– Maria! Maria!

A avó começara num sussurro esganiçado assim que a vira entrar no quarto. Sentada numa poltrona em frente à televisão, ligada num qualquer programa da tarde, remexera-se o suficiente para fazer escorregar até ao chão o xaile que lhe mantinha a temperatura das pernas. As feições, marcadas pelos vincos da idade, pareciam perder o foco ante a vivacidade dos olhos negros. Agitação e preocupação. Os dois “ãos” que lhe dominavam o estado de espírito nas últimas semanas.

 – Maria, já viste o lume? A mãe pediu…

Dulce deixou-a terminar as instruções, aquelas que décadas antes a mãe, uma bisavó que nunca conhecera, provavelmente lhe teria dado sobre o ofício familiar. Não valia a pena dizer-lhe que não havia nada ao lume, que nenhum dos filhos a deixava já aproximar-se da cozinha, nem que a irmã que ela chamava, Maria, há muito que tinha deixado aquele mundo.

Debruçou-se, apanhando o xaile e esticando-o novamente sobre as pernas magras, enfiadas num pijama cor-de-rosa. Como previra, a avó silenciara-se assim que Dulce se aproximara, fixando-a com uma seriedade que a enervava. Procurando por ignorar o desconforto, ajeitou-lhe a almofada nas costas e pegou no tabuleiro com a loiça suja do pequeno-almoço.

– Precisas de alguma coisa, avó?

– Malandro, ‘tás-te a fazer à preta…

Dulce mordeu o lábio. Não era a primeira vez que ouvia aquele murmúrio zangado, incompreensível para si. A mãe aventara que fosse alguma memória do passado que, por via da doença, se tornara presente na cabeça envelhecida. Talvez. Mas não cabia na imaginação de Dulce uma situação em que a avó pudesse ter dito tal coisa.

– Avó? – voltou a tentar. – Precisas…?

– Não, Maria. Não preciso de nada.

A rapariga apressou-se a sair do quarto, fugindo da visão da velha senhora que voltara a fixar o olhar no colorido do televisor. Se escutava o que a apresentadora dizia ou se ouvia apenas o som que produzia era uma dúvida que Dulce fazia por afastar de si. Qualquer que fosse a resposta, não havia solução que lhe pudesse dar.

– Não há poções para tudo – explicara a mãe, quando o estado da avó começara a tornar-se cada vez mais visível. – Nem feitiços. A morte não se engana, Dulce, é das primeiras lições que…

– Também não podemos mexer com o direito de escolha das pessoas, e vendemos poções de amor! – barafustara. – Se isso não é…

Calara-se perante o olhar de censura da mãe. Claro que as poções de amor delas não mexiam com o livre arbítrio das pessoas. O seu único efeito era levar quem as tomava a ficar mais consciente dos seus próprios sentimentos, fossem estes de amor ou não. Mas os clientes não o sabiam, e possivelmente não recorreriam a elas caso o soubessem.

– Como estava a avó? – perguntou a mãe, notando a entrada de Dulce na cozinha. Tinha os braços cobertos pela farinha que amassava, preparativos para um pão que, ainda antes da cozedura, receberia as ervas que o tornariam numa iguaria única às mulheres com dificuldades em engravidar.

Dulce pousou o tabuleiro na banca, começando a passar a loiça suja para a pia.

– Como ontem e anteontem, e antes de anteontem…

– Dulce.

A leve admoestação continha mais um pedido de paciência do que zanga.

– Voltou a dizer aquilo, mãe, não percebo.

Abriu a torneira, começando a lavar chávena, pires, copo e pratinho. A água a correr disfarçou o silêncio momentâneo.

– Algumas coisas – começou a mãe – não têm sentido para nós. Só para quem as vive.

– A avó não tem feito sentido já há algum tempo, mãe.

– Para nós, filha. Para ela, na cabeça dela, há alguma lógica, alguma lembrança…

– Que tem “’tás-te a fazer à preta”!? Oh, mãe!

O suspiro suspendeu a discussão, já gasta e repetida demasiadas vezes. Assim que colocou a loiça a secar, Dulce refugiou-se no quarto, afastada da mãe e longe da avó – desconhecendo que, no andar de cima, a velha senhora matutava na frase que tanto a desconcertava.

Imagem Eu Sou Ana

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