pode passar sequer um instante, ou encantamento desvanecer-se-á.

O troll guardou o talismã, não fazendo mais perguntas para as quais não teria respostas. Contudo havia algo que se remexia, que sempre ali estivera sem hipótese de se expressar. Mirou-a.

– Alice…

Talvez ela tivesse reconhecido a questão no seu olhar.

– Ficará para outro dia.

Premiu os lábios e fez um leve aceno. Ainda assim não a deixou escapar logo. Com um passo, anulou a distância que havia entre eles. Levou a mão ao seu rosto, sentindo-lhe o toque de veludo. O olhar dizia mais do que qualquer palavra. Inclinou-se e depositou-lhe um beijo leve, mas demorado, na fronte.

– Quando tudo estiver resolvido. Promete – quase implorou, ao apartar os lábios do toque dela.

– Prometo – murmurou a cigana, tocando-lhe no braço. – Agora, tens as tuas responsabilidades. Até à próxima, Rouco. Gostei de te ver.

Foi ela quem se afastou primeiro, caminhando devagar. Não olhou para trás uma só vez. Rouco soube-o porque contemplou-a, até desaparecer de vista. Chamou-se à razão; tinha assuntos a tratar.

Enquanto descia a margem, examinou toda a estrutura da ponte, o padrão de manchas, a consistência das pedras. Os padrões tinham mudado, contudo não estava certo de que escapara algum prisioneiro. Visualmente era impossível de saber. Para piorar, o único método de o rectificar só poderia ser executado quando a noite fosse alta, e as luzes fossem somente as que são dela por direito: o luar e as estrelas.

Sentou-se, as mãos enclavinhadas uma na outra. Devagar, despiu-se do seu disfarce humano e ficou ali, o olhar oscilando entre os arcos da ponte e o Rio Moura que continuava o seu trilho, imperturbável.

Dentro de si, as oscilações de pensamentos eram muito mais variadas e intensas. As horas volveram demasiado devagar, como se alguém as impedisse de tentar seguir o seu caminho. O Sol desceu no horizonte, escondendo-se por de trás dos picos dos pinheiros que cercavam a vila. Deixou passar mais três horas, envolto na escuridão. Depois levantou-se e apalpou o bolso para se certificar que o talismã ainda ali estava. O que tinha de fazer a seguir poderia demorar demasiado tempo; teria de resolver aquele assunto primeiro.

Não tardou a aproximar-se da janela. Bateu três vezes ao de leve.

– Aurora? – sussurrou.

Aguardou. Baixou o olhar e franziu as sobrancelhas. O que faria ali meia dúzia de amoras esmagadas? Um pequeno desperdício, cujo perfume ainda lhe abria o apetite.

A menina espreitou-o, sem venda. Um dos olhos brilhava na escuridão, o único que o conseguia ver de alguma maneira.

– Olá, pequenina. Tenho aqui uma coisa para ti, foi a Alice que a enviou – decidiu acrescentar, baixinho.

As sobrancelhas finas da pequena arquearam-se e ela inclinou-se para a frente. Junto aos pés dela escutou-se um ganido leve.

– Sssh… – Aurora baixou-se e pegou em Alli ao colo para a deixar espreitar. – Não podes fazer barulho.

A cadelinha abanou a cauda, toda feliz, e pareceu assentir ao pedido da amiga, principalmente depois de Rouco lhe oferecer uma festa entre as orelhas. O troll abriu a bolsa de couro e descobriu um pequeno cristal preso a um cordel entrançado não só com tecido mas com cabelos e algo que só poderia ser um caule de flor seco.

Os olhos de Aurora abriram-se um pouco mais, fixos no talismã. Ela não conseguia perceber o pequeno brilho preso no inato do cristal, mas de certeza que lhe via a aura que, pela sua origem, era capaz de ser muito maior que a do portador.

Rouco tocou no cristal, sentindo o poder com que fora imbuído, sem conseguir perceber que feitiço era. Tinha de confiar. Os humanos falavam tão mal dos ciganos quanto falavam dos trolls, mas nenhum deles comia criancinhas.

– Mudou – murmurou Aurora.

Rouco desviou o olhar para ela. Talvez fosse aquilo que Alice quisera dizer quando pedira para que fosse ele a dar-lhe o talismã.

