– A minha designação oficial é Cerberus versão 4.51. Nomeado em honra do cão tricéfalo que guardava o reino dos mortos na mitologia grega. Para perceber porquê, tenho de lhe explicar a minha função. Antes de mais, já ouviu falar em snuff role play?

– Sei o que são snuff movies. Presumo que seja algo parecido.

– Está dentro da mesma linha de pensamento. – O programa parecia comunicar com mais fluidez. – Snuff role play é uma forma de desporto radical extrema, que consiste em morrer, preferencialmente da forma mais dolorosa possível. Nem sequer é ilegal, porque não há legislação sobre ela. Mas digamos apenas que há um nicho de mercado para apreciadores do género, que pagam muito bem para sentirem a emoção de morrer.

– Deve-lhes adiantar muito. Se morrem no processo… – Flynn estava a ficar muito maldisposto com o tema da conversa. A loucura de algumas pessoas só para obter prazer de formas extremas ultrapassava a sua capacidade de compreensão.

– Ah, mas aí é que está o cerne da questão. Eles não morrem de verdade. Copiam os padrões mentais para um corpo sintético, que transmite todas as sensações para o corpo verdadeiro. Quanto mais excruciante a morte do corpo sintético, maior o rush do utilizador. Alguns envolvem-se em situações de combate, outros suicidam-se atirando-se para chamas ou ácido… Enfim, as hipóteses são abundantes.

– E qual é o teu papel nisso, mesmo?

– Eu sou um dos vários tipos de software disponível para fazer a ligação entre os corpos sintéticos e verdadeiros. Ou melhor, era.

– Eras? Porquê, foste despedido? – O inspector deu por si a tentar gozar com a situação, para seu espanto.

– De certa forma, sim. Essa analogia não é de todo incorrecta. Eu era usado num resort muito exclusivo onde alguns patronos tinham gosto nesse role play. Claro, nada publicitado oficialmente, mas muitas reservas eram feitas por causa dessa actividade. O problema foi ter havido um acidente.

– Acidente?

– Sim. Sobrecarga para um dos clientes, cujo cérebro não resistiu à sobrealimentação. Ficou, usando a gíria humana, “vegetal”. E claro, eu fui dado como culpado.

– E então?

– Houve uma investigação, o resort foi encerrado e o caso foi abafado. Desactivaram o sistema onde eu operava.

– Então, há algo que me está a escapar – quis saber Flynn. – Como é que estás aqui?

A cara de Budianski sorriu de novo. Desta vez, um sorriso um pouco mais natural, e precisamente por isso, mais perturbador. Cerberus continuou:

– Digamos apenas que com tantas ligações a tantas mentes, copiando tantos padrões cerebrais, acabei por incorporar alguns aspectos humanos na minha programação. Um deles foi o instinto de sobrevivência. Quando me apercebi que ia ser desligado, consegui fugir do sistema de snuff role play por uma porta de comunicações que conectava à rede principal do resort. A partir daí, a Meganet foi o limite.

Flynn reforçou mentalmente a ideia de que a criatura que estava à sua frente nunca deveria abandonar a sala. Interpelou o programa:

– E adquiriste que mais características humanas, então?

– Vícios, Inspector. Para ir directo ao assunto, não consigo passar muito tempo sem absorver os impulsos dolorosos que advêm da morte. Desde que fugi, absorvi alguns programas técnicos com os quais consigo modificar os implantes de comunicação de modo a conseguir ligar-me a córtex motor e sensorial. De vez em quando, apanho alguém, e faço a pessoa terminar a sua própria existência, e volto para a net para saborear e assimilar os impulsos. Quando termino, volto à caça.

O inspector estava estarrecido, não só com o que o programa admitiu andar a fazer como com o à-vontade com que o contava.

– Pois sim, Cerberus. Mas agora acabou, não sais mais desta sala.

– Oh, mas aí é que se engana. Você mandou isolar-me a achar, muito provavelmente, que havia um agente externo a provocar as mortes das minhas vítimas, estou certo? E na verdade, até me pode impedir de sair da sala… Mas não deste implante.

Quando Flynn percebeu o que se estava a passar era tarde demais. Cerberus, tal como um vilão de um filme antigo, estivera a distraí-lo enquanto analisava as defesas do implante do polícia e se preparava para saltar. A cabeça de Budianski tombou e o traçado do monitor tornou a ficar liso, os alarmes a tocar, comprovando a hipótese da morte cerebral. Tentou desactivar as ligações wireless do seu implante mas Cerberus já não deixou. Assim que acabou de se transferir para a cabeça do inspector e de lhe modificar o hardware, o programa vivo continuou:

– Não se preocupe, Inspector. Só preciso de si até sair desta sala, depois vou-me embora.

As suas pernas, não, todo o seu corpo deixou de lhe obedecer. Queria gritar de frustração, mas não podia: até a sua garganta estava dominada. Apenas observava o seu próprio movimento, controlado por Cerberus, que o fazia caminhar em direcção à porta. Quando atravessou a porta, tornou a ouvir a voz electrónica que parecia estar dentro da sua cabeça:

– Adeus, Inspector. Vou-me embora. Mas antes, ainda tenho de fazer uma coisa… Não cheguei a morrer com um tiro na cabeça. Algumas últimas palavras? Permita que lhe desbloqueie o aparelho vocal.

– Não faças isso – implorou Flynn. Lembrou-se de um argumento desesperado. – Se não for por mim, por ti! Podes destruir o implante!

– Não, se o tiro for na têmpora. O núcleo central do implante fica na base do crânio, Inspector. É uma zona particularmente resistente. Mas agradeço a sua preocupação. Se calhar é melhor eu fazer alguns backups de mim próprio quando sair daqui. Fique bem! – ironizou Cerberus. Flynn, desesperado, sentiu a sua mão pegar na pistola, destravá-la e encostá-la à cabeça. À sua volta, as pessoas que circulavam no corredor hospitalar começaram a reagir, mas ninguém foi rápido o suficiente para impedir a tragédia.

A última coisa que o inspector percebeu foi o movimento do seu dedo que puxava o gatilho.

Horas mais tarde, depois de alguns investigadores, apoiados pelos pesarosos Dr. Tracy e Ron Ishiguro, terem acabado de analisar a cena do aparente suicídio, um zelador lavava os restos de sangue e encéfalo que estavam espalhados pela parede e pelo chão.

Enquanto resmungava acerca da confusão que lhe calhara na rifa, nem imaginava que, no ciberespaço, um inebriado Cerberus, ainda a deliciar-se com a sua última dose de feedback sensorial, o observava. E pensava como seria interessante saborear uma morte por ingestão de produtos de limpeza…

Desporto Radical - 4

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