Abel arregalou os olhos e correu para a beira da ponte de pedra. Pôs-se em bicos de pés e apoiou os braços no parapeito, espreitando lá para baixo. O sol reflectia-se nos seus cabelos ruivos, lembrando labaredas de fogo vivo.

Tinha a certeza que ouvira o chapinhar do troll, com os seus pezorrões com mais de um metro. Todos o sabiam enorme e feio, apesar de nunca o terem visto, mas ele estava sempre lá. Durante as suas explorações, Abel e os amigos já tinham encontrado pegadas. Claro que os adultos desdenhavam e diziam logo que não passavam das marcas deixadas pelo Rio Moura. Mas o que sabiam eles de monstros?

Inspirou fundo e conteve a respiração, antes de atirar uma pedra lá para baixo. O objecto perfurou a corrente e foi engolido. Aguardou, de sobrancelhas franzidas, expectante, mas nada mais aconteceu. O rapazinho fez uma careta e desistiu da ideia de perturbar o troll da Vila de Avô. Então, ao olhar para o outro lado da ponte, deixou que um sorriso maldoso lhe tomasse conta do rosto. Afinal, podia gastar o seu tempo livre com um alvo mais fácil.

Pegou numa segunda pedra e caminhou pela estrada, tentando não fazer muito barulho. No entanto, a cadelita rafeira, pressentindo-lhe as intenções, arreganhou-lhe os dentes e rosnou do fundo da garganta, numa ameaça.

– Alli? O que se passa? – perguntou a dona, um passo atrás dela.

Dentro de um vestido cheio de remendos, a menina não tinha mais de sete anos. Rodou a cabeça de um lado para o outro, tentando perceber de onde vinha a ameaça que a companheira detectara. A venda que lhe cobria os olhos e a cegueira que vivia neles impediam-na de enxergar fosse o que fosse. Mas a sua audição era poderosa. Crispou a mão no cajado nodoso e cerrou os dentes, enquanto as narinas se dilatavam. O seu olfacto era ainda melhor para detectar rapazinhos que não tomavam banho há mais de um mês. Banhos eram acontecimentos especiais naquela época em que tudo cheirava mal.

Abel deu balanço ao braço e, pouco depois, a cadela soltou um ganido quando a pedra lhe atingiu o pêlo revolto. No entanto, corajosa, não saiu de entre a dona e o rapaz.

– Cão pulguento, um dia fazemos-te a folha, a ti e à tua zarolha…

– Deixa-a em paz! – Apontou-lhe o cajado, como se de uma arma se tratasse. – Não lhe voltes a tocar.

– Ou o quê? – O rapaz riu-se. – Vais bater-me, é? Ou vais chamar a nova rainha? Ou fazer a terra tremer como contam os velhos que aconteceu? Uuh!

A menina conteve as palavras, engolindo a resposta para não piorar a situação.

– Anda, Alli. Vamos para casa – disse, retomando o seu caminho com passos cuidadosos, enquanto a ponta do cajado explorava o caminho à sua frente.

Abel observou-a, com um esgar de desdenho, deixando-a passar na direcção da ponte. Quando ia já a meio da travessia, precipitou-se na direcção dela, e nem a cadela o conseguiu impedir de lhe saltar em cima. Por um instante o corpo da menina oscilou, antes de cair para a frente quase esmagada pelo peso do rapaz.

Ele rebolou de cima dela com uma gargalhada e ergueu-se de um salto. Para finalizar a sua maldade, deu balanço ao pé e pontapeou-lhe o bastão para fora do alcance. O apoio da menina embateu no muro da ponte, onde se deteve. Os olhos de Abel brilharam. Vê-lo ali dera-lhe uma outra ideia. Pegou no bastão e sopesou-o nas mãos sujas.

– Foi o teu pai que o fez, não foi? Assim todo torto, como a perna dele – comentou, observando os entalhes na madeira, que ao longe passavam despercebidos. Pequenos esquilos, pardais de asas abertas, mochos de olhos grandes, cascas de caracóis, borboletas e, no topo, um sol de raios ondulantes. – Que lhe faça companhia.

Esticou os braços por cima do rio e abriu as mãos, deixando-o cair para além da ponte.

A menina estremeceu ao escutar o impacto com a água. Alli gania, andando à volta da dona, tocando-lhe com o focinho numa tentativa de a ajudar a levantar, mas ficando cada vez mais nervosa ao perceber que ela não se erguia.

Feliz consigo mesmo, Abel seguiu caminho, de andar gingão.

Muito devagarinho, a menina sentou-se. Flectiu um pouco as mãos, cuja pele esfolada ardeu ainda mais. Os joelhos também se queixaram, estremecendo em ameaça, quando se ergueu com dificuldade. O tecido da venda começava a escurecer, ensopado em lágrimas quentes. Numa tentativa de conter o tremelicar do lábio inferior, ela mordeu-o. Não permitiria que a vissem chorar, por mais magoado que o corpo estivesse. Preferia que o grande terramoto voltasse e a engolisse.

Cambaleou até chocar com o muro da ponte e ficou ali, voltada para o rio, tentando controlar-se.