– É teu – murmurou, passando-lho através da janela.

A criança pousou Alli no chão e só depois agarrou no talismã, uma mão apoiando a outra, em forma de concha. O cristal reagiu ao toque da forma mais inesperada. Uma explosão de luz precipitou-se dele, inundando o quarto e propagando-se pela rua, apagando as estrelas por uma fracção de minuto. Se fosse somente isso, Rouco ainda teria esperança de que ninguém se apercebesse. No entanto, quando a luz se extinguiu, o quase silêncio da noite foi interrompido. Uma miríade de tilintares cristalinos, vindos do Outro Mundo, estremeceu-lhe o âmago.

– Tenho de ir, e tu volta depressa para a cama – sussurrou, com urgência. O som parecia não querer cessar. – Rápido, Aurora!

A pequena assentiu e apressou-se a fechar as portadas. Rouco mimetizou-se com a noite, deixando as sombras circundarem-no qual muralha. Uma ou outra janela de curiosos foi aberta e rostos sonolentos mas desconfiados espreitaram a noite, alguns benzendo-se. Manteve-se imóvel, enquanto o som acabava por ser absorvido. De dentro da casa de Aurora escutou a voz de Inês, contudo não distinguiu as palavras. Talvez estivesse a tentar perceber se a filha se assustara com o fenómeno.

Moveu-se de forma esguia, inimaginável para um humano, e afastou-se. Ainda tinha de tratar de um assunto.

O Rio Moura seguia o seu curso, imperturbável. Com um chapinhar, o troll entrou dentro das águas baixas e dobrou as costas. As mãos perfuraram a corrente e perscrutaram o fundo do leito. Com cuidado, os dedos reconheceram uma pedra em particular. Voltou-a ao contrário e analisou-a com as pontas dos dedos, certificando-se de que era mesmo aquela. Depois avançou um passo para a esquerda e repetiu o processo com uma segunda pedra, mais pequena e oval. Mais um passo, e depois outro, até ter reposicionado, dentro de água, um total de sete pedras, formando um círculo sob a ponte. Manteve-se fora dele.

Uniu as mãos em forma de concha e encheu-as, antes de se endireitar. Esticou os braços diante de si.

– Ao olvidar que os detém, conjuro o toque das estrelas, o suspiro do vento e a visão da água. Pedra sobre pedra, corrente e prisão, algoz, revela os que se escondem de nós.

A linha que a união das suas mãos formava abriu-se um pouco, deixando escorrer um fio de água. Quando se esgotou, Rouco baixou os braços e observou o rio. O círculo de pedras, invisível devido à escuridão e às restantes pedras que forravam o leito, deixou de sê-lo. Aos poucos, um brilho branco tomou conta de cada uma. Rouco não baixou o olhar, mas sabia que o que brilhava não eram as pedras em si, mas as runas cinzeladas à superfície, que as identificava como especiais. A corrente do rio mudou. A água afastou-se do interior do círculo, serpenteando por entre as pedras até à área ficar seca. Uma brisa morna emergiu do local, como o suspiro de algo vivo, uma criatura gigantesca.

Rouco ergueu o olhar. Pontos de luz começaram a ganhar vida na superfície daquela face da ponte. Moviam-se de forma irregular, ora agrupando-se entre uma fenda, ora espalhando-se desordenados como pirilampos presos num plano do espaço. Quando a brisa parou de soprar, o ambiente em redor tornou-se gélido, e as pequenas ervas que se abeiravam do leito cobriram-se com uma espessa camada de geada. Nesse instante, os pontos de luz pararam. Rouco conteve a respiração ao contar o último ponto. Recontou-os novamente, e depois uma terceira vez. Noventa e nove, quando deviam ser cem.

– Pelos deuses… – sussurrou.

Ao escutar a sua voz, o gelo quebrou-se e os pontos de luz voltaram a ganhar vida, começando a desvanecer-se. As águas preencheram o círculo de pedras, contudo, ainda que submersas, as runas continuaram a reluzir. Rouco voltou a pô-las na posição original, deixando que fosse o leito a esconder a magia de cada uma. Só ao despontar do primeiro raio de sol é que o feitiço se extinguiria por completo e, enquanto isso não acontecesse, Rouco estaria preso ao dever de vigiar o rio.

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