Um sobrevivente! Era fundamental conservá-lo longe de perigo a todo o custo. Flynn ordenou de imediato:

– Diga ao seu colega que ele tem de ficar numa sala com isolamento que impeça qualquer acesso wireless aos implantes. Sabe se ele está capaz de falar? Também não importa, vou é já para lá, avise-os que estou a caminho.

Correu para o carro, ligou o sistema maglev e arrancou em direcção ao hospital.

Pelo caminho manteve-se em contacto com Tracy e Ishiguro.

– Se puder, Inpector Flynn, peça para fazerem uma imagem intracraniana do sujeito. Para confirmar se o implante se expandiu como os outros – sugeriu o inspector-assistente. – Vou reunir algum equipamento e também vou para o Hospital, se for o caso. Como a vítima sobreviveu, pode ser que o software ainda esteja activo!

– Eu peço ao meu colega que trate do estudo de imagem – ofereceu-se Tracy. – E alguns exames neurológicos, também. Temos que ter a situação bem caracterizada.

– Muito bem – respondeu Flynn. – Já agora, sabemos em que consistiu a chamada tentativa de suicídio?

– Parece que é um segurança privado duma fábrica. Estava a receber uns clientes na entrada quando ficou “esquisito”. Começou a implorar pela vida, sacou da sua arma e encostou-a à cabeça. Aparentemente, um dos espectadores teve presença de espírito suficiente para lhe tentar tirar a arma e quando disparou, o projéctil não penetrou completamente no crânio. Inspector, o meu colega já está à sua espera, e colocou o indivíduo numa sala que isola sinais de acesso remoto, como pediu. Quando chegar pergunte pelo Dr. Foley.

Minutos depois, Flynn estava à entrada do Hospital Distrital.

Foley veio ter com ele e, após as apresentações, informou:

– O indivíduo está na ala psiquiátrica, colocámo-lo na sala onde isolamos os esquizofrénicos que estão à espera de remoção do implante. É perfeitamente segura em termos de impedimento de sinal, afinal, não convém que os psicóticos delirantes tenham acesso à Meganet, certo?

– Sim, sim – respondeu, impaciente, Flynn. – Ele já está a ser submetido a exames? E qual é o estado dele?

– A Dr.ª Circecraft da Neurologia está a avaliá-lo. Ele parece não estar a dizer coisa com coisa. Diz frases sem sentido, mas está consciente. Duvido que consiga, neste momento, alguma informação pertinente vinda dele.

– Posso ir vê-lo?

– Se quiser.

Foram para a sala de isolamento. O inspector deparou-se com um cenário um tanto deprimente: uma cama com um brutamontes semi-inconsciente, com um enorme penso na têmpora direita, a balbuciar algo ininteligível. Uma médica com aspecto de quarentona estava a analisar uns traçados num monitor ligado à cabeça do sujeito, tendo Flynn deduzido que se tratava da Dr.ª Circecraft.

– Ah, Inspector. Bem-vindo. Estava a efectuar agora um electroencefalograma ao Sr. Budianski.

– Olá, Doutora. É esse o nome do sujeito?

– Sim. O exame até este momento não revelou nada que não fosse de esperar em alguém que levou um tiro na cabeça. O projéctil já foi removido, agora temos que monitorizar o estado dele. Receio que, com os ferimentos, tão cedo ele não lhe vá dizer nada. De qualquer forma, disseram que você é dos homicídios? É que o caso deu entrada como tentativa de suicídio.

– É complicado, Doutora. Não quero parecer desrespeitoso, mas não lhe posso adiantar muito para já.

– Talvez pudesse ajudar mais se não fosse tão secretista – resmungou a médica. – Mas o senhor é que sabe. Tenho que ir ver mais alguns doentes. Vou deixar a monitorizar e volto mais tarde. Pode ficar aqui, se quiser, mas duvido que adiante muito. Mande-me chamar se precisar de mim.

– Ok, assim farei – respondeu Flynn, aborrecido com a atitude dela, mas reconhecendo-lhe alguma razão. Talvez devesse inteirá-la melhor do acontecido, afinal, estava a reter informação mais por instinto que por outra coisa. Ela estava obrigada a segredo médico e se necessário a segredo de justiça, no fim de contas. Resolveu que lhe ia apresentar a teoria rebuscada dos seus associados quando ela voltasse.

Ficou a olhar para Budianski, que gemia baixinho. O monitor mostrava um traçado que, sem dúvida, para os médicos, teria algum significado, mas que ao inspector nada dizia. De repente, o ferido calou-se e o traçado ficou liso. O monitor apitou e Flynn ia chamar ajuda quando de repente o traçado voltou e o alarme se silenciou. Parecia ter um padrão diferente, mas diabos levassem o investigador se conseguia perceber o que se passava.

– Inspector – disse Budianski, num tom monocórdico. Flynn sobressaltou-se:

– Budianski? Você está acordado?

– Não. Não sou o Budianski – respondeu o outro no mesmo tom. – Receio que o Budianski não esteja disponível.

– Deixe-se de brincadeiras, homem. Você deu um tiro na cabeça e só não morreu porque o sujeito que estava à sua frente tentou tirar-lhe a arma. Ou não se lembra?

– É verdade que este corpo disparou contra a sua própria cabeça, Inspector, e que fui eu que puxei o gatilho. Não registei os detalhes, o impacto e a lesão deram-me feedback a mais e fiquei temporariamente inactivo. Acontece, por vezes, com as lesões encefálicas, o traumatismo abala todo o implante e provoca disrupção temporária da rede ciberneuronal. Mas já estou funcional de novo. – Flynn ficou com os cabelos em pé a ouvir isto. Arriscou um palpite:

– Estou a falar com o programa no implante, é isso?

O rosto de Budianski esboçou um esgar que talvez pretendesse ser um sorriso:

– Sim, Inspector. Sei que andava à minha procura há uns dias. Não considerei que me fosse apanhar. E tudo por um factor aleatório, como a intromissão do indivíduo que tentou salvar este corpo.

– Falas de “este corpo” como se Budianski tivesse morrido. Foi isso, não resistiu aos ferimentos?

– O indivíduo Budianski entrou em coma profundo. Isso permitiu-me assumir o controlo do corpo dele mais facilmente. Não que não o conseguisse mesmo com ele consciente, mas deste modo o controlo é maior. Embora eu acredite que, se soltar o controlo sobre ele, ele entre em morte cerebral.

– Muito bem, deixa-te de charadas! – ordenou Flynn. – Mas afinal quem és tu? Ou melhor, o que és tu?

– Relaxe, Inspector. – O programa parecia estar a começar a dominar a capacidade de usar entoações. – Eu conto-lhe a história toda.

Desporto Radical - 3

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