O smartwatch de Marcus Flynn vibrou no preciso momento em que se preparava para abocanhar um dos lendários cheeseburgers do Old Poppa Jack’s, um dos últimos locais na cidade a comercializar carne picada de bovino de verdade.

Contrariado, limpou as mãos para atender o aparelho. Numa das mesas vizinhas um rapaz com ar de convencido olhava para ele com uma expressão de gozo desdenhoso. Sem dúvida, acharia piada ao uso de um smartwatch naquela época; afinal, praticamente toda a gente preferia usar implantes cranianos de acesso à Meganet para efectuar comunicações. Mal o puto imaginava que Flynn, devido ao seu trabalho, tinha acesso a implantes muito mais sofisticados do que o comum dos cidadãos. Mas detestava ter as vozes dos interlocutores na cabeça e pura e simplesmente gostava do smartwatch. Qual era o mal nisso?

No pequeno holoecrã apareceu a identificação do Dr. Tracy, o médico-legista. Flynn atendeu-o com o seu cumprimento habitual:

– Olá, Doc. Que se passa?

– Olá, Inspector. Gostaria de falar consigo acerca de uns casos, assim que possível. Tem hipótese de passar no necrotério ainda hoje? – perguntou Tracy.

– Ok, Doc. Estou a almoçar, mas daqui a pouco vou ter consigo.

– Muito bem. Até já, então.

– Até já.

Descontraidamente, comeu o cheeseburger. Estava delicioso, como sempre. A carne de vaca verdadeira era muito cara atendendo à raridade dos bovinos e, por isso mesmo, comer um cheeseburger genuíno era considerado um luxo. Mas Flynn sentia que merecia mimar-se um pouco de vez em quando.

Quando terminou a refeição, dirigiu-se ao veículo da polícia. Apesar de passar pouco do meio-dia, estava escuro na rua, graças à combinação da poluição com a arquitectura de prédios altíssimos, situados em ruas mais estreitas do que o bom senso comandava.

Ligou o veículo e colocou-o em modo maglev; não gostava muito de voar, mas com os engarrafamentos constantes, nunca mais conseguiria chegar ao necrotério se não o fizesse.

Meia hora depois estava à entrada do gabinete do médico-legista. Bateu à porta, que estava entreaberta, e viu que Tracy estava a transpor áudio-apontamentos para um relatório de autópsia. O médico, distraidamente, fez-lhe sinal para entrar.

– Viva, Inspector. Obrigado por ter vindo.

– Ora essa, Doc. Mas diga-me, o que é que tem de tão urgente para me dizer que não pudesse falar via telecomunicação?

Tracy rodou na cadeira para encarar Flynn de frente; o inspector nunca se habituara muito aos olhos cibernéticos do médico. Sem dúvida seriam muito úteis para o seu trabalho, com capacidade para ampliar imagens, fazer uma série de análises e tudo o mais, mas sempre achara que Tracy podia usar aplicações para lhes dar um aspecto mais natural; em vez disso pareciam dois faróis avermelhados. Eram desconcertantes, tal como a mão biónica direita, que tinha lâminas de bisturi retrácteis acopladas na ponta dos dedos. Tal como os olhos, eram sem dúvida muito úteis para fazer autópsias, mas repelentes, no mínimo, sendo ainda a razão pela qual Flynn evitava cumprimentá-lo com aperto de mão.

– Tem a ver com três casos de suicídio que ocorreram nas últimas duas semanas – respondeu Tracy.

– Bem, Doc, suicídios não são da minha alçada, a menos que… – começou Flynn.

– Que não sejam o que parecem. Sim, eu sei. Suspeito de homicídios encobertos.

– Hmmm, ok, mas vamos com mais calma. Estamos a falar de quem?

– Na última quinzena tivemos três suicídios particularmente aberrantes. O suicídio, por si só, já é uma anomalia, considerando a quantidade de antidepressivos de toma obrigatória, mas ainda acontece. Mas estes três tiveram contornos mais bizarros, por assim dizer.

– Explique lá isso um bocadinho melhor, por favor.

– Há quinze dias, foi-nos trazido o que sobrou de um indivíduo que mergulhou de cabeça no tanque dos crocodilos transgénicos no Zoológico. – Flynn lembrava-se bem desse caso, fora muito noticiado na HoloTV. – Os registos de vídeo mostraram um indivíduo bem vestido que, de repente, resolve trepar por cima das protecções e saltar lá para dentro. Mas o interessante é a expressão do sujeito: terror puro, e se quiser tentar ler os lábios do sujeito, parece estar sempre a dizer “Não”.

– Onde quer chegar? – questionou Flynn, adivinhando para onde a conversa rumava.

– Dá a ideia que o sujeito não queria morrer. Como se o estivessem a forçar.

– Quem investigou o caso, Doc? – quis saber o inspector.

– O seu colega, o Inspector Potts – respondeu o médico com ar desdenhoso. Flynn partilhava o sentimento; Clancy Potts era um preguiçoso incorrigível, mais preocupado em encher o bandulho e coçar as partes privadas do que em apresentar serviço decente. Encaixava perfeitamente nos estereótipos antigos do polícia incompetente e obeso, devorador de donuts, propagado nos media do fim do século XX e início do século XXI.

– Falou disso ao Potts, presumo?

– Sim, é claro. Ele não ligou muito, como seria de esperar, e achou que o indivíduo ou era louco ou drogado. O exame toxicológico só revelou as drogas regulamentares presentes no abastecimento de água e vestígios de um analgésico fraco. E o indivíduo não tem história de doença mental. Estranho, no mínimo, não diria? Mas não foi o único.

– Pois, disse-me que houve mais dois, não é?

– Sim. Uma rapariga universitária que, há dez dias, estava a voltar das aulas, na galhofa com as colegas, que dizem que ficou subitamente “esquisita”, começando a chorar com um ar assustado e que se atirou para a frente de um autocarro turístico de três andares. E o mais recente, há três dias, um engenheiro que estava a fazer a apresentação de um modelo novo de robô soldador na Expotech, que de repente resolveu agarrar o maçarico de acetileno ligado e encostá-lo à própria cabeça. Dizem as testemunhas que estava a implorar qualquer coisa como “Não, por favor não”.

– Suponho que o Potts não quis saber.

– Basicamente. E os resultados analíticos das duas últimas vítimas eram semelhantes ao do primeiro indivíduo, ou seja, nenhuma substância que pudesse induzir um surto psicótico. Escusado será dizer que também não se lhes conhecia nenhuma anomalia psíquica anterior.

– Então, resolveu falar comigo porque estes relatos o fizeram pensar que há mão criminosa nestes três casos…

– Ora nem mais, inspector. Mas para perceber melhor o que se passou, e tenho uma teoria sobre isso, vou necessitar de si. Conservei os encéfalos das vítimas, ou o que sobrou deles, sem lhes mexer. Só preciso que me autorize a pedir uma análise dos implantes cranianos das três vítimas.

– Dos implantes? Porquê?

– Porque suspeito que alguém os tenha usado para forçar estas pessoas a matarem-se.

Desporto Radical - 1

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