– Aurora, Aurora! – chamou a voz fina de uma menina.

Quando voltou o rosto, para tentar perceber porque a chamavam, qualquer coisa fria, húmida e peganhenta atingiu-a numa das bochechas. O cheiro a lama, misturado com quaisquer outras substâncias, encheu-lhe o nariz. Tentou limpar aquilo com o avental, mas não lhe foi dado tempo, porque foi atingida novamente. As gargalhadas ressoaram atrás de si, mas não eram só as crianças que se riam. Havia vozes mais fortes, maduras, que faziam pouco dela. Encolheu-se, ainda tentada a limpar o rosto.

Ao seu lado, Alli rosnou alto.

– Desaparece, rafeira!

Era Abel. Não tardou para que ele soltasse um berro de dor, quando a cadela lhe abocanhou a perna. Praguejou, esperneou, até Alli ser obrigada a largá-lo, ao ser atingida pela vergastada de um pau que outro rapaz segurava. Ganiu e fugiu para junto da dona.

– Malditas – rosnou Abel.

Arrancou o pau das mãos do amigo e brandiu-o na direcção de Aurora. Ao ouvir o pau cortar o ar, a menina levantou um braço para proteger o rosto e encolheu-se.

Contudo não chegou a sentir-lhe o toque.

– Se voltar a ver-te a magoá-la, parto-te um braço.

Abel lançou um olhar de desafio ao desconhecido que se atrevera a agarrar-lhe a mão. Deu-lhe um pontapé nas canelas. Rouco ergueu uma sobrancelha. Não fora claro o suficiente. Levou a mão livre ao pescoço do rapaz e ergueu-o do chão meia dúzia de centímetros. Os olhos do rapaz esbugalharam-se, e os amigos recuaram um passo de precaução. Se pudesse, o troll faria surgir outros tantos braços, um por cada pirralho.

– Pede desculpa ou, para além do braço, também te esmago a goela.

O rapaz ofegou de medo, crispando as mãos no pulso dele.

– Desculpe, desculpe! Ponha-me no chão, por favor!

– Não é a mim que tens de pedir desculpa – volveu. – É à Aurora.

Abel relanceou a cega e não hesitou sequer um segundo.

– Desculpa, Aurora! Ajuda-me, ele vai matar-me – guinchou, as lágrimas vindo-lhe aos olhos.

Rouco fez um esgar de desdenho e abriu a mão. Apesar da pouca altura, Abel estatelou-se de traseiro no chão. Não tardou a levantar-se, choroso, e a sair dali a correr, seguido pelos amigos.

O troll voltou a atenção para a menina meio encolhida. Avançou um passo, ela recuou outro.

– Não te vou fazer mal, não me temas – pediu.

Com que então aquela era a criança da sua promessa. A cadelinha aproximou-se e farejou-lhe os pés, apreensiva, tentando descobrir se era de confiança ou outro inimigo. Pelo menos ainda não o achara suspeito o suficiente para lhe afincar os dentes.

– Agradeço a maçã – disse. Arriscava-se a que a criança fugisse, tal como as outras. Todavia, alguma coisa lhe dizia que ela era diferente.

Aurora voltou o rosto na direcção dele.

– A… maçã? – perguntou, incrédula. – O senhor…

– Sim, Aurora. Estava muito boa, não imaginas o quão feliz fiquei. Era a melhor maçã que alguma vez comi!

Um ínfimo sorriso começou por despontar nos lábios de Aurora.

– O senhor salvou o bastão – murmurou.

– Não custou nada. Agora, queres ir até à beira-rio para limpares isso antes de voltares para casa?

A menina ainda hesitou, mas acabou por assentir. Alli fartou-se de o farejar e regressou para o lado da dona, de cauda a abanar.

Rouco baixou-se e tomou-lhe a mão minúscula. Mal as peles se tocaram, foi como se tivesse levado um choque eléctrico. Olhou-a com outros olhos. Era verdade que a encontrara ao pressentir-lhe a aura, contudo não previra que fosse tão forte. Não uma criança.

Quando chegaram à margem, pegou na pequena ao colo e desceu o declive. Ao atingir um lugar mais plano, pousou-a com cuidado.

– É aqui que vivo – disse, acocorando-se ao lado dela. Vendo que Aurora estava demasiado inibida para comentar, continuou: – Deixa-me ajudar-te a lavar a cara e passar por água essa venda.

– Não! – As mãos cobriram o rosto para o proteger.

– Não te farei mal – garantiu Rouco. – Confia em mim. Só quero ser teu amigo. Não queres ser minha amiga?

A pequena comprimiu os lábios.

– Quero… mas a mãe disse que ninguém pode ver, que me podiam fazer mal – murmurou, mantendo as mãos no rosto.

