Saiu do quarto em passos apressados e com frascos vazios a tilintarem na bolsa. Soltou um “bom-dia” de fugida à vizinha, não parando de galgar as escadas apertadas numa perigosa corrida até à porta do prédio. Naquele início de manhã, ainda poucos se encontravam na rua. A caminhada até ao autocarro, no entanto, não era curta, e, quando conseguiu entrar no veículo, já este se encontrava cheio. Fintou os corpos, esticando o braço para o apoio, e ter pelo menos uma segurança durante o percurso que teria de fazer em pé. Relanceou os olhos sobre os restantes passageiros, colegas de nacionalidade. Fazia um ano desde a perda de Goa, capital do Estado Português da Índia e, mais deprimente ainda, um ano desde que se iniciara a Guerra Colonial. Uma guerra cujas notícias chegavam à metrópole revistas e controladas.

O sentimento geral, no entanto, não se deixava acanhar pelo filtro de informação. Sentia-o nos olhares de fugida, nas frases interrompidas à sua chegada, nas hesitações em opinar… Uns por receio em ofender, outros por motivos de maior agressividade. Não importava quantas gerações antes dela já haviam nascido e vivido em Portugal, no continente. Olhando para ela, presumiam-na sempre como “o outro”.

O encontrão inesperado fê-la balançar, e quase largou o varão. O homem abriu a boca para se desculpar, calando-se ao fixar-se nela. A fúria esquentou-lhe a cara ao notar o olhar dele a vagar-lhe até às pernas, apesar da saia abaixo dos joelhos. Queria falar. Queria zangar-se. Queria esbofetear-lhe a impertinência.

Não se atrevia.

– Malandro, ‘tás-te a fazer à preta!

Os amigos riam-se, e mais se riram com a piscadela cúmplice que ele lhes lançou. Ana sentiu os olhos humedecerem-se, mordendo de imediato o interior das bochechas para impedir as lágrimas. Ana. Tinha um nome. Não era um objecto, não era uma fantasia.

Não era uma cor.

Ana. Era Ana.

Ainda assim, seguira as instruções e fabricara a poção. Aquela não viera do conhecimento partilhado de geração para geração da sua linhagem. Aquela não era algo que os seus desejassem ou aprovassem. Porque lhes dizia que estavam errados, que eram um defeito e uma inferioridade.

Que para os outros Ana não era outra, mas “O Outro”.

Imagem Eu Sou Ana

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