No céu as estrelas brilhavam como diamantes distantes. O rapaz observava-as, esperando que uma delas atirasse uma corda gigante, com um número imenso de nós, para lhe facilitar a escalada. Seria uma forma eficaz de fugir do arbusto atrás do qual ele e os pais se escondiam.

‒ Jim, estás a prestar atenção ao que estou a dizer?

Estremeceu, arrancando o olhar das estrelas para fitar o pai, acocorado para que ninguém o visse. Do lado de lá do arbusto, as outras crianças corriam com sacos nas mãos, disfarçadas de monstrinhos que eram tudo menos assustadores. As abóboras de olhos e bocas brilhantes enfeitavam os alpendres e as janelas, e as gargalhadas enchiam a noite, juntando-se às guloseimas que adoçavam a boca. Jim também queria doces, mas já há anos que não os podia comer.

‒ Desculpa pai, estava só a pensar… Eles não vão querer ser meus amigos – sussurrou, desviando a atenção para as folhas escuras.

‒ Não vão querer se não tentares, amor. É precisa coragem para enfrentar os nossos receios, e eu sei que a tens. E precisas desejar do fundo do coração, um desejo sincero – disse a mãe, fazendo-lhe uma festa carinhosa no rosto. – Se quiseres, nós vamos embora para te deixarmos mais à vontade. O que achas?

O rapaz hesitou, passando ambas as mãos pelo rosto pálido de nervosismo.

‒ Talvez seja melhor, mãe. Eu fico bem sozinho – garantiu, engolindo em seco. Era óbvio que não acreditava nas próprias palavras.

Os pais entreolharam-se por um segundo, antes de fazerem um aceno mútuo. Pouco depois regressavam a casa, no topo da colina da vila, e deixavam o filho entregue aos seus medos de socialização.

Com um avançar hesitante, Jim saiu de entre os arbustos e percorreu as ruas sem que ninguém lhe lançasse mais do que um olhar vago. Um grupo de vampiros passou por si a correr, quase o derrubando pelo caminho. Encolheu-se contra a vedação da casa à qual as crianças foram bater. Ouviu-os gritar “Doce ou Travessura!” e a alegria na voz deles levou-lhe lágrimas aos olhos. Viam-no e não o viam. A sua presença era tão ténue que fugia demasiado depressa da memória. Fora feito para ser assim, para não ser lembrado.

Correu dali, de dentes cerrados. Qual fora a ideia dos pais? Aquilo só o fazia sentir pior e pior. Voltou numa esquina, entrando num beco tomado pela escuridão. O chão estava sujo e um odor a esgoto pairava no ar, provindo das sarjetas parcialmente entupidas. As janelas das casas que ladeavam a rua lembravam bocas negras prontas a engoli-lo. Há muito que se encontravam desabitadas, por isso não mereciam sequer enfeites de Halloween. Nada era mais assustador que o seu vazio.

Com um soluço, Jim aproximou-se do primeiro refúgio que lhe saltou à vista: um caixote de madeira podre. Sentou-se e encolheu-se atrás dele, impedindo-se de ver o que se passava para além do beco. Porém o obstáculo não bloqueava as gargalhadas. Por instinto, levou as mãos aos ouvidos, tapando-os e fechando os olhos com muita força. Contudo o som continuava a passar-lhe por entre os dedos, infiltrando-se em si.

‒ Deixem-me em paz ‒ sussurrou, antes de morder o lábio inferior para o impedir de tremer.

Pelo contrário, os ruídos tornaram-se mais insistentes, até ouvir meia dúzia de passos a entrar no beco. Abriu muito os olhos, assustado com a possibilidade de alguém o encontrar ali, e encolheu-se mais, com esperança de conseguir desaparecer.

‒… E o senhor mago tem esse saco cheio de doces só para nós? – perguntou a voz feminina de um dos intrusos que viera perturbar o choro de Jim.

‒ Só para vocês, Isabella – respondeu o interpelado, com um timbre suave, melífluo e que, no entanto, fez Jim estremecer.

Ele conhecia o dono daquela voz. Atormentava-o nos pesadelos mais negros. Sussurrava-lhe ao ouvido, enquanto, com uma faca afiada, lhe cortava o pescoço, só para o ver sufocar no próprio sangue. Deixou escapar um gemido assustado.

As sombras projectadas no pavimento pela luz que espreitava através da entrada do beco foram ficando mais pequenas à medida que os intrusos avançavam, até os seis passarem mesmo junto ao caixote atrás do qual Jim se escondia. O rapaz lançou uma mirada assustada a quatro crianças que semi-corriam até ao fundo do beco, e depois à última delas, vestida com um fato quente de coelho cor-de-rosa, que caminhava de mão dada com o dono da voz assustadora.

Devagar, Jim foi erguendo o olhar, mirando-o até ao topo da cartola alta. Uma capa negra caía-lhe sobre os ombros, a bainha ondulando a cada passada descontraída. No entanto, aquele movimento ia muito além do impulso do caminhar ou da brisa da noite. Era como se a capa tivesse vida própria. Numa das mãos enluvadas a negro, o homem transportava um saco cuja superfície se mexeu quase imperceptivelmente.

Como acontecera antes, ninguém deu pela presença do pequeno Jim, encolhido como um gato assustado.

‒ Vá, agora façam um semi-círculo à minha frente para começarem a tirar os doces – pediu o homem, pousando o saco no chão, baixando-se e começando a desapertar os cordões. – Tu também, Isabella.

A menina vestida de coelho, que se debruçara para ver o que o saco tinha dentro, insuflou as bochechas e foi para junto dos outros. Ainda assim colocou-se numa posição estratégica, e em bicos de pés.

Um rosnar baixo escapou-se de dentro do saco e este contorceu-se como um enorme estômago. As quatro crianças que tinham esticado os braços para receberem os doces recolheram-nos de imediato.

‒ Não tenham medo – disse o mago. – Este é o guardião dos doces. Vive cá dentro para que ninguém os roube.

Abriu um pouco mais o saco e mostrou-lhes o fundo recheado de bombons com embrulhos coloridos e brilhantes que prenderam o olhar das crianças, como um saco de jóias prenderia o olhar de um adulto.

‒ Só vejo doces… onde está o guardião? – quis saber Isabella, colocando-se atrás das costas do homem e espreitando sobre o ombro dele.

Jim abriu a boca para gritar, ao ver dois olhos abrirem-se na parte de trás da cartola do mago. Com as pupilas fendidas e de íris cor de sangue, eles olharam de lado para a menina, enquanto, silenciosamente, vários dentes afiados despontavam da aba que se contorcia até se transformar numa mandíbula única. A cartola dobrou-se um pouco, como quem se prepara para saltar, e a capa moveu-se, arrastando-se pelo chão até aos pés de coelho de Isabella.

Jim - Parte I

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