Os pés húmidos escorregavam nas ervas que cobriam as margens inclinadas. Quando alcançou a estrada, inspirou fundo. Ali o ar era mais seco, mais leve. Não se apercebera disso na noite anterior. Com curiosidade, observou os vilões que lhe lançavam miradas num misto de interesse e desconfiança. Não sabia o quão bem ou mal aparentado parecia, mas pelo menos não havia asco nas suas expressões. Aproveitou para criar uma ilusão mais perfeita, inspirada nas roupas que eles usavam, principalmente o calçado.

Fingindo descontracção, enfiou as mãos nos bolsos e iniciou uma caminhada ligeira. Não conseguiu evitar dar asas à própria curiosidade, observando os maneirismos e trejeitos de quem passava por si. Não eram assim tão bonitos quanto alguns povos diziam. E quanto à inteligência… também começou a duvidar disso, depois de ver passar por si um prato de sanguessugas que se contorciam.

Agora como saber quem seria a pequena Aurora? E seria assim tão pequena? A que velocidade é que aqueles seres cresceriam até à idade adulta? Certamente mais depressa do que um troll, que demorava uma centena de anos e meia até lá chegar. Só conhecera uma humana em toda a sua vida, e há demasiado tempo que não a via.

Fez o mesmo caminho que na noite passada, até à pequena casa de pedra, tão simples que se confundiria com todas as outras, não fosse um rumorejante espanta-espíritos, pendurado à janela. Esticou a mão e tocou num minúsculo mocho balouçante. Fora feito pelo mesmo homem do bastão, o mesmo que o rio levara. Sentia-lhe o frémito do poder através dos dedos. Qualquer ser maligno pensaria duas vezes antes de tentar entrar.

– Posso ajudá-lo?

Olhou para trás, erguendo as sobrancelhas perante uma humana mais baixa que ele. Na mão trazia um cesto do qual espreitava rama de cebola e cenoura e folhas de couve.

– É maior do que eu imaginava – espantou-se.

A senhora franziu as sobrancelhas perante aquela abordagem.

– Precisa de alguma coisa? – reformulou a questão. Havia uma precaução, talvez exagerada, no olhar que lhe deitava.

– Eu… – pensou em alguma coisa. – Estava a admirar a delicadeza deste trabalho. É tão bonito quanto valioso.

O sorriso que a senhora lhe lançou esboçava um agradecimento sincero, mas também uma tristeza mal escondida.

– Foi o meu marido quem o fez. Ele agradeceria muito os elogios.

– Era um bom homem – comentou Rouco, com um aceno sábio. Afinal aquela não era a filha do humano levado pelo rio.

– O senhor conhecia-o? – perguntou de súbito, as mãos agarrando melhor o cesto como se a qualquer momento lhe pudesse escorregar das mãos.

– Conheci-o. Um homem de bom espírito. Se fossem todos como ele, o mundo seria diferente. – Pensou no pouco contacto que tivera com ele e em como isso o marcara de forma estranha.

– É. – A senhora soltou um suspiro. – Quer entrar e talvez comer um pouco? Não posso expulsar assim um amigo do Santiago.

Rouco aceitou. Tinha esperança de encontrar a menina lá dentro. Inclinou ligeiramente a cabeça ao passar pela entrada baixa e lançou uma mirada em redor, incapaz de julgar se estava na casa de uma família pobre, ou não. Debaixo da ponte a sua única mobília era as pedras e alguns toros de lenha. Sentou-se numa das três cadeiras que havia em redor da mesa. Apesar de ter sido levado para o outro mundo já há tantos meses, resquícios da aura de Santiago continuavam presos em todo lado, criando uma atmosfera quase palpável, talvez sustentada pelas memórias de quem fora obrigado a deixar para trás, ou pela sua própria vontade de as proteger.

– Não temos muito – desculpou-se a senhora, levando para a mesa uma broa de milho e um pedaço de queijo cuja dureza competia com a de um golem.

– Adoro queijo – confessou, debruçando-se um pouco e inspirando aquele peculiar odor. – Há anos que não provo.

Ergueu o olhar para a senhora e descobriu que ela o fitava com uma certa estranheza e um sorriso incrédulo. Pelo menos a desconfiança desvanecera-se quase por completo.

– Ainda não sei o seu nome – notou com um sorriso amável.

Pegou numa velha faca e cortou uma grossa fatia da broa, revelando o interior amarelado.

– Rouco – respondeu, depois de ponderar se usaria ou não um nome falso.

– É… um nome peculiar – disse, dando-lhe também uma generosa talhada de queijo.

– Digamos que os meus pais adivinharam que a minha voz estaria quase permanentemente assim. E a senhora?

– Inês – disse, pousando a faca. – Como é que o senhor conheceu o meu marido?

Rouco demorou a mastigar a primeira dentada, não só para a saborear melhor, mas para ter algum tempo para pensar. Não queria mentir a uma humana tão amável. Mas se dissesse a verdade seria dado como louco, ou ela pensaria que estava a fazer chacota.

– Conheci-o na ponte. Conversámos sobre um pouco de tudo. Mas ele falou-me de uma pequena com o mesmo nome que a luz que antecede o nascer do Sol.

– A Aurora. – Baixou os olhos. Mais tristeza e preocupação. As mãos apertaram-se sobre a mesa.

– Passa-se alguma coisa com a menina?

– Não. E sim. Ela é muito especial e isso magoa-a. Não consigo ajudá-la como uma mãe deveria conseguir – murmurou.

– Tão especial quanto o Santiago? – arriscou.

A senhora mirou-o, com uma questão no olhar à qual o troll não respondeu.

– Sim, em parte. Eles eram muito chegados, o Santiago era o anjo-da-guarda dela – disse. Desviou o olhar para a janela. – Não permitia que ninguém a magoasse. Mas mudou tudo tão depressa. Como explicar isto a uma criança que não faz mal a ninguém mas é massacrada como uma pecadora?

Rouco cerrou um punho e soltou uma praga troll por entre os dentes. Era assim tão grave?

– O que foi que disse? – Inês mirou-o, curiosa.

– Nada. Ela anda sozinha por aí?

– Não a posso prender em casa. Seria pior. E não a posso levar comigo para o trabalho.

Terminou de comer o pão. A pausa alongara-se mais do que desejava.

– Já tomei muito do seu tempo, Sra. Inês – disse, levantando-se e fazendo uma breve vénia. – Agradeço esta deliciosa refeição. E penso que, por isto, fico em dívida para consigo. – A decisão era súbita, contudo alguma coisa lhe dizia que tinha de lhe contar. – Então vou dizer-lhe uma coisa. O Santiago não morreu afogado. O rio levou-lhe a alma, mas não o assassinou. Caso contrário eu tê-lo-ia salvo.

Inês levantou-se de um salto. O sangue fugiu-lhe do rosto e o corpo começou a tremer como se tivesse sido envolvido por um frio glacial.

– O quê? O que quer dizer com isso? – Deu a volta à mesa para o encarar de perto, uma cabeça abaixo da dele.

– Foi cicuta – murmurou. – Não pude fazer nada.

– Como é que sabe isso? – As mãos enclavinharam-se na camisa dele. – O que fazia no rio? Diga-me, por Deus! Quem é que o matou?

Rouco suspirou ao ver os olhos da mulher alagarem-se.

– Conheço os sintomas, mas não sei quem, nem como foi – murmurou, pousando as mãos sobre as dela. Eram tão quentes, comparadas com as suas. – E mesmo que soubesse, talvez não dissesse. A senhora ainda cometeria alguma loucura.

– O meu Santiago – murmurou, as mãos soltando-se, trémulas, para as levar até ao rosto. – Quem…

– Sabê-lo não mudará nada – notou Rouco. – Ame a sua memória.

Ela abanou a cabeça, perturbada, e recuou até à cadeira, as pernas tremendo como varas verdes. Rouco hesitou, mirando aquele pobre ser soluçante. De súbito parecia tão frágil, tão fácil de ser magoada. Levou um joelho ao chão, junto aos pés dela, e tomou-lhe uma mão na sua.

– Ele não suportaria vê-la chorar – notou. – Por favor, lembre-se disso. Esteja onde estiver, ele continua a amá-las do fundo do coração.

O pranto de Inês desvaneceu-se aos poucos, mas Rouco duvidou que fosse graças às suas palavras. O rosto dela exibia uma nova determinação, quando o acompanhou à porta e forçou um sorriso trémulo. Contudo reconheceu-lhe uma fracção de cautela no olhar, ao fechar-lhe a porta.

Partiu de coração pesado e lançou uma última mirada ao espanta-espíritos. Os pequenos objectos entrechocaram-se, provocando um som que lhe arrepiou os braços. Não havia sequer uma brisa no ar.

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