Um pequeno tentáculo de matéria negra estendeu-se de entre a junção carcomida de duas pedras. Perscrutou o ambiente. A costa estava livre. O corpo amorfo escorreu através da superfície irregular, deixando para trás 99 irmãos de alma. A sua substância arrepiou-se ao tocar o solo húmido. Há quantos anos não tinha essa percepção? Perdera-lhes a conta, tal como perdera a conta ao número de pés que o tinham pisado, alimentando-o de frustração, medo, ódio, maldade. Licores melífluos, negros. Sem eles teriam mirrado, qual espinheiro a quem roubam a água.

Deslizou pelas ervas rasteiras até à estrada, onde estacou. Era invisível aos olhos humanos. Aqueles com uma centelha mais arguta de sensibilidade sentiriam uma onda de frio inexplicável, um pressentimento mau, ou um arrepio espinha acima, não mais. Ainda assim, não sentirem a sua presença não significava que não pudesse induzir mudanças anímicas, principalmente nas almas mais fracas e naquelas tocadas pelo Mal.

Estudou as redondezas. Precisava da miudinha, e de manter o troll afastado da ponte o tempo suficiente. Talvez não conseguisse esse feito de imediato, mas se encontrasse alguns aliados entre os vilões…

Errou pelas ruas, passando entre alguns transeuntes e trespassando outros, captando-lhes as felicidades e os rancores, desfazendo as primeiras e fomentando os últimos. Poucos minutos depois de o ter feito com um homem particularmente carrancudo, ele esbofeteou a mulher em público. Segundos depois, uma velhota precipitou-se sobre um comerciante, de cajado em punho, largando uma enxurrada de palavras venenosas e meia dúzia de perdigotos. O espírito regozijou-se. Quanto maior fosse o caos, mais as energias seriam perturbadas, quebrando a estabilidade e facilitando a tarefa.

Perscrutou rua a rua, sondando os espíritos em busca de memórias frescas e sentimentos a respeito da miúda. Estacou, por fim, à entrada de um beco sujo. Se ele mesmo não fosse uma alma, teria franzido as sobrancelhas e semicerrado os olhos, enquanto observava um grupo de fedelhos. Três deles chutavam entre si uma bola feita de farrapos velhos e encardidos, outro par e meio, composto por raparigas, segredava entre si. Contudo havia um sétimo membro, sentado a um canto. Nas mãos retorcia o resto de um graveto despedaçado. Os restantes despejos estavam espalhados em seu redor. Com um estalo que subiu acima das conversas, também aquele pedaço de madeira teve o mesmo destino que os restantes. Arremessou um dos bocados à parede.

Havia ali uma pequena mina de frustração e ódio a ser explorada, constatou. Os dois tipos de seres mais susceptíveis à influência do Mal eram os fracos de espírito e os que por si só já eram seguidores assíduos do prazer de causar infortúnios e de semear o egoísmo. E a miúda estava cravada a fogo na mente daquele rapaz. O facto de as crianças terem uma consciência mais volúvel às influências só as tornava uma arma perfeita de manipulação. Quando já possuíam sementes de Mal, era só regá-las e deixar as raízes aprofundarem-se, o que era uma delícia.

Abel parou de súbito o que fazia. Olhou em volta. Estavam todos demasiado ocupados nos seus afazeres, não havia nenhum amigo perto de si. Então, donde viera aquele sussurrar ao seu ouvido? Aquela brisa que lhe pusera em pé todos os cabelos da nuca?

“A culpa é dela, foi ela quem te envergonhou” disse a voz.

Olhou de um lado para o outro, de respiração presa. Mas não havia nada, só o ar.

– Qu… quem…?

“A vingança. Vais deixá-la impune por aquilo que te fez passar?”

O corpo do rapaz começou a tremer. Não de medo, mas de uma raiva que se via incapaz de conter, que lhe enchia a mente, ameaçando destrui-la se não arranjasse forma de a expulsar. Levantou-se de um salto e o olhar dardejou em volta, procurando uma arma, qualquer coisa.

“Não” sussurrou a voz. “Assim não. Vou ajudar-te a fazer algo pior, uma coisa que a magoará muito mais que uma pedrada, mais do que uma faca no pescoço”.

– O quê? – exigiu saber.

Os amigos pararam as brincadeiras por um instante e miraram o rapaz. Porém, tal como Abel, não descortinaram qualquer interlocutor. Entreolharam-se e encolheram os ombros, continuando o que faziam.

“Ela não tem amigos. Finge ser amigo dela, o melhor. Finge que te arrependeste das brincadeiras que a magoaram, finge… E depois afoga-a debaixo da ponte, onde o pai dela morreu”.

O rapaz estremeceu. Afogar alguém não estava nas suas previsões. Era demasiado, não era?

“É uma aberração, uma bruxa, com um olho de cada cor, que vê demónios e fala com eles” argumentou a voz, num lamento à existência de tal criatura.

– Mas… E o troll? Ele come-me! – lembrou-se de súbito. Os amigos voltaram a relanceá-lo.

Uma risada soou, primeiro baixa, assumindo depois um tom tão alto que Abel tapou os ouvidos para tentar proteger-se. Contudo de nada valeu, a gargalhada ecoava-lhe no cérebro.

“Nós encontraremos uma forma de o tirar de lá o tempo necessário. Quando ele chegar, vai encontrar só um cadáver. Tens coragem para fazê-lo? Deixas-me ajudar-te? Ou terei de pedir a alguém mais corajoso?”

– Eu faço-o – declarou, com um aceno ao qual faltava firmeza.

“Diz antes eu aceito”.

Abel inspirou fundo.

– Eu aceito – volveu, num tom mais digno de si, endireitando as costas.

A voz silenciou-se por um momento, como se nunca lá tivesse estado. O rapaz rodou sobre si, de sobrancelhas franzidas, mirando as pedras disformes e imundas que calcetavam o chão, as paredes de granito e, lá em cima, o céu de um azul vivo, sem nuvens. Talvez a voz tivesse ido à sua vida e voltasse mais tarde para combinar os pormenores, pensou.

Uma aragem rodeou-o. Por instinto, esfregou os braços. Donde viria aquele frio intenso? Começou a tremer, os dentes bateram uns nos outros quais castanholas. De súbito, sentiu como se mil espinhos lhe perfurassem as costas, enterrando-se até convergirem no coração. A boca escancarou-se num grito que ficou entalado na garganta, e só se escapou o espectro de um arfar. Calor. Agora a sua pele ardia como fogo. Quis tentar apagá-lo, no entanto o corpo recusava-se a obedecer. Entretanto, as pálpebras fecharam-se, escondendo o revirar desvairado dos olhos.

Acabou tudo tão depressa como começou. O calor, o frio, as dores. Inspirou fundo e abriu os olhos. Um arrepio fê-lo sorrir. A sensação da carne era a maravilha dos espíritos, o vigor que lhes relembrava a vida ida, independentemente de o corpo ser de um bebé ou um velho caquéctico. Claro que quão mais novo melhor, mas um espírito desesperado não é esquisito na possessão. Mirou as mãos de unhas sujas, deixou-as escorregar pelo rosto, tocar as orelhas, o cabelo, o nariz… meteu um dedo numa das narinas, antes de dar uma gargalhada.

– Nojentamente revigorante – disse para si.

Depois olhou para a entrada do beco. Tinha um problema secular a resolver. Os prazeres carnais teriam de esperar mais umas horas.

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