– Papá!

Mal a porta da entrada se desmaterializou, uma menina correu para ele, abraçada a um pequeno robot. As tranças compridas, cor de ouro, ondulavam atrás dela, com vida própria. Cecília nascera sem cabelo, contudo a mãe insistira em implantar-lhe uma nova fibra feita de células vivas… que, como ténias, se alimentavam da sua menina. Só o pensamento revolvia-lhe o estômago e dava-lhe vontade de as arrancar, pondo um fim à causa da fraqueza e palidez que tomavam conta dela.

Recebeu-a de braços abertos e aconchegou-a contra o peito num abraço carinhoso.

– A minha princesa da galáxia superior – disse, roçando o nariz no dela.

Cecília riu-se, uma gargalhada cristalina, pura. Depois ofereceu-lhe um beijinho na bochecha, e fez o robot dar-lhe um também, mais frio.

– A mãe disse que hoje não vinhas, e queria que eu desactivasse. Mas eu sabia que vinhas – disse, com um aceno sábio. – Rezei para que viesses.

– E a Partícula Mãe atendeu as tuas preces. – Levou a menina para a sala de estar e pousou-a no sofá. – O pai vai só mudar de roupa num instante, não saias daqui.

Ao sair da divisão, o sorriso desapareceu. Procurou Elisa, a sua esposa. Encontrou-a na cozinha, sentada diante de um ecrã que flutuava sobre a mesa. Mal o viu, um sorriso abriu-se-lhe no rosto. Tocou de imediato no ecrã e este apagou-se, desaparecendo.

– Finalmente! Eu…

– Porque é que disseste à Cecília que eu não vinha? Porque é que a querias desactivar? – interrompeu, mais bruscamente do que queria. A desactivação levaria a que a filha ficasse inconsciente durante, pelo menos, oito horas.

Ela dera um passo em diante, preparada para lhe dar um beijo de boas-vindas, mas deteve-se. Engoliu em seco.

– Pensei que poderíamos ter um jantar a sós, algo romântico – confessou. – Isso deixa-te assim tão irritado? Estamos juntos durante tão pouco tempo.

– O jantar pode esperar uma hora ou duas – notou, com um suspiro cansado. – Por vezes penso que, para ti, ela é só uma boneca que podes arrumar na prateleira quando te cansas de brincar.

Elisa semicerrou os olhos.

– Ela nem sequer é tua filha. – As palavras cortavam como lâminas. – Nada em ti era capaz de fazê-la. Nada.

Olhou-a por uns segundos, a resposta bailando-lhe na ponta da língua. Contudo acabou por lhe voltar costas. Não podia negar a esterilidade que nenhum método científico fora capaz de reverter.

– Parece que já não vai haver jantar romântico. Não precisas de perder tempo, podes desactivar-te.

Afastou-se para o quarto. Aquela faceta da esposa ficara encoberta durante anos, até Cecília nascer. O tom cáustico, as palavras que magoavam, e o ciúme. Principalmente esse último que, ano após ano, deteriorara a relação. Suspirou.

Dedilhou uma sucessão de botões posicionados sobre o ombro esquerdo. O fato desintegrou-se no instante a seguir. Descolou a fita de botões do ombro e guardou-a dentro de uma caixa, junto de muitas similares, mas de cores e botões diferentes. Depois vestiu um pijama tradicional, um daqueles feitos de tecido real, puído do uso, mas tão incrivelmente confortável!

Quando chegou à sala, Cecília conversava animadamente com o robot, sentada numa colcha tridimensional, cujas imagens projectadas formavam campos verdes pintalgados de flores de todas as cores. Outra ilusão.

Franziu as sobrancelhas. Aquele pensamento era-lhe incomodamente familiar. O seu emprego levava-o a criar ilusões que serviam de aconchego à mente humana, mas nunca pensara nelas como algo mau, ou simplesmente uma mentira. Porquê a mudança súbita? Tentou ignorar o assunto e foi sentar-se no sofá, vendo a filha brincar.

Uma inspiração mais pesada chegou até si. Olhou para a porta e deu de caras com Elisa. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Se o olhar matasse, provavelmente alguém naquela sala cairia por terra, tamanho era o ódio que emanava. Fechou as pálpebras, tentando escudar-se.

 

Sangue, demasiado sangue. A camisa de dormir, outrora branca, ensopava-se num escarlate escuro. E havia buracos, demasiados, espalhados pelo peito e o ventre. Pior só o olhar azul, vidrado, morto. Os cabelos eram serpentes vivas, a única coisa que se mexia no corpo que jazia sobre a colcha tridimensional. Sentada no sofá, Elisa tinha o olhar preso no pequeno corpo. Ainda segurava a faca, manchada. A esposa voltou o rosto para ele e sorriu.

 

Abriu os olhos de súbito, sobressaltando-se. O coração cavalgava-lhe no peito e o sangue pressionava-lhe as têmporas. Ilusão… era tudo uma ilusão. E era muito mais.

– Estás a chorar, papá – notou a pequena, largando o brinquedo e indo ter com ele. Tomou-lhe as mãos nas suas tão pequenas e de dedos frágeis.

Estava, de facto, percebeu, ao sentir os dois trilhos que as lágrimas lhe deixavam no rosto. Acontecera na realidade, aquela imagem horrenda. Não permitiria que lhe roubassem a filha também ali, dentro da sua mente, uma segunda vez. Nunca.

Dobrou-se e beijou-lhe a fronte, sentindo o acto como um derradeiro toque de carinho. A última oportunidade de estar com ela. Conteve um soluço. Pensara que se livraria das recordações, substituindo-as. Mas lá estavam elas, demasiado frescas.

– Amo-te muito, meu doce – disse, mesmo estando consciente de que ela não ouviria. A sua filha não estava ali. – Mais do que tudo.

A menina inclinou um pouco a cabeça, o olhar inocente, porém preocupado, tentando entender o que se passava.

Ele levantou-se e bloqueou a porta ao sair da sala. Procurou-a na cozinha. A divisão estava vazia. Observou cada um dos objectos, procurando o brilho da lâmina assassina. Abriu gavetas e armários, antes de se deter junto à mesa, onde ela estivera sentada. Lembrava-se de a ver ali regularmente, por vezes acocorada, como se apanhasse alguma coisa. Contudo nunca havia nada para apanhar. Baixou-se e tocou a zona inferior do tampo, os dedos deslizando até sentir o toque frio do aço. Arrancou-a de lá. Em 2099, as facas eram consideradas objectos primitivos, tal como a fita-cola que fora usada para a prender e esconder ali. Ele coleccionava esse tipo de coisas antigas, só nunca pensara que ela as usaria para algo tão cruel. Crispou a mão no cabo e seguiu caminho até ao quarto.

Sentada à beira da cama, Elisa segurava nas mãos um porta-retratos antigo. Contemplava uma fotografia de casamento, onde não havia mentiras nem ilusões. Os sorrisos não podiam ser mais felizes. A máquina que a tirara era uma das suas relíquias do passado, datada de 1995.

Ele aproximou-se sem uma palavra. Quando percebeu que não estava sozinha, a esposa ergueu o olhar. Primeiro viu-o, depois viu a faca e o rosto tornou-se lívido.

– Henrique…

Foi a última palavra que pronunciou, antes de a faca lhe romper o peito até ao coração.

 Parte II

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