– Senhor Troll, devolva-me o meu cajado, por favor – pediu, num tom tão fraco que a própria água falava mais alto com os seus gorgolejos que desciam o leito pedregoso. – É muito importante para mim.

A única resposta que teve foi a da sua cadelinha que ganiu, preocupada com o cheiro a sangue que farejava na amiga. Mais uma vez, tocou-lhe com a cabeça na perna, incitando-a a sair dali, antes que o rapaz mau voltasse.

Muito devagar, a menina arrastou os pés na direcção da fonte que havia a poucos metros de distância. Quando o pé que estava atrás tentou deixar a última pedra da ponte, uma força invisível, de toque álgido, rodeou-lhe o calcanhar, prendendo-o. O sangue gelou-lhe nas veias. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, no entanto era sempre apavorante. Sussurrou meia dúzia de palavras – fora o pai que lhas ensinara, para se livrar daquilo. Quando a força enfraqueceu o suficiente, puxou o pé. Um suspiro libertou-se, ao sentir-se em segurança.

Com um gemido, lavou as mãos na água fresca, antes de arregaçar as mangas. Também os braços tinham ficado feridos. Por último, lavou os joelhos. Alli observou-lhe cada um dos gestos, e tentou ajudar com umas lambidelas, porém a dona enxotou-a com palavras meigas, acabando a sua tarefa. Deixou cair a saia e escutou as conversas em seu redor, os passos que iam e vinham.

– Bom dia, pequena Aurora.

Esboçou um sorriso fraco ao voltar-se, e escondeu as mãos atrás das costas.

– Bom dia, dona Alice – cumprimentou.

– Não precisas de escondê-las. Foram outra vez aqueles gaiatos do diabo, não foram?

Em resposta, a pequena baixou a cabeça. Os dentes voltaram a mordiscar o lábio inferior.

A velhota deixou escapar um suspiro pesado.

 – Deixa-me ver.

Muito hesitante, Aurora esticou as mãos cujos dedos pequenos tremiam como se temessem novas agressões. D. Alice pegou nelas com cuidado, voltando-lhe as palmas para cima com as suas mãos encarquilhadas pelo Tempo. Observou-as, enquanto as sobrancelhas se franziam até quase se unirem a meio da testa.

– Vejo um amigo – murmurou tão baixo que só Aurora a ouviria. – Um amigo que te será muito querido e que nunca te esquecerá, passem cem ou mil anos.

Alli soltou um latido para lembrá-las de que estava ali e abanou a cauda.

– Já tenho – murmurou a menina, baixando-se e dando uma festa na cabeça da cadelinha com as costas da mão.

A velhota observou-as sem comentar que a cadelinha não duraria cem, quanto mais mil anos.

– Anda até minha casa, querida. Para tratar esses arranhões.

A menina foi, guiada pelo braço, subindo calçada acima até uma casinha de uma só divisão. À porta e sobre o parapeito da única janela, empoleiravam-se vários vasos, dos quais Aurora sentia o perfume a alecrim, arnica e carqueja. Lá dentro, a velhota sentou-a num banco que oscilou, ameaçando atirá-la ao chão.

Tratou-lhe das feridas com uma pasta fresca, com perfume a hortelã. Ardia, mas ao mesmo tempo era de alguma forma calmante. Ligou-lhe as mãos com trapos velhos mas limpos e ofereceu-lhe uma maçã rechonchuda para quando tivesse fome. Por último, levou-a a casa, deixando-a nas mãos da mãe que, pelo trejeito dos lábios da filha, adivinhou o que voltara a acontecer.

– Oh, Aurora – murmurou, envolvendo-a com os braços e apertando-a contra si. A menina ficou muito quieta, engolindo em seco para não recomeçar a chorar.

Só lá dentro, no resguardo do lar, é que escondeu o rosto contra o peito da mãe e deixou que as lágrimas brotassem, livres da contenção, livres da venda. Quando deixaram de correr, ela levantou o olhar díspar para a mãe. Um dos orbes era cor de âmbar, o outro de um azul cujo tom parecia oscilar como as vagas do mar. O primeiro olho era incapaz de ver; o azul via e não via, porque o que ele distinguia mais ninguém era capaz de ver, e o que não via todos viam. Perante si, Aurora era incapaz de enxergar a preocupação da mãe. Porém, via a sua aura, uma entidade amorfa que se remexia, instável, nervosa, inquietada.

– Porque é que, na Vila, ninguém gosta de mim? Porque é que não tenho amigos? – sussurrou.

A mãe levou-lhe ambas as mãos ao rosto. Arranharam-lhe a pele com a aspereza a que o trabalho as confinara, no entanto eram quentes e cheias de carinho.

– Eu amo-te mais que tudo, amor. E sou muito tua amiga, tal como a D. Alice e outras pessoas. Só que alguns não conseguem compreender que és especial. Jesus Cristo também era especial, mas havia muitas pessoas que não gostavam dele.

Os lábios de Aurora tremeram.

– Eu não quero ser pregada, não, por favor…

– Não serás. – Encostou a fronte à dela. – Mas o teu dom tem de continuar um segredo só nosso, nunca te esqueças.

Assentiu. Nunca quebraria essa promessa, nunca contaria, nunca mostraria os seus olhos, nunca deixaria que lhe chamassem bruxa.

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