– E eu sou um troll. Também ninguém pode saber disto, no entanto contei-te, porque tive esperança de que não fugisses, e confio que não contes a ninguém – notou, muito calmo.

– Se contar a alguém, vai comer-me? – perguntou, baixinho.

Aurora não pôde ver ou sequer imaginar a ternura que havia no sorriso de Rouco.

– Não. Mas ficaria muito triste. E tu, comias-me se eu contasse o teu segredo? Como um troll mau?

– Não, és grande…

– Ah, então se eu fosse pequeno já não havia problema? Que pequena má! – disse, cutucando-lhe a barriga ao de leve. – Capaz de comer um pobre troll!

A pequena soltou uma risada contida, encolhendo-se um pouco. Por fim, baixou as mãos.

– Tira tu a venda, para não te puxar os cabelos – sugeriu.

Aurora levou as mãos ao nó atrás da cabeça. Os dedos detiveram-se a uma distância muito curta. Ele não insistiu, esperando, paciente. Por fim, o nó desfez-se. De olhos fechados, Aurora estendeu-lhe a tira de pano, contudo o troll relegou-a para segundo plano.

– Primeiro tens de lavar a cara – disse, dando-lhe a mão e puxando-a devagar. Pressentia-lhe o medo à flor da pele. – A corrente aqui não é forte e na margem as águas são baixas. Não te farão mal. Descalça-te e vem molhar os pés.

Apesar de muito reticente, Aurora fê-lo, quase se arrastando. Os pés pequeninos tocaram na água corrente. Um arrepio tomou-lhe o corpo, tão forte que não poderia ser causado somente pela frieza.

– O rio protege as boas almas. Se algum dia precisares de ajuda, procura água corrente e pede-lhe auxílio – disse. – Ela virá.

– Ela matou o meu pai – murmurou, apertando a mão grande que segurava a sua.

– Não. Alguém fez mal ao teu pai de tal forma que o Rio só lhe conseguiu salvar a alma, e levou-a num abraço.

A menina nada disse. Talvez estranhasse um troll falar de forma tão peculiar, quando as histórias diziam que eles só sabiam rosnar.

Ele próprio lavou-lhe a cara, até não haver um só vestígio de lama. Depois sentou-a numa pedra jeitosa e tratou de lhe lavar a venda. Quando se voltou para trás, deu com Aurora a fitá-lo com uma expressão compenetrada.

– O que vês? – perguntou, curioso.

A menina apressou-se a fechar os olhos díspares, como se tivesse feito uma coisa muito má.

– Não vejo nada…

– Ah, estás a enganar-me, que eu sei. Falei com a tua mãe esta manhã – comentou.

Aurora apertou o avental nas mãos.

– Vejo uma coisa – hesitou. – Que se mexe, muda, cresce, fica mais pequena…

Rouco franziu as sobrancelhas, enquanto torcia a venda.

– Muda como?

– Com os sentimentos – disse, sem vacilar, tão certa daquilo como do céu ser azul.

Rouco arregalou os olhos, e por um instante a sua atenção desviou-se para os arcos da ponte. Como que por instinto, Aurora levantou a cabeça e as pálpebras abriram-se. O olhar ficou pregado nas pedras, arregalando-se ainda mais. Um arrepio apossou-se do corpo dela, aprofundando-se até aos ossos.

– Demónios. – Expirou a palavra como se lhe tivessem arrancado o ar dos pulmões. – Monstros. Escuridão. Morte…

Tapou o rosto com ambas as mãos e dobrou as costas, enrolando-se sobre si. Rouco não precisou de qualquer outra confirmação. Contudo ela veio. As manchas de humidade volveram numa convulsão. Os líquenes amarelados enegreceram. A consistência e forma das pedras pareceram vacilar. Voltou a mirar a criança. Estavam a reagir à sua presença, como se a pequena fosse um catalisador.

Apressou-se a tomá-la nos braços.

– Mantém os olhos fechados – segredou-lhe, antes de se precipitar margem acima.

Alli não tardou em segui-los, de cauda entre as pernas. A sua sensibilidade canina também se apercebera de que havia ali algo de muito errado.

Aurora não se atreveu a tirar as mãos dos olhos, parecendo terrivelmente pequena e ainda mais frágil. Rouco não tinha explicação para o que acontecera, mas uma coisa era certa: a criança não deveria voltar a aproximar-se da ponte. Entre a essência de muitas criaturas, bastava um olhar para que as grilhetas mágicas se conspurcassem. Não um olhar qualquer, mas sim um olhar de reconhecimento, que conseguisse entender o mais profundo do que à superfície se diz simples.

Estava demasiado perto. Não podia abandoná-la ali e dizer-lhe que fosse para casa. Contudo, a cada passada que dava na direcção oposta à da ponte, mais o aperto no peito se estreitava, o receio corroendo-lhe as entranhas. E se alguma se escapasse?

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