As pálpebras abriram-se de súbito. Ao seu lado a respiração de Alli era regular e leve. A cadela não ouvira nada. Aurora deixou-se ficar muito quieta na escuridão, ouvindo o seu próprio coração a marcar o tempo. E surgiu outra vez, o ruído de um passo húmido, do lado de lá das portadas da janela. Encolheu-se, assustada. Os passos afastaram-se e voltaram a aproximar-se, como se rondassem aquela zona. Depois pararam, antes de recomeçarem, para se afastarem gradualmente e desaparecerem na noite. Ficou à espera durante muitas batidas de coração. Contudo, os passos não regressaram.

Ao pequeno-almoço, Aurora preparava-se para dar uma dentada na maçã que D. Alice lhe oferecera, quando a mãe a chamou à porta. Levantou-se com uma certa cautela e parou à soleira, aguardando.

– Isto estava aqui fora – disse, entregando-lhe um objecto.

Sob a venda, os olhos da menina escancararam-se. As mãos deslizaram ao longo da madeira húmida, sentindo os nós e as formas gravadas com tanto cuidado e detalhe.

– O bastão do pai – murmurou, encostando o cajado ao peito.

– Parece que algum amigo o veio devolver – disse a mãe, afagando-lhe o cabelo. – Eles existem.

Aurora não sabia se era amigo, ou não, mas desconfiava de quem poderia ter sido o benfeitor.

Depois de ter limpo impecavelmente o bastão, livrando-o de qualquer partícula de lama, areia ou limos, saiu com a maçã guardada no bolso do pequeno avental que trazia à cintura. As pessoas que a viam afastavam-se para lhe dar passagem; as que escutavam a ponta de madeira a bater nas pedras levantavam a cabeça e procuravam-na.

Seguida de perto por Alli, Aurora encaminhou-se para a ponte. Parou a meio da travessia e aproximou-se da beira. Hesitou um pouco, segurando a maçã. Escutou o Rio Moura correr ligeiro e fresco. Não havia mais ninguém a dirigir-se para ali naquele instante.

– Muito obrigada por ter salvo o cajado do meu pai – disse, a voz tremendo. Se alguém a ouvisse, teriam outra razão para a atormentar. – Trago um presente de agradecimento. Cheira muito bem, espero que goste.

Estendeu a mão para além da ponte e deixou a maçã cair. Esperou, esperou e esperou. Não se escutou qualquer impacto com a água.

– Bom apetite – desejou, antes de recuar.

Alli observava a dona com uma certa curiosidade, perguntando-se porque estaria ela a atirar comida ao rio.

Sob o arco de pedra e musgo, sentado numa almofada de erva fofa, o troll mirou a oferenda que lhe fora entregue. De um vermelho mais ténue que o sangue, o seu perfume era irresistível. Cravou-lhe os incisivos e arrancou quase metade do fruto. Sorveu as gotas de sumo que tentavam escapar. Estava demasiado farto de peixe cru, raízes com sabor a terra e cogumelos que lhe davam dores de barriga e faziam os aldeões queixarem-se do cheiro do rio em certos dias da semana. Não desperdiçaria aquela dádiva tão amável. Por isso, não sobrou sequer o caroço. Lambeu os lábios finos e recostou-se na pedra fria com um suspiro. Há muitos anos que não era brindado por um toque de generosidade. A sua guarda fora quase sempre solitária.

Uma pedra precipitou-se lá de cima e afundou-se no rio. Aquelas eram as únicas visitas que por vezes tinha.

Deslizou para o interior da água e procurou o seixo que caíra. Mal os dedos roçaram na sua superfície, a vibração do objecto tocou-lhe os sentidos. Retirou-a da corrente e deixou que a água escorresse, com um sorriso.

– Voltamos a encontrar-nos, velho amigo – falou, num tom rouco de desuso.

Na sua mão a pedra estalou. Os sulcos alisaram-se lateralmente e aprofundaram-se no centro, formando uma pequena concavidade negra.

– Aind’aqui estás, ó fim de tantos anos, Rouco? … Ond’é qu’estamos mesmo? – A voz que a pedra libertou arranhava os ouvidos.

– Em Avô. E sim, estou. Prende-me o dever e uma promessa celebrada na presença da Morte. – Desviou o olhar para um peixe que passou fugaz entre os seus pés. – E sabes que Ela nos vem buscar, se não for cumprida.

– E a tua é assim tã comprida? Muitos meses?

Rouco piscou os olhos. Parecia que o amigo confundira as palavras. Uma cabeça de pedra seria sempre uma cabeça de pedra.

– Não sei bem. Só ontem comecei a tentar cumpri-la.

A boca da pedra contorceu-se num esgar desagradado.

– Boa sorte é o que te desejo. Talvez da próxima nos’encontremos no Outro Mundo – declarou. – Se p’lo menos conseguir rebolar até lá. Atira-me com força, pr’ó mais longe possível da água. A erosão faz-me comichão.

Rouco deixou escapar uma gargalhada animada.

– Vou atirar. Preparado?

O pedaço de golem cerrou os lábios, provocando um ruído de pedra a raspar em pedra. O troll deu balanço ao braço e arremessou-o. O seixo cruzou o ar como uma flecha, perdendo-se muito além, entre os pinheiros e os fetos que cercavam a vila. Suspirou e voltou ao seu acento, deixando o queixo repousar na enorme mão.

Como cuidar dela? Como era possível um troll cuidar de uma cria humana? Não era como se conseguisse passar despercebido entre os humanos, não tão facilmente. E depois havia o seu posto que deveria ser guardado. Se se ausentasse demasiado, algo terrível poderia acontecer. Promessa e dever. A escolha parecia difícil, mas não o era.

Mirou o arco sob o qual se resguardava, feito de pedras enegrecidas pela humidade, e não só. Semicerrou as pálpebras e tentou perceber se os padrões de manchas tinham mudado. Contudo pareciam-lhe imutáveis, como haviam estado desde há centenas de anos, guardião após guardião.

Inspirou fundo e tomou uma decisão. As costas ligeiramente corcundas endireitaram-se, os olhos arredondados e de um tom violeta tornaram-se castanhos e mais oblíquos, afastando-se um do outro em relação às proporções faciais. Braços e pernas encurtaram-se, a pele suavizou-se e aclarou, até parecer curtida pelo sol e não de um verde pantanoso. Ninguém diria que era um troll. Só o veriam como mais um desconhecido.

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