‒ Cuidado!

Por instinto, Jim precipitou-se para a menina e empurrou-a, no exacto momento em que a cartola saltava da cabeça do mago para ferrar os dentes nela. Isabella caiu ao chão com um grito assustado e ficou a olhar para o rapaz, de olhos esbugalhados.

O mago voltou-se para trás, ainda com o saco na mão e arregalou os olhos ao ver Jim.

‒ Um fantasma – sussurrou, estupefacto. Não reconheceu nele uma das suas antigas vítimas.

A cartola endireitou-se com um estremecimento e, fazendo dos dentes patas, correu até ao grupo de crianças pávidas, atirando-se ao pé da que estava mais próxima e que não tivera presença de espírito suficiente para sair dali.

O seu grito de dor ecoou pelo beco escuro. Porém, fora dali, quem o ouviu associou-o somente a brincadeiras do dia de festejo. Aterrorizadas, as restantes três crianças fugiram.

‒ Deixa-os em paz! – ordenou Jim, que não sabia de onde viera toda aquela ousadia para enfrentar o mago. – Ou eu… eu…

‒ Tu o quê? – O homem lançou-lhe um sorriso torto. – Passas através de mim?

Jim fechou os punhos com força e atirou-se a ele. Este desviou-se com uma risada e levou a mão ao alfinete que lhe prendia a capa. Abriu-o, deixando que ela caísse ao chão como um peso morto. O tecido ficou parado por um segundo, antes de começar a rastejar qual verme em direcção a Isabella. A menina guinchou e arrastou-se pelo chão numa tentativa de fuga, porém o tecido era mais rápido do que parecia e prendeu-lhe as pernas, começando a trepar por ela.

O rapaz travou os pés e rodou sobre si, sem saber o que fazer. Era o mago que controlava aqueles monstros, se o conseguisse obrigar a pará-los…

‒ Anda cá, para ver se o meu saco gosta de comer aparições do outro mundo – desafiou o mago, dando um passo na direcção de Jim.

Com uma contorção, os dentes escondidos no interior do saco revelaram-se, fiadas e fiadas deles, umas atrás das outras, que esperavam esfaquear quem se aproximasse demasiado. O rapaz deu um passo à retaguarda, com o pavor a esmagar-lhe o espírito.

Recordou-se do que a mãe lhe dissera, a voz ecoando-lhe junto aos ouvidos: é preciso coragem para enfrentar os nossos receios, e eu sei que a tens.

Com um inspirar profundo, que de pouco valia a alguém que já não tinha pulmões, Jim voltou a investir contra o mago. Este repetiu o que fizera antes, desviando-se com uma risada, contudo o rapaz surpreendeu-o. Em vez de só parar alguns metros à frente, estacou ali mesmo e baixou-se, passando-lhe uma rasteira rápida que o desequilibrou. O rapaz não lhe deu tempo para que recuperasse o equilíbrio, atirando-se para cima dele e levando-lhe ambas as mãos ao pescoço.

‒ Solta-os, já! – ordenou, apertando os dedos para o estrangular.

‒ És ridículo, fantasminha – ciciou o mago, por entre a pressão que o sufocava.

Levou a mão livre ao peito de Jim e afastou-o com um empurrão brusco, derrubando-o. Ao erguer-se, compôs o colete negro, enquanto lhe lançava um sorriso superior.

O alarido poderia não ter chamado a atenção dos humanos, porém a sensação de perigo susteve-se na atmosfera, tocando os mais sensíveis. Quando o mago se voltou para apanhar o saco, tinha diante de si mais dois fantasmas, com o dobro do tamanho do rapaz.

‒ Pai, mãe… ‒ sussurrou Jim, com um sorriso de alívio.

Com um rosnar, o mago tentou afastar os dois novos empecilhos, farto de tanta interferência. No entanto, a mão dele passou através dos corpos, ao contrário do que acontecera com Jim. Piscou os olhos.

O pai do rapaz brindou-o com um sorriso.

‒ Sei uns truques que o Jim ainda não aprendeu. Surpreendido? – perguntou, agarrando-o pelo colarinho. – Temos umas contas a ajustar, e acho que o teu saco está mortinho por te devorar.

A mãe de Jim já agarrara no saco, mantendo-o aberto, apesar do esgar de repugnância que lhe marcava as linhas apagadas do rosto.

O mago tentou resistir, contrariando a força do fantasma, pontapeando-o sem que surtisse efeito. O saco veio ter com ele, poucos segundos depois, sendo-lhe enfiado pela cabeça abaixo, pela mãe de Jim. Ela largou-o e afastou-se logo a seguir, vendo como a superfície da criatura alargava para poder engolir o homem por inteiro.

O grito dele foi abafado pelo tecido, quando os múltiplos dentes o atacaram, rasgando-lhe a pele, a carne e esmigalhando-lhe os ossos como uma trituradora viva. Ao saco não escapou sequer uma gota de sangue.

Nenhum dos dois fantasmas adultos ficou a assistir ao espectáculo, precipitando-se para as crianças que estavam a ser atacadas pelos outros monstros. A cartola havia-se colado à perna do rapaz que acabara por desmaiar, como uma sanguessuga voraz. Com extremo cuidado, a mãe removeu a cartola, libertando dente a dente. A criatura facilitou-lhe o trabalho, soltando a criança e tentando cravar nela as presas, percebendo tarde demais que ali não havia qualquer fluído vital a sugar. Fizera-o uma vez, há muitos anos. Não havia forma de o repetir.

A curta distância dali, o pai puxou a capa que parecia tentar engolir a menina por inteiro, qual jibóia que faria a digestão mais tarde. O fato de coelho de Isabella ficou coberto por uma gosma salivar, de cheiro pútrido.

Quando do mago já não havia sinal, atiraram a cartola e a capa para o interior do saco, para serem também devorados. No fim, este deixou escapar um arroto saciado e deu um nó sobre si mesmo, impedindo que mais alguma coisa entrasse.

Só quando tudo sossegou é que Jim se atreveu a soltar um suspiro de alívio. A menina continuava no chão, muda, enquanto o olhar arredondado saltava entre os três fantasmas e o saco.

‒ Está vivo, mas precisa de ir para o hospital – notou a mãe do rapaz, depois de examinar o menino que fora atacado pela cartola.

‒ Chamamos uma ambulância – declarou o marido, agarrando no saco. – Agora vamos sair daqui. Anda, Jim.

Estendeu a outra mão ao filho que rapidamente correu para a agarrar. Era a sua âncora. Jim ainda olhou para trás, fitando aqueles de quem há momentos só queria ser amigo e encolheu-se. Essa realidade parecia demasiado remota.

‒ Jim! – chamou a voz da menina, antes mesmo de a família de fantasmas sair dali.

O rapaz voltou-se, por um lado espantado ao ouvir o seu nome proferido por ela, por outro quase esperando que a rapariga desse um grito e fugisse de si como o demónio da cruz.

Ela hesitou, com a face lavada em lágrimas e os olhos azuis trémulos.

‒ Obrigada.

Aquela simples palavra foi o segundo maior presente que Jim recebeu em toda a sua vida e em toda a sua morte. O primeiro foi uma amiga.

Jim - Parte II

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