Quando abriu a porta, os olhos de Inês arredondaram-se ao ver a filha descalça e sem venda. Logo a seguir ergueu-os para o troll, de forma acusatória.

– O que é que lhe aconteceu? – exigiu saber, puxando a menina para dentro e passando os braços em redor do pescoço dela, como se alguém a fosse tentar roubar.

Rouco inspirou fundo. Durante todo o caminho percorrido à pressa, ele magicara numa meia verdade, contudo duvidava que ela acreditasse assim com tanta facilidade. Sapatos e venda eram objectos não tão fáceis de esquecer quanto isso. Culpar as outras crianças, por piores que fossem, também não era opção.

– Quando saí daqui, encontrei a Aurora a ser maltratada. Levei-a comigo até à beira do rio. – Não interessava que rio. – Tinha o rosto sujo de lama…

– Depois eu quis vir embora e esqueci-me do resto. A culpa é minha, porque quis vir à pressa – murmurou a menina, cabisbaixa.

Inês mirou o troll, como se sondasse a veracidade do que diziam. A desconfiança continuava lá, quando afagou os cabelos da filha.

– Cumpriste o que devias?

A pequena fez um aceno breve, não se atrevendo a que a mãe pudesse interpretar a sua expressão como a de uma mentirosa.

– Está bem – acabou por dizer, dando-lhe um beijo no topo da cabeça. – Vai tirar esse avental, está todo sujo.

Ela foi, sem esperar por nova réplica, seguida pela fiel Alli. Quando desapareceu no quarto, Inês encarou o troll. O olhar indeciso revelava a luta interior que travava.

– Agradeço que a tenha ajudado – uma pausa de hesitação –, mas não sei se agiu bem.

Rouco arqueou as sobrancelhas.

– Como não? Estavam a magoá-la. Podiam ter feito pior se não tivesse aparecido.

– E agora que a viram com um desconhecido? O que comentarão?

– Então preferia que a deixasse a ser magoada? Que deixe que lhe batam? Ou que a matem? – O olhar do troll tornou-se mais feroz.

– Ninguém a vai matar…

– Tal como ninguém matou o seu marido. – Foi cortante, algo cáustico, até. – Quer assim tanto vê-la sofrer?

Não antecipou o estalo que o atingiu. As lágrimas brilharam nos olhos de Inês, contudo ela impediu-as de escorrerem.

– Não é algo que consiga evitar – ciciou, como se não confiasse na voz para falar mais alto. – Para o evitar teria de conseguir estar sempre com ela. Mas assim morreríamos as duas à fome. Prendê-la em casa, rodeada de paredes de pedra? Que bem lhe faria? Sozinha? Isolada do mundo que também é dela?

– Então deixe-a partir, porque está enganada. Este mundo não é o dela – disse, muito simplesmente.

– O quê?

– Ela pertence ao mesmo mundo a que o seu marido pertencia, e não é este – murmurou, para que ela fosse a única a escutá-lo.

Pelo rosto de Inês passou todo um leque de expressões, desde o espanto ao receio, terminando numa determinação sombria. Os dedos de uma das mãos crisparam-se na porta.

– Nunca. O lugar de uma filha é junto da sua mãe. Ninguém tem o direito de a tirar.

– Sem ser a morte. – Rouco mantinha um tom calmo, porque compreendia aquela possessividade egoísta e, ao mesmo tempo, preocupada de mãe. No entanto, isso cegava-a para o mais importante. – Mais cedo ou mais tarde irão denunciá-la. A vossa Santa Igreja não precisa de provas, só de crenças. – Havia desdenho nas últimas palavras. – Se negar, a Aurora será torturada até confessar o que é e o que não é, o que fez e o que não fez.

– Isso não irá acontecer. Ela é só uma menina cega…

– Ela tem um dom do Outro Mundo, é diferente, é especial – sussurrou. – Os olhos dela são a prova. É uma questão de tempo até alguém descobrir o que sempre tentou esconder. E não, eu seria incapaz de a denunciar. Mas basta lançar uma suspeita…

– O senhor já disse tudo o que tinha a dizer. – As palavras tremiam-lhe nos lábios ao interrompê-lo. – Agora vá embora. E afaste-se da Aurora.

– Pense pelo menos no que eu disse – pediu, recuando um passo, antes de a porta se fechar na sua cara.

Passou a mão pelo rosto. Não podia fazer muito mais, no entanto tinha de fazer alguma coisa, o que fosse, para a proteger. Lançou um olhar ao espanta-espíritos que se balouçava, indolente. Seria preciso mais do que um simples amuleto ou talismã para afastar o perigo que pairava qual harpia de mau agoiro.

Aurora afastou-se da janela do pequeno quarto, junto da qual estivera a escutar a conversa com toda a atenção. Mal se sentou na cama, Alli deitou a cabeça no colo da dona, deixando-a dar-lhe uma sessão de festas automatizadas, que serviam de meditação. Apesar da sua audição superar a de maior parte dos humanos, não conseguira perceber o significado de tudo o que fora falado. O que queriam dizer com “outro mundo”? Arrepiou-se ao tentar processar toda aquela parte sobre morte. A sua morte. Iria morrer se ficasse ali? A mãe queria que ela morresse? Abanou a cabeça. Estava a ser tola. No entanto sabia ser um erro aventurar-se a perguntar à mãe por um esclarecimento. Rouco podia responder-lhe, mas nem sequer sabia se o voltaria a ver. Suspirou.

De súbito, ouviu duas batidas à janela. Ergueu a cabeça, voltando-a nessa direcção. Seria o troll? No seu colo, Alli empertigou-se e rosnou baixinho. Tentou deter a dona, abocanhando-lhe a manga, no entanto Aurora soltou-se e foi até à janela. Mal a abriu, o cheiro particular a falta de banho avisou-a de que não era quem esperava.

– Abel… – murmurou, recuando um passo.

Preparava-se para saltar para o interior, mas o corpo deteve-se a meio do impulso. Os pêlos dos braços arrepiaram-se. Devagar, como se um predador estivesse à espreita, e só por uma unha negra não tivesse dado por ele, ergueu a cabeça. Lá estava ele, a abanar-se de forma provocante e a zombar de si por não poder passar daquele limite. Um maldito amuleto. Mandou-o lixar-se. Também não precisava de entrar, a única coisa pretendida era que ela saísse.

– Olá, Aurora – disse, não demasiado alto para a mãe da miúda não ouvir, mas não baixo o suficiente que levasse a criança a suspeitar ainda mais. – Queres vir brincar? Estamos todos à tua espera. Agora somos amigos, não somos?

Ela abanou a cabeça numa negativa rápida. Ele não se importava. Tinha a certeza que ela não demoraria muito a ceder. Toda a criança queria ter amigos, principalmente uma que não tinha nenhuns.

– Oh, mas eu pedi-te desculpa – notou. – Não queres que seja teu amigo?

Uma hesitação. Claro que queria. Só ainda não confiava o suficiente nele. Tinha de treinar esse ponto.

– Trouxe-te uma oferta de paz – disse, começando a vasculhar os bolsos. Desencantou uma mão cheia de amoras silvestres, que pousou no parapeito da janela. – Pronto. Se quiseres ir ter connosco, vamos estar a brincar junto ao pelourinho.

Ela não soltou uma única palavra, mantendo-se longe como se ele tivesse peste. Por acaso já tivera, mas não fora naquela vida. O que não deixaria de ser engraçado. Os espíritos malignos tinham essa capacidade pestilenta de invocar doenças. O que seria um óptimo primeiro plano para quando tomassem a Vila de Avô.

– Então, até logo ou amanhã – despediu-se. – Conto contigo!

Os passos afastaram-se até deixarem de se ouvir. Aurora levou uma mão ao peito. O que fora aquilo? O que é que ele fazia ali, com aquela conversa? Fora ainda mais estranha do que a que escutara entre a mãe e Rouco. Amigos? Ele nunca lhe fizera bem, fora sempre o pior, o mais cruel… Tocou nos arranhões do dia anterior e lembrou-se dos ganidos doloridos de Alli, sempre que ele a agredia. Amigos? Nunca. Abel era mau.

Num acto quase reflexo, fechou a janela.

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