Flynn ficou em silêncio alguns segundos a ponderar as implicações do que o médico legista dizia.

– Comandar alguém por controlo remoto, por assim dizer, Doc? Impossível. Os implantes não dão acesso a movimentos, só a informação. São canais de comunicação, mais nada. Qualquer miúdo sabe disso. As histórias do “mestre dos fantoches via Meganet” são apenas um mito urbano.

– Talvez. É verdade que os implantes não estão ligados aos centros motores do encéfalo, ou seja, à parte do cérebro que controla os movimentos, mas para receberem informação estão directamente ligados aos centros de cognição… E se alguém conseguiu implantar a ideia de se matarem?

– O quê, tipo vírus informático? Supostamente os implantes têm defesas contra isso. Aliás, é uma das garantias que os fabricantes dão, se não começava toda a gente a querer tirá-los.

– Disse bem, Inspector. Supostamente. Talvez alguém tenha conseguido criar um programa suficientemente bom para penetrar essas defesas e também para alterar os processos de pensamento das vítimas.

– Não sei, Doc. Parece-me uma enormidade, mesmo não sendo informático. E ainda que isso acontecesse, elas pareciam assustadas, pelo menos foi o que você me disse. Não pareciam muito persuadidas nem satisfeitas com o conceito de se finarem.

– Talvez o processo actuasse num nível mais profundo e não lhes diminuísse a percepção do que se estava a passar. Admito, Inspector, que estou a especular nesta troca de ideias. É precisamente por isso que precisava que alguém mais qualificado que eu nessa área examinasse os implantes.

– Considere-o feito, Doc – concordou Flynn. – Só tem de os enviar para a central da polícia, e eu próprio me asseguro que são encaminhados para alguém de confiança. E, nem é preciso dizer, para já isto fica entre nós os dois. Não vale a pena incomodar gente melindrosa, como um certo inspector muito preguiçoso que trabalha nos suicídios… – rematou, com uma piscadela de olho.

– Agradeço o cuidado, Inspector. Fico bem mais tranquilo.

Flynn deixou o médico entregue ao seu serviço. No dia seguinte recebeu os implantes e pôs Ron Ishiguro, inspector-assistente dos ciber-crimes, a analisá-los; o puto era discreto e muito bom no que fazia. O inspector, contudo, não parava de pensar na conversa que tivera na véspera. Alguém a controlar outra pessoa através de comunicação remota? Se isso fosse exequível, seria o caos. A conversa com o seu colega sobre a possibilidade de manipular alguém via implante não o sossegou: Ron dissera-lhe que, pelo menos na teoria, era possível, se bem que o tipo de programação envolvido estaria, tecnicamente, muito à frente de tudo aquilo que conhecia.

Resolveu fazer uma investigação acessória.

Dirigiu-se ao seu gabinete, onde tinha o terminal de acesso físico à Meganet. O terminal, que mais parecia uma tiara, permitia ligação directa à rede sem ser através do acesso wireless convencional. Na prática, usava-o quando queria um acesso seguro a níveis mais insalubres da net, já que o equipamento tinha sistemas de segurança extra, especialmente no que respeitava a protecção de identidade. Ou seja, era o seu passaporte para o submundo digital.

Colocou o terminal na cabeça e mergulhou.

No ciberespaço, o seu avatar de investigação tinha o aspecto de um cão de desenhos animados que vira numas reposições na holoTV; não se lembrava do nome, mas era o comparsa de um vilão de algumas séries, que costumava rir-se a troçar do patrão apenas para levar um murro na cabeça por parte do dono, ficando a resmungar.

O avatar era óptimo: sendo o personagem que era, ninguém o levava muito a sério, o que facilitava deslizes por parte de potenciais informadores mais quezilentos.

Mesmo assim, nas horas que se seguiram, de pouco lhe valeu. Ninguém ouvira falar, tomara conhecimento ou tinha informação útil que quisesse partilhar. Sempre que abordava o tema de um mestre de fantoches recebia, na melhor das hipóteses, uma negação condescendente.

O mais frequente, contudo, era gozarem com ele e mandarem-no dar uma volta.

Nos dias que se seguiram repetiu o procedimento, sempre com o mesmo resultado: nada. Apenas um dos seus contactos habituais lhe forneceu uma pseudopista.

Encontrou “Rasputin”, o avatar de um sujeito que não sabia quem era no mundo real, mas que suspeitava tratar-se de um tipo com os cinco alqueires mal medidos, tendo em conta o seu discurso habitual.

Rasputin falou-lhe de um “fantasma na máquina” que tinha andado a rondar os servidores locais, procurando vítimas para saciar a sua fome de morte, uma monstruosidade que era um avatar sem correspondente no mundo real. Quando Flynn lhe perguntou como era possível, e quis saber se não seria um programa patrulha ou outro tipo de inteligência artificial, Rasputin continuou a insistir no conceito de programa-fantasma assassino.

Flynn guardou os registos da conversa, mas não pensou muito mais no assunto; as conversas com Rasputin, embora muitas vezes o ajudassem a encontrar pistas, na maioria dos casos não passavam de devaneios sem qualquer tradução realista. Embora, pensou, talvez pudesse ter algo a ver com um eventual software usado para invadir a mente das vítimas.

Se calhar, não era má ideia discutir essa hipótese com o Doc Tracy e com o Ishiguro.

Saiu do ciber-espaço e desligou o equipamento.

Quedou-se na semi-escuridão do gabinete a pensar na teoria do médico-legista e em todas as suas implicações. Se alguém conseguisse, de facto, usar os implantes de ligação para se infiltrar na mente de outra pessoa e, pior que isso, alterar a sua vontade ou mesmo controlar directamente os seus movimentos, então seria o fim do mundo como o conheciam. Toda essa tecnologia era aceite com base na premissa que tais invasões eram impossíveis e que o sistema era seguro. Se tal não fosse, toda essa tecnologia teria de ser rejeitada e a sociedade daria um passo de gigante, mas para trás. Por outro lado, talvez tal não fosse mau de todo…

Uma chamada de Ron interrompeu as suas cogitações.

– Olá, Inspector Flynn – começou. – Estou com o Dr. Tracy no necrotério e temos uma coisa para lhe mostrar. Pode vir cá?

– Estou a caminho. Até já, Ron.

Passada meia hora, estavam reunidos no gabinete do médico.

– Eu e o doutor estivemos a comparar notas e resultados e fizemos um esquema para lhe mostrar os achados. – Ligou um projector holográfico que mostrava um esquema de três encéfalos apetrechados com o que Flynn reconheceu como implantes de comunicação, mas parecendo maiores que a ideia que tinha deles. O ciber-especialista continuou:

– A análise dos implantes mostrou uma coisa perturbadora, Inspector. Aparentemente, os mesmos proliferaram. Cresceram, se preferir.

– Como assim? – protestou Flynn – Implantes não crescem, Ron. Não são seres vivos!

– Estes cresceram. Os implantes actuais têm, de origem, um conjunto de nano-robôs que permitem reparações do equipamento sem ser necessário recorrer a cirurgias. Basicamente, evitam que seja necessário abrir a cabeça do utilizador, mesmo que por métodos pouco invasivos, sempre que o equipamento avaria. Os mesmos robôs também permitem fazer upgrades. E o que se passou, aparentemente, foi isso. Os bichinhos expandiram o equipamento até zonas do cérebro, que, segundo o Dr. Tracy me diz, controlam os movimentos das pessoas.

Flynn ficou gelado com o que estava a ouvir.

– E não só – interveio o médico – A rede de neoligamentos também se expande para o córtex sensorial, ou seja, as zonas que recebem e interpretam estímulos externos.

– Basicamente, Inspector Flynn – continuou Ishiguro, – estamos perante uma modificação de provável origem externa que permitiu que os implantes controlassem movimentos e recebessem o feedback sensorial. Creio que se trata de um software tão avançado que se sobrepôs ao firmware do equipamento e usou as suas capacidades para auto-modificar o hardware. Só consigo imaginar a complexidade de tal programa. Infelizmente, o mesmo apagou-se e fritou os implantes, suponho que após a morte da vítima. Mecanismo de autodestruição. Não me interprete mal, mas gostava de conhecer o criador da coisa, que tem de ser um génio, para lhe apertar a mão.

– Pois, eu preferia apertar-lhe o pescoço – ripostou Flynn, reparando que o médico estava com um ar distraído, como quem está a fazer comunicação via Meganet. O que era o caso, já que de seguida Tracy anunciou:

– Estou em linha com um colega no Hospital Distrital. Houve mais um caso de um suicida com comportamentos estranhos. – Tracy sorriu antes de continuar. – Só que, Inspector, este sobreviveu!

Desporto Radical - 2

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