A noite caíra mais cedo do que o esperado. A chuva miudinha entranhava-se na roupa e parecia querer gelá-lo até à alma. O cabelo colava-se à cabeça, dando-lhe um ar de pinto murcho, enquanto caminhava pela rua deserta. Ao menos ninguém podia olhá-lo com atenção e perceber que as gotas que lhe escorriam pelo rosto não vinham do céu. Mordeu o lábio inferior, tentando conter-lhe o tremor.

Flutuando dois metros acima da sua cabeça, as candeias anti-gravidade acendiam-se ao detectar uma aproximação viva. Para além daquele raio de luz de cerca de vinte passos, era tudo escuridão. A consciência da solidão gerou-lhe um arrepio súbito que lhe percorreu o corpo. Encolheu-se, contudo não refreou o passo. Tinha de continuar a andar. Se parasse, as memórias abalroá-lo-iam, esmagando-o contra uma parede, estripando-lhe a consciência até esta não passar de uma amálgama de sensações viscerais.

Contornou uma esquina. Mais à frente, uma luz rompia a escuridão. Franziu as sobrancelhas. Num bairro vulgar eram raras aquelas aparições. Quando as candeias se acenderam, revelaram uma máquina automática um pouco mais alta do que ele, estacionada como um mono no meio da rua. A pouca eficiência energética do aparelho fazia com que a luz libertasse calor. Nunca um desperdício lhe parecera tão tentador.

Tocou na superfície lisa com uma mão. A parte da frente da máquina estava repleta de imagens idílicas, desde as praias havaianas do passado, ao topo nevado do Kilimanjaro. Eram como a vida, uma espada de dois gumes. Num dia representavam o paraíso, mas no fim só restavam as ilusões. E era disso que ele precisava, uma boa ilusão para esquecer tudo, que fizesse um reset à sua informação cerebral.

Tirou o porta-esferas do bolso e escolheu uma esfera de safira, pouco maior que a sua unha do mindinho. Brilhava sob a luz fosca da máquina. Era das mais preciosas que trazia consigo, valia cerca de 10 mil esferas de vidro. Mas ele queria uma ilusão cara, o mais real e envolvente possível, para se perder nela durante horas. Talvez para não mais acordar. Conhecia a dose exacta para isso. Tocou com a esfera numa circunferência metálica incrustada ao nível dos ombros. A linha reluziu e desmaterializou a esfera em partículas de luz. Instantaneamente, e um palmo abaixo, o sensor de leitura da impressão digital ganhou vida, reluzindo a vermelho. Inspirou fundo e pousou nele o dedo médio. Um formigueiro remexeu-se sob a pele do dedo, o programa fazendo uma análise rápida das terminações nervosas que existiam na área de contacto. Depois a sensação tomou-lhe a mão e subiu através do braço, enquanto a análise da máquina abria caminho até ao cérebro, usando como trilho o sistema nervoso. Fechou os olhos, deixando a análise decorrer sem interferências.

O interior da máquina produziu um chiar agudo e muito desagradável. Teria substâncias activas suficientes, ou estaria sequer funcional? Abriu as pálpebras e lançou-lhe uma mirada implorativa. O ruído durou cerca de meia dúzia de minutos. Ele pôde imaginar o processo de mistura, desidratação e compressão que decorriam, a pesagem e análise do produto. Por fim, uma embalagem de plástico rebolou até ao pequeno compartimento quase aos pés da máquina. Deitou-lhe a mão de imediato. Ignorou o que o rótulo dizia. Sabia-o de cor, fora ele que o escrevera: não deve exceder a toma de um comprimido de três em três horas. Riu-se como um louco, apoiando a mão livre na máquina. Aquilo fá-lo-ia esquecer a chuva, o frio… e a morte.

Encostou-se mesmo ali, escorregando pela superfície morna da máquina. Abriu a tampa da embalagem e deitou quatro comprimidos na mão. Eram ovais, de superfície suave, e de um tom que lembrava o mar. Aproximou-os do nariz. E ali estava o perfume da maresia que já ninguém era capaz de sentir numa praia real. Até isso fora roubado ao mundo.

De uma só vez, meteu os quatro comprimidos na boca. Desfizeram-se mal entraram em contacto com a saliva, libertando um sabor simultaneamente doce e salgado, mas de uma frescura pura. Engoliu-os e despejou mais quatro. Depois olhou para os últimos, um terço da embalagem. Mais um, menos um… esvaziou-a. Fechou os olhos, com um sorriso agridoce nos lábios.

Ao não detectarem qualquer movimento, as candeias flutuantes apagaram-se.

Parte I

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