– Tenham cuidado! Lateralizem-lhe a cabeça!

Os músculos contraíram-se e os membros foram assolados por movimentos frenéticos e desordenados. O corpo entrara em convulsões. Nada que não fosse esperado de alguém que tomara uma dose letal. No entanto, a actividade cerebral era anómala, ultrapassando os picos e frequências da consciência no electroencefalograma.

– Preparem uma injecção de alfa-fenobarbitazepam, já! – ordenou alguém, por detrás de uma máscara que só deixava ver os olhos. Um andróide de braços com múltiplas articulações preparou uma seringa automática, com forma de pistola, em cujo visor lateral se lia o nome do composto pedido e as suas complexas especificações químicas. Pouco depois a seringa foi estendida ao médico. Ele pegou no pulso do paciente e arregaçou-lhe a manga, enquanto um enfermeiro agarrava o braço, tentando que ele se mexesse o menos possível.

A porta da sala de tratamento abriu-se de rompante. Algo passou por entre médicos e enfermeiros, a correr. Num momento estava lá, no outro já não estava, a imagem oscilando entre qualquer coisa cheia de interferências e nada. Estacou à beira da cama, e agarrou a mão livre do homem em convulsões.

– Não dês a injecção! – ordenou outro homem de máscara, cujo olhar oscilava entre o paciente, o electroencefalograma e a imagem que, aos poucos se foi tornando mais corpórea, ganhando dimensões, até se começar a distinguir um corpo pequeno e magro.

– Papá… – murmurou. A voz parecia vir de muito longe, contudo ecoou nas paredes. Os instrumentos eléctricos desestabilizaram. A linha do gráfico digital desapareceu.

Nesse momento, a imagem focou-se por completo, revelando uma criança do sexo feminino, nua e sem um fio de cabelo. Numa reacção àquela aparição, as convulsões diminuíram, pouco a pouco. O silêncio entre os presentes era profundo, interrompido somente pelo apitar do monitor cardiorrespiratório.

– Papá? – A menina tentou trepar para cima da cama alta.

Ao ver a ânsia dela, uma enfermeira ajudou-a sem pensar. Mal se viu lá em cima, a pequena abraçou o homem e escondeu o rosto contra o peito ofegante.

A actividade cerebral regressara à monitorização do aparelho e normalizara. Ele continuava vivo. A linha sofreu uma mudança subtil. O paciente mexeu-se ligeiramente e os olhos abriram-se, fitando o tecto branco. Inspirou e expirou, antes de ganhar coragem e baixar o olhar. Os olhos encheram-se de lágrimas. Muito devagar, os braços envolveram a criança semi-deitada sobre si.

– Cecília…

 

Henrique observou a conclusão do relatório completo do seu caso. Fizera mil e uma análises ao sangue, lavagens gástricas, e outro sem número de exames. A máquina onde comprara os comprimidos fora também confiscada para averiguações. Os investigadores examinaram todos os componentes e experimentaram as hipóteses em modelos computacionais. Nos testes químicos, conseguiram descobrir que um dos adjuvantes das ilusões desnaturara parcialmente, perdendo o efeito suposto. Contudo, houvera qualquer coisa mais que lhe mudara a conformação química, e ele ganhara novas propriedades. De alguma forma, fora essa nova estrutura que interagira com o cérebro, despertando zonas cujas interacções tê-lo-iam feito recuar no tempo ou, pelo menos, uma parte de si. E, ao mudar o passado, as partículas vivas que compunham os organismos envolvidos tinham mutado, reintegrando-se no novo Presente. Cecília renascera. Quanto a Elisa, fora encontrada sem vida. Em todo o caso, era tudo ainda uma teoria. E, na verdade, também não queria saber. Ele conseguira, recriara-a. E refutara todas as vezes em que fora acusado de ser incapaz de gerar uma filha.

Uma pequena correu para si, interrompendo-lhe os pensamentos. Pôs o relatório de parte.

– Olha o que eu encontrei à janela!

Com muito cuidado, Cecília abriu as mãos. Entre elas escondia-se uma joaninha. O insecto trepou-lhe pelos dedos e empoleirou-se numa unha. A seguir abriu os élitros, estendeu as asas internas e voou. Não era uma ilusão.

Parte III

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