“Podia ter sido branca.”

O pensamento era uma mentira. Podia, naquele ano de 1962, ter engolido o líquido que lhe embranqueceria a pele. Mas não deixaria de ser Ana. Não perderia as histórias que tinham vindo, há muito tempo, de Angola para Portugal, mantidas e chegadas até ela pela oralidade que as ritmava. Não esqueceria os olhares, o estranhamento, todos os ‘tás-te a fazer à preta? que tinha suportado até aí. As suas origens, a sua cultura, a mãe e a irmã… Não deixaria de ser Ana. Nem deixara.

A manta voltou a escorregar-lhe para o chão. Apoiou-se nos braços da poltrona, forçando o corpo a levantar-se. Vagaroso e tremendo. Afastou a manta como pôde, receosa que a levasse a tropeçar e, em passos curtos, caminhou até ao pequeno armário dos medicamentos. Ignorou as linhas da frente, a mão dirigindo-se com rapidez à garrafa com líquido transparente. Apertou-a contra o peito, temendo uma fraqueza que a levasse a deixar escorregar a garrafa por entre os dedos, e regressou à poltrona. Recostou-se, os olhos fechados e a boca aberta, respirando em golfadas barulhentas.

“Já nem posso andar pelo quarto sem perder metade dum pulmão”, resmungou num pensamento lúcido. Deixou que a respiração se normalizasse, o peito lentamente deixando de subir e descer com a irregularidade do esforço. No televisor, a apresentadora dera espaço a uma cantora e respectivas bailarinas. O ritmo fácil pegava-se ao ouvido, junto com o refrão embalado em segundos sentidos. Os lábios, próximos ao microfone, falhavam vez ou outra o acompanhamento do som, deixando visível o playback. Saracoteava-se no espaço que tinha disponível, as calças de couro negro espremendo-lhe as pernas e o top prateado focando a atenção da câmara. Atrás da cantora, as dançarinas imitavam-lhe os gestos, tornando-se quase indistinguíveis entre si. Mais do que vender a música, vendia-se a imagem.

Objectivação. Fantasia.

Afinal, pouco mudara.

A garrafa escorregou-lhe das mãos enquanto adormecia, parando-lhe por momentos no colo, antes de um remexer a levar ao chão. O líquido chocalhou, as suas propriedades mais uma vez rejeitadas. Ali ficou, até Dulce retornar ao quarto, o tabuleiro do almoço nas mãos.

– Avó?

Ana não respondeu, a cabeça inclinada para a frente. Dulce pousou o tabuleiro sobre a cama, chamando uma segunda vez, e pousando-lhe a mão do ombro. Ana acordou num sobressalto.

– Maria?

– Não, avó, sou a Dulce – corrigiu a neta, numa paciência mais terna. A reacção da manhã deixara-lhe o peso do arrependimento. Não tinha culpa do estado da avó, mas também a avó não poderia ser responsabilizada pelo que dizia por conta da mesma. – Tens fome? Trouxe-te o almoço. Que é isto? – perguntou, debruçando-se para apanhar a garrafa. – Podias ter dito que estavas com sede – ralhou. Abriu a tampa, vertendo o líquido no copo que trouxera junto com a refeição. Ajeitou a avó como conseguiu, endireitando-a melhor na poltrona, antes de lhe colocar o tabuleiro nos joelhos. Prendeu-lhe o guardanapo ao peito e puxou de uma cadeira, sentando-se ao lado da idosa. Como se tornara corrente nos últimos dias, Dulce teve de obrigar a avó a alimentar-se, levando-lhe os talheres com a comida aos lábios, alternando com o copo.

Bastaram dois goles. O líquido desceu pela garganta de Ana, com um ruído de sucção. Dulce gritou quando a espuma se começou a formar nos cantos dos lábios da avó, descendo até ao queixo. Os olhos negros, esbugalhados, fixaram-na com uma compreensão que Dulce julgara perdida.

– Mãe! MÃE!

Correndo para a porta, Dulce gritou pelo socorro que esperava chegar a tempo. Passos apressaram-se a subir as escadas.

– Dulce? O que foi, Dulce?

– Mãe! Mãe, a avó!

Atrás da rapariga, a pele de Ana esbranquiçava, tomando logo de seguida o tom arroxeado de uma nódoa-negra. Indiferente à manifestação física que a pele fazia da sua dor, Ana chiava, um esforço vão para respirar. Chutou o vazio, atirando o tabuleiro ao chão e, com ele, o copo com a poção sem cor, cheiro ou sabor. O líquido esparramou-se no momento em que Ana se aquietava o corpo sem vida que o animasse.

Assim como as ideias que simbolizava, há muito que a poção passara o prazo.

Imagem Eu Sou Ana